terça-feira, 30 de novembro de 2010

DAGMAR CHAMORRO , nossa nova companheira

DAGMAR CHAMORRO, nossa nova companheira de Blog.

Seja muito bemvinda.

Companheira(o) é palavra composta de com + panheiro e significa aquela(e) que come junto (conosco) do mesmo pão

Este Blog sente-se honrado de ser pão para tantos e tantas compnheiro(a)s.

Obrigado por ter vindo, Dagmar.

Vicente

Eduardo Campos - Por um pacto pela saúde pública

Por um pacto pela saúde pública

Eduardo Campos

[Folha de S. Paulo. São Paulo, SP, 29 de Novembro de 2010, p. A3]


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Nós precisamos formatar e expandir parcerias com o setor privado para aumentar a oferta de consultas e exames pelo Sistema Único de Saúde
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O Sistema Único de Saúde (SUS), considerado um dos maiores programas sociais do mundo, beneficiando cerca de 80% dos brasileiros, consolidou-se como um dos grandes legados da Constituição Federal de 1988.

Sonho de sanitaristas em ofertar a todos os cidadãos assistência até então restrita a previdenciários, o SUS, agora com 22 anos, precisa adentrar na que talvez seja sua importante fase: a da modernização da gestão e da sustentabilidade.
Mais de duas décadas depois de sua implantação e de história marcada por dificuldades e vitórias -como a redução da mortalidade infantil em mais de 60%-, há ponto de convergência entre gestores públicos: é preciso investir mais.

Ao longo dos anos, e devido a fatores como envelhecimento da população, doenças crônicas, acidentes de motos, medicamentos de alto custo e novas tecnologias, os cofres públicos vêm enfrentando dificuldades com a progressão geométrica dos gastos. Cumprindo a emenda constitucional nº 29, ainda à espera da aprovação de sua plena regulamentação no Congresso, os Estados devem destinar pelo menos 12% das receitas próprias para a saúde, o que já deixou de ser realidade para muitos.

O governo de Pernambuco, por exemplo, fechará 2010 com o índice próximo a 17%. Se, em 2007, havia 3.844 leitos sob gestão do Estado no SUS, atualmente são cerca de 5.000, devido à construção de novos hospitais e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e à contratação de leitos na rede privada. Muitos municípios, obrigados a destinar 15% de suas receitas para a área, chegam a ultrapassar 25%. Para incentivar investimentos no setor, o governo do Estado reduziu a cobrança de ICMS para a aquisição de diversos medicamentos e equipamentos.

A realidade, porém, é que o país ainda está em patamares muito inferiores, nos gastos públicos com saúde, em comparação com outros países. Aqui, cerca de 3% do PIB (Produto Interno Bruto) é destinado ao setor -metade do que é aplicado pela média de outros países.

Segundo levantamento da OMS, de 2006, o Brasil ficou na 79ª posição, em um total de 163 países. Os US$ 204 per capita gastos pelo Brasil nos deixam atrás, por exemplo, de Costa Rica (US$ 269) e Lituânia (US$ 381). O Canadá tem um gasto per capita em saúde 14 vezes maior do que o do Brasil.

Em um cenário de anos de defasagem da tabela de remuneração por procedimentos do SUS -o que faz com que, por exemplo, hospitais privados e profissionais autônomos não se interessem em prestar serviço ao sistema-, a queda da CPMF tirou a possibilidade de aplicação de R$ 40 bilhões ao ano na área -que, vale lembrar, vai muito além de hospitais.

Nesse contexto, além do financiamento, o momento é de nos debruçarmos sobre um grande pacto entre governos e entidades privadas com o objetivo de discutir uma melhor gestão do gasto público.

Formatar e expandir parcerias com o setor privado para aumentar a oferta de consultas, exames e cirurgias pelo SUS, agilizar a regulamentação da emenda nº 29, formar consórcios intermunicipais e buscar exemplos bem-sucedidos de modernização da gestão, gastando com qualidade, planejamento, avaliação de metas e fiscalização.

Também aprimorar a aquisição de insumos e serviços, investir na carreira e na capacitação dos recursos humanos e adotar sistemas informatizados.

Esse grande pacto, com o objetivo de ampliar o financiamento e a assistência à população, deve ser pautado pela qualificação do gasto público e da gestão, e não pela criação de impostos ou contribuições. É possível enfrentar e superar esse desafio, a exemplo de outros, ditos como intransponíveis e que hoje fazem parte da história de vitórias do povo brasileiro.
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Eduardo Campos, 45, economista, é presidente nacional do PSB (Partido Socialista Brasileiro) e governador reeleito de Pernambuco.

