sexta-feira, 23 de abril de 2010

DISTRITO DE BOMFIM DE FEIRA. Feira de Santana - Bahia. MEMÓRIA AMBIENTAL, FOLHAS CHEIROSAS E RELIGIOSIDADES


Caro Vicente,

Em 2002, conheci os Lençóis Maranhenses e Sr. Antonio Vieira, sambista e compositor de São Luís, que produziu o primeiro disco aos 80 anos ou mais, se não me engano. Conhecia seus versos e presenciar seu show foi uma alegria:

“é o vento que sopra águas tão mansas/ que faz onda agitada no leito do mar/ (...) e o vento ciumento, olhando a ternura / que existe da areia com a onda do mar / só procura levá-la pra longe das praias/ e lá, bem adiante, vão as dunas formar”.

Neste tempo, eu só via as areias! Passados oito anos, outros versos dele tornam-se presentes em um trabalho acadêmico com minha participação. Não mais areias e ventos, mas folhas cheirosas! Com o título “banho cheiroso”


“Você deve tomar banho cheiroso / você deve tomar banho cheiroso pra acabar com essa mofina e o corpo ficar jeitoso / ... você sente uma moleza ... ele é feito de pequi, pau-de-angola e fuxuri, leva dedo de mulata e também patichuli, jardineira, pataqueira e também manjericão, leva rosa todo ano, amoníaco e açafrão ...”

Folhas cheirosas, banho cheiroso e manifestações culturais estão entre nossos objetivos para deslocarmos 40 km da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana para o distrito Bonfim de Feira. Estes itens despertaram outros rumos para a pesquisa e o trabalho com a extensão.

Neste distrito de 34 km2, há 24 centros religiosos de orientação afro-brasileira (11) e de orientação cristã (13). Dentre os centros cristãos, quatro são católicos, um evangélico, sete pentecostais e dois de outra orientação cristã, considerando a classificação do IBGE. O número de fiéis não é definido, porém a população total está estimada em 4.000 habitantes. O comércio é modesto. A economia depende da pecuária e da agricultura de subsistência.

Preliminarmente, por meio de dados secundários (IBGE, Prefeitura), a avaliação ambiental indicou um baixo índice de comprometimento do substrato naquela área. Veio o trabalho de campo e ledo engano, pois o estudo in loco evidencia desmatamento, assoreamento, erosão, falta de água potável, falta de saneamento básico e lixo disposto a céu aberto. Este diagnóstico foi elaborado por Alisandra Silva (IC-Fapesb) e Gracinete Bastos (professora de Ciências Exatas). Outras pesquisas foram desenvolvidas e como conseqüência veio o projeto de extensão “Bom fim: Bonfim de Feira em foco”.

A prática da extensão tem sido muito importante, pois a população relata e contribui com informações relevantes e valiosas sobre memória, história, cotidiano e religiosidade do lugar. Quanto aos documentos que resultaram de três anos de pesquisa e um ano de extensão neste distrito, está “Cortejo dos cheiros”, no qual a identificação de itens vegetais da área de uma pedreira abandonada se revela como exemplo de restauração do meio ambiente que mostra a possibilidade de recuperação de outras áreas desmatadas. Passa pelos terreiros, o banho cheiroso, com ponto de partida em uma manifestação cristã católica - o domingo de ramos.

Em 05 de abril de 2009, documentadas por Alisandra Silva, Laina Melo, Agda Luz, Gracinete Souza e Liana Barbosa, as folhas cheirosas da procissão de ramos chamaram atenção e instigaram a questão: por que o símbolo não é a palmeira, como normalmente se apreende da cultura européia católica? Conversando com as pessoas e tentando entender a cultura do lugar, a resposta plausível foi apreendida na memória, história e cotidiano do Bonfim.

Na memória deste distrito, há farmácias de manipulação no início do século XX até a década de 1960; até bem pouco tempo teve um farmacêutico prático que aprendeu a arte de manipulação de ervas e na ausência do doutor indicava remédios caseiros; a população afro-descendente é uma das maiores do município de Feira de Santana; tem rezadeiras e zeladores para quem plantas são essenciais...
Akokô, alumã, aquarana, alfazema, alecrim de caco, alecrim de vaqueiro, romã, cidreira, capim santo, catinga de porco, arruda, guiné, hortelã, manjericão, boldo, suspiro branco, pindoba, quioiô etc etc etc. São folhas de uso mítico, místico e terapêutico.

Na área da “pedreira” abandonada, como mencionado acima, está a capacidade de recuperação da cobertura vegetal em aproximadamente 50 anos. Situado nas proximidades da entrada da fazenda São Bento, setor norte do distrito, o local de retirada de rocha produziu materiais para pavimentação de ruas e uso na construção civil em geral: brita e paralelepípedo. Porém a extração cessou na década de 1950, com isto, a provável reserva desta área permitiu a recuperação do solo (mesmo que incipiente) e possibilitou o desenvolvimento da vegetação.

Anotamos pedreira, mas apreendemos que, para o bonfinense, pedreira é onde há pedras! Para os geólogos e a economia mineral, pedreira é área de retirada de rochas! Para o bonfinense os ramos levados na procissão têm mais efeito para o uso ritual e medicinal do que aquele coletado na mata ou no quintal na hora de uso, pois os ramos são abençoados durante o cortejo e a missa. Para os pesquisadores, os ramos se constituíram em objeto de estudo, e, estão sendo identificados para construção de um cadastro das plantas medicinais do Bonfim.

Nos terreiros, as plantas estão presentes na ornamentação de barracões, nos ritos, nos instrumentos, nas oferendas e nos cânticos: “defuma com a erva da jurema, defuma com arruda e guiné, benjoim, alecrim e alfazema, vamos defumar filhos de fé”. Ou “Omulu, omulu, rei da flor”! Algumas plantas utilizadas nos terreiros são oriundas do extrativismo nas matas e outras são cultivadas nos jardins e quintais.

Até então, o quadro conta com 63 itens vegetais (pedreira, terreiros, procissão de ramos) com as denominações usadas pelos populares. Destes itens, 38 foram listados nos terreiros; 22 na procissão e 21 na pedreira. Os terreiros e o as manifestações religiosas (católicas, afro-brasileiras e evangélicas) tornaram o evento campo de observação e aprendizagem. Ao final, arriscamos dizer, que a procissão de ramos e outras manifestações religiosas locais são veículos de transmissão da sabedoria popular com o uso das plantas, e, provavelmente, uma forma de resistência da cultura afro-brasileira.

Liana Maria Barbosa

Nota do Blog
Profa. Dra. Liana Barbosa é professora de Geologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Um comentário:

  1. Bom trabalho professora Liana.
    Mauricio - Geógrafo(uefs)

    ResponderExcluir