CEAO -, Arte ... Escravos ... 30/11 e 03/12

CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais

Eventos da semana no CEAO



Debate, palestra e mesa redonda acontecem nesta semana no CEAO. Participe!



|Eventos|


Palestra Arte Afro-Brasileira com o Prof. Dr. Kabengele Munanga – O evento integra o 1° Seminário Afro-Brasileiro de Artes Visuais e faz parte das comemorações do mês da consciência negra realizado pelo Museu Afro-Brasileiro do CEAO e da Associação Afro-Brasileira dos Artistas Plásticos. Auditório Agostinho da Silva (3283-5541). Terça-feira, às 18h30. Dia 30 de novembro.



Alufá Rufino: Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822-c. 1853) – Mesa redonda discute as aventuras de um ex-escravo africano envolvido no tráfico negreiro. Mais do que uma biografia convencional, a trajetória de Rufino serve como guia para uma história social do tráfico e da escravidão no mundo atlântico em meados do século XIX. Com a participação dos professores João José Reis (UFBA), Flávio dos Santos Gomes (UFRJ) e Marcus J. M. de Carvalho (UFPE). Auditório Milton Santos (3283-5506). Sexta-feira, às 15h. Dia 3 de dezembro.


CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais

Pç. Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de Julho - CEP 40025-010. Salvador - Bahia - Brasil
Tel (0xx71) 3322-6742 / Fax (0xx71) 3322-8070 - E-mail: ceao@ufba.br - Site: www.ceao.ufba.br

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

MÁRCIA CASTRO - STUDIO SP - RUA AUGUSTA - 9/DEZ

Museu Casa do Sertão jornais antigos digitalizados

Universidade Estadual de Feira de Santana (Feira de Santana - Bahia - Brasil)
Museu Casa do Sertão


Museu Casa do Sertão disponibiliza jornais antigos digitalizados



Manuscritos e jornais antigos que representam parte da memória de Feira de Santana estão sendo digitalizados e disponibilizados para consulta pública no Museu Casa do Sertão. O objetivo é contribuir para as pesquisas sobre a história e a cultura do município, além de garantir a preservação do acervo pertencente ao Museu.

Parte deste acervo já está digitalizada e disponível para consulta, como os periódicos do século 19 “O Município” (1892-1894), “O Propulsor” (1896) e “Gazeta do Povo” (1891-1893). Também já foram recuperadas cópias dos Relatórios Anuais da Prefeitura Municipal de Feira de Santana de 1936 e 1940, do então prefeito Heráclito Dias de Carvalho, e o livro “Pedaços d’Alma” do médico Honorato Filho (poemas) editado em 1926.


Toda a coleção de documentos manuscritos e folhetos religiosos doados pelo primeiro vice-reitor da Uefs, monsenhor Renato de Andrade Galvão, já está digitalizada. Estão disponíveis ao público cartas de alforria, carta imperial, cartas pessoais, certidões, declarações, queixa-crime, folhetos religiosos, o Compromisso da Irmandade de São Benedito de Feira de Santana, e o caderno de memórias do Dr. Remédios Monteiro, último Presidente do Conselho Municipal no período imperial do município.

A maior parte do acervo do Jornal Folha do Norte, um dos periódicos mais antigos ainda em circulação na Bahia, com 101 anos de fundação completados no mês de setembro, já vem contribuindo para pesquisadores da Uefs e de outras instituições de ensino através das edições exibidas nos computadores do Museu.

A coordenadora do Museu Casa do Sertão, a historiadora Cristiana Barbosa, salienta a importância da digitalização para que os periódicos estejam disponíveis à população. “Antes, muitos desses manuscritos e jornais estavam fora da consulta pública como medida de prevenção. Devido ao estado de conservação, não poderíamos arriscar que o material fosse danificado”, explica.

Ela também falou sobre a preservação dos manuscritos e periódicos antigos que vem sendo realizada ao longo dos anos pelo Museu Casa do Sertão. “Neles encontram-se informações sobre demarcações de terras, escravidão, política, economia, demografia e urbanização; fatos que, se não fossem preservados, poderiam gerar lacunas em vários campos do conhecimento histórico”, declarou.

A coleção de fotografias da Biblioteca Monsenhor Renato Galvão será alvo da próxima etapa do projeto de digitalização, que ainda passa por procedimentos técnicos. Essas fotografias registram imagens de Feira antiga, de personalidades, da Uefs e do acervo de peças do Museu Casa do Sertão.

O Museu Casa do Sertão funciona de segunda a sexta-feira, das 08 às 11h45 e das 14 às 17h45. Contato através do número (75) 3224-8099.

Seguem listados abaixo os títulos de jornais feirenses digitalizados e disponíveis na Biblioteca Setorial Monsenhor .

- O Município

1892-1894 e 1908-1911

- O Propulsor

1896

- Gazeta do Povo

1891-1893

- Folha do Norte

1909, 1910, 1911, 1912, 1913, 1914, 1917, 1918, 1919, 1926, 1927, 1928, 1929, 1930, 1931, 1932, 1933, 1934, 1935, 1936, 1937, 1938, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1958, 1960, 1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1969, 1970, 1971, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1978.

- O Progresso

1901-1903; 1905-1908

- Folha da Feira

1932-1935

- O Coruja

1956

- Feira Livre

1979


MUSEU CASA DO SERTÃO - BIBLIOTECA SETORIAL (75) 3224 - 8316
MUSEU CASA DO SERTÃO - COORD. (75) 3224 - 8099
MUSEU CASA DO SERTÃO - SALA DA DIRETORIA (75) 3224 - 8029


FSA, 17/11/2010

Vívian Servo Leite – Ascom/Uefs
Fonte www.uefs.br

GILBERTO DIMENSTEIN - Jovens bons de boca

GILBERTO DIMENSTEIN - Jovens bons de boca

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Agentes comunitários passaram a fazer baladas, com os melhores DJs, em que bebidas são proibidas
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Um grupo de adolescentes aprendeu, neste ano, técnicas de comunicação e marketing com o objetivo de disseminar, na maior favela de São Paulo (Heliópolis), informações sobre os perigos do uso abusivo do álcool. Eles se propuseram a encontrar uma linguagem que fosse, ao mesmo tempo, precisa cientificamente e, de fato, convincente para o paladar dos jovens.

Na quarta-feira passada, foram apresentados os primeiros resultados do projeto em um seminário em que estavam presentes cientistas, médicos e educadores.

A pesquisa foi realizada pela antropóloga Luciana Aguiar, formada pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e pelo economista e demógrafo Haroldo Torres, da Unicamp, que fez curso de especialização em Harvard.

As tabelas apresentadas exibiram indícios de que aqueles adolescentes, transformados em agentes comunitários de comunicação para a promoção da saúde, conseguiram inventar uma prática -que pode ser disseminada- para enfrentar ou, pelo menos, reduzir o dano da dependência química no geral e do álcool em particular.

A relevância da experiência é óbvia: a guerra que vemos no Rio de Janeiro nos remete à questão da combinação de jovens com marginalidade e drogas. E é reforçada mais ainda por um estudo divulgado em primeira mão durante o seminário, segundo o qual, na cidade de São Paulo, 33% dos estudantes do ensino médio ficam "altos" pelo menos uma vez por mês. O levantamento foi realizado neste ano pela Universidade Federal de São Paulo.

O assunto ganhou mais força também porque, na semana passada, o futuro secretário da Saúde de São Paulo, Giovanni Guido Cerri, anunciou que a prioridade de sua gestão será o combate ao abuso do álcool. Uma das principais armas nessa luta, segundo ele, será a educação. "Esse é um raciocínio que vale para a dengue: quando recebem informação e não deixam a água parada em casa, as pessoas não ficam doentes."

Com base em pesquisas quantitativas e qualitativas, os resultados apresentados pela antropóloga Luciana Aguiar ainda demonstram uma situação muito distante do desejável. Mas há sinais interessantes. O que despertou a atenção foi a comparação. Montou-se o que se chama de "grupo de controle". Acompanhou-se também a favela de Paraisópolis, onde esse programa de jovens que comunicam informações sobre álcool não foi implementado. São duas comunidades semelhantes tanto do ponto de vista social como do demográfico, além de contarem com organização política parecida.

Depois de seis meses de atuação dos agentes comunitários, o que se viu em Heliópolis foi um aumento do número de jovens que passaram a ver o risco da dependência da bebida. Em Paraisópolis, ao contrário, esse indicador piorou.

Para converter a percepção em ação, no entanto, é preciso percorrer um longo caminho. Um dado é alentador. Houve um decréscimo significativo do uso do álcool nas festas promovidas pela própria comunidade em Heliópolis.

Para isso existe uma explicação. Na estratégia de comunicação, os agentes comunitários passaram a fazer baladas, com alguns dos melhores DJs da região, em que a bebida é proibida. Também se criaram festivais de música com temas voltados à saúde.

A base do programa começou na rádio comunitária local e, em seguida, acoplaram-se profissionais de marketing e design. Os jovens das comunidades passaram a ser reconhecidos e valorizados.


Ainda é cedo para uma avaliação mais precisa do programa que mistura escolas públicas, especialistas em saúde, organizações locais, educadores, comunicadores profissionais e uma empresa (AmBev).

Os indícios positivos confirmam o que muitos educadores sabem: é o que geralmente ocorre quando o jovem, assessorado por adultos, é visto não como um problema, mas como uma solução.

PS- Coloquei no meu site (www.dimenstein.com.br) um resumo da pesquisa comparativa entre Heliópolis e Paraisópolis. Já no próximo ano, o programa deve ser levado para mais comunidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

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[Extraído do jornal “Folha de São Paulo”, São Paulo, SP, 28 de novembro de 2010, p. C6]

FCCV - FINALMENTE: O MEDO DE O MEDO PASSAR

FCCV - FORUM COMUNITÁRIO DE COMBATE À VIOLÊNCIA

Leitura de fatos violentos publicados na mídia
Ano 10, nº 41, 29/11/10

FINALMENTE: O MEDO DE O MEDO PASSAR

Nos últimos dias de novembro de 2010 experimenta-se a sensação de que o Rio de Janeiro chegou ao limite máximo no quesito violência. Nos meios de comunicação, o assunto avança pelas mais diversas modalidades e produtos à semelhança do medo que se espalha por todos os lugares já colocando em suspense a realização, na capital carioca, da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e das olimpíadas programadas para 2016.

Com o medo é injetado um poder inconteste sobre o tema violência e, desse modo, os problemas relacionados com a insegurança aparecem como áreas de atenção prioritária. Dá-se a impressão de que não faltarão recursos políticos, econômicos, sociais, técnicos para o enfrentamento do problema. A boa vontade fica à tona gerando a impressão de que, finalmente, é chegada a hora de dar ao problema a atenção merecida e necessária.

Este “finalmente”, entretanto, tem percorrido o tempo como marcador simbólico de avanços no que se refere ao incremento da insegurança. A cada vez que é registrada uma contundente extrapolação das formas já incorporadas de violência é erguida a bandeira do “finalmente”, indicando que aquela modalidade apresentada ainda não foi devidamente “domesticada” e dela pode surgir uma reação social e institucional que coloque em causa as tantas outras maneiras de violência já estabelecidas como práticas regulares no convívio social. O “finalmente” é uma espécie de conta de somar cuja última parcela supera, amplamente, as previsões quanto ao total. Esse excesso assombra e gera, imediatamente, um clamor que é respondido com poderosas declarações de empenho político e institucional.

Durante alguns dias, é executada uma catarse com grande visibilidade midiática que tem como alimento o medo, suas imagens e seus mistérios. Grande parte do País é tragada pelo pavor e dele quer sair às pressas enquanto as chamas não se alastram sobre as suas peles amedrontadas. As imagens vão se repetindo nas bancas de revista, nos noticiários de rádio e de TV, na internet. Aos poucos, os inusitados assuntos vão adquirindo uma feição conhecida que, embora não almejada, vai como que escorregando para a vala das coisas comuns. Nesse momento, o medo excepcional cede espaço ao temor ordinário, perdendo, portanto, o poder que a falta de familiaridade e a excepcionalidade impõem ao mobilizarem “nervos” originais e amedrontadores ante a ordem estabelecida.

No lapso de tempo em que o medo inédito vige, todas as atenções são carreadas para a assombração e um coro pasmo se belisca procurando na própria carne a verdade: “será que estou vendo isto?” As provas afirmativas se repetem em imagens enquanto são aguardadas mais ocorrências que sustentam o clima de espanto. Não demora a surgirem novos registros colhidos nas ruas dos morros, afigurados como bélicos cenários. Escutam-se repetidamente a palavra guerra, enquanto são mostrados arsenais do Estado sob forma de volumosos corpos como tanques tal como um blindado com esteira que ilustrou a disposição da Marinha na ação.

Muitos cronistas tomam estas providências como elementos para a mensuração do conflito e comentam os equipamentos à moda de apresentação de coisa rara. Esta opção jornalística dá ao próprio maquinário uma ostentação pela qual se pode pensar em superioridade ante o poder bélico do inimigo que, por sua vez, também é mostrado como prova de radical disposição violenta e de sandice. Neste ínterim, cabe um “finalmente” caracterizado pela destacada presença do Estado no território ameaçado, dando-se a impressão de uma reintegração de posse.

O tempo presente é o corte temporal predominante. E quando o agora é duração única há uma tendência de se interpretar as saídas emergenciais como solução definitiva e completa, negligenciando-se os aspectos originais da crise aguda bem como as suas repercussões futuras. Eis outro campo para um “finalmente” que confunde o alívio imediato com a “cura”, comparável ao enfermo que deposita toda a sua crença no analgésico e decide tomá-lo arcando com os danos à saúde que não é tratada permanentemente. Interpretadas em sua dimensão analgésica, as forças da ordem são apresentadas sob forma mais aplicativa que explicativa, como é cabível nas situações de risco imediato.

Resta, quando passado o grande e poderoso susto, o medo decadente que apela às grades, aos seguros, às várias formas de evitação do estranho e torce para nunca ser assaltado, estuprado, seqüestrado, assassinado e, finalmente, nunca ter o seu acesso à casa interrompido por ônibus incendiados com o propósito de impedir a chegada de policiais a espaços urbanos controlados pelo crime organizado.

É estranha a situação a que se chega a propósito do valor dos temores. Ser portador de um medo que é, “finalmente” reconhecido, alardeado e consensualmente validado por uns dias de aguda aflição pode ser uma chance de conquistar um pouco mais de paz. Nesse sentido, como fazer para, no desassossego máximo, ter pernas para correr e para fincar um “finalmente” que não seja passageiro, finalmente.

Cabe lembrar que, na circunstância em curso no Rio de Janeiro, não convém esperar que a mídia mantenha o realce sobre o assunto causando constrangimentos à ordem vigente a ponto de se alterar os hábitos institucionais e superar as anomalias sociais. É necessário que o problema assuma relevância junto à sociedade civil no se refere à sua mobilização com vistas a uma pressão política mais consistente e duradoura. Quem sabe, assim, finalmente...

domingo, 28 de novembro de 2010

MUNDO .. Chile: estudantes protestam contra aumento de aulas de Matemática

Chile: estudantes protestam contra aumento de aulas de Matemática


Um protesto realizado por estudantes de História e Geografia da Universidad do Chile e da Universidad de Santiago terminou em confusão nesta quinta-feira, (25/nov)em Santiago. Pelo menos quatro pessoas foram presas enquanto os alunos protestavam, em frente ao Ministério da Educação, contra o projeto do governo que pretende diminuir as aulas de História e aumentar as aulas de Matemática e Línguas.

Com o slogan "Educação sem história é um povo sem memória", os estudantes mostraram seu descontentamento com a mudança do currículo. Professores também entregaram uma carta ao ministro da Educação e afirmam que a redução das aulas de História é "uma medida política".

CRÔNICA ... BARES E MARES SECARAM EM SALVADOR

BARES E MARES SECARAM EM SALVADOR

CRÔNICA DOMINICAL (28 de novembro/2010)

Em Salvador (Bahia - Brasil), finalmente cumprida a profecia do beato Antonio Conselheiro: o mar secou e, com ele, o bar também secou.

Destruíram todas barracas e respectivos mobiliários assentados sobre a areia da praia; e não construíram os bares/restaurantes para onde prometeram transferir os barraqueiros.

Entre profecias e promessas, no lugar das barracas com geladeiras e freezers para a conservação de alimentos e de fogões para prepará-los, o "jeitinho" de toldos cujos donos alugam mesas a R$ 10,00 (dez reais)e vendem cada garrafa de cerveja quente por esse mesmo preço. O maior "barraco" !

Em Salvador, desde 1549 (ano de sua fundação por Tomé de Souza - primeiro Governador Geral do Brasil), comenta-se que a maior parte das pessoas que se dirigiam à praia (nos bons tempos em que praias haviam) tomava 'banho de bar' e, raramente, banho de mar. Agora, neste domingo último do penúltimo mês de 2010 - a exemplo das dezenas de domingos anteriores - ... nem bar, nem praia. Sim, nem praia; a não ser que alguém chame de praia dejetos humanos, detritos, restos de alimentos e de latas de bebida, cascas de frutas e ossos de frango, papel higiênico usado ... tudo espalhado na areia que emoldura um mar imundo e maltratado.

Visitem Salvador no próximo verão. Em uma outra postagem direi qual o ano desse próximo verão. Aquel@s que viverem verão.

sábado, 27 de novembro de 2010

'Orelha' de "O Centro Histórico de Salvador" - Juarez D. Bomfim

Juarez Duarte Bomfim - "O Centro Histórico de Salvador": sua integração sociourbana. Prefácio de Horácio Capel. Feira de Santana: UEFS Editora, 2010. 360 p. ilus

Ontem, 26 de novembro, na Livraria LDM (centro de Salvador - Bahia - Brasil), o professor da Universidade Estadual de Feira de Sanatana (Bahia) Juarez Duarte Bomfim lançou o livro "O Centro Histórico de Salvador": sua integração sociourbana..

Eu escreví o texto da 'orelha' (do livro) que ora apresento a vocês:


Caetano Veloso fez a letra e a música de “Sampa”. Juarez Duarte Bomfim fez a letra e a ciência de O Centro Histórico da Cidade do Salvador. São linguagens que se abraçam e que traduzem esforços de realização de um sonho feliz de cidadãos iguais em oportunidades e direitos de cidadania diante do desafio proposto pelas incontáveis matizes dos desejos, das necessidades e das capacidades individuais. Toda paixão crítica por uma cidade, como o é Sampa, como o é O Centro Histórico da Cidade do Salvador, é alimentada por esse sonho. Ainda que só nos reste construir os caminhos de uma Córdoba à qual, sabemos de antemão, jamais chegaremos.

Largo do Terreiro de Jesus: o chafariz, a Catedral Basílica e, ao lado, o imóvel da mais antiga Faculdade de Medicina do Brasil. (centro de Salvador - Bahia - Brasil)


Para que medir se o cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João e o Pelourinho vivem em centros geométricos? O Centro é aquele lugar para onde as pessoas apontam quando dizem ”vou ao centro”, “fui ao centro”. “vim do centro” . O Centro é o “centro do mundo” provido de carga mítica e mística – como nos ensina Mircea Eliade (O Sagrado e o Profano) - e costas curvadas pelo peso da história. Emocional, afetivo e – porque pulsa no mais fundo do coração das pessoas - cordial, ele aconchega transcendências e imanências, mas não é físico. Também não é a loja, aquela praça, a rua, bairro, centro de compras, centro financeiro, centro de lazer, etc. Basta substantivá-lo por uma só palavra e seu encanto estará perdido. O Centro é, ele mesmo, adjetivo; e adjetivo é primo rico de substantivo. O Centro é o Centro ponto e basta! Identificá-lo com os quadrantes da razão é o mesmo esforço vão de clinicar o coração de quem cruza a Ipiranga com a Avenida São João. Quando Juarez, ao modo de anfitrião, disse em Barcelona: “les invito a conocieren Salvador de Bahia, la mejor ciudad del mundo”... teria sido falta-do-que-fazer perguntar: melhor em que, Juarez: na conservação e humanização de orlas marítimas e de feiras livres? No mar verde-azul que invade São Salvador, a capital da baía e da Bahia, desenhando-lhe uma quase São Luiz de tão quase ilha que nossa cidade é.

O Cruzeiro e a Igreja de São Francisco (centro de Salvador)



Cada obra com seu santo, céus e terra das paixões críticas. Centro Histórico e Sampa dos novos baianos Juarez e Caetano estão plenas das glórias do Centro, esse adereço das nossas almas urbanas ricas de alturas; e de caminhos que, um dia, levarão a Córdoba.

Vicente Deocleciano Moreira

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta ... (5 - FINAL)

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta da cidade moderna (5 - FINAL)


Oferendas a Charles Baudelaire [9/4/1821-31/8/1867] (Cemitério de Montparnasse - Paris - França)


Esta luta desesperada do citadino do século XIX para não se ver transformado em coisa é acompanhada pela poesia de Baudelaire, que também sofre a amargura da perda da aura. Mas ele ainda tenta transformar horror e dor em beleza. A plástica de suas “flores malditas” tenta transcender a tudo que está se desmanchando no ar. Mas a burguesia tem pressa de construir seu reinado, e mesmo o flâneur precisa se render aos encantos dela e se tornar seu súdito.

Kátia Muricy, citando Benjamin, informa que: o flâneur, que não é consumidor, identifica-se com a mercadoria; nela ele se encarna como estas almas errantes que procuram um corpo, de que fala Baudelaire 37. O artista entra em empatia com a mercadoria, confunde-se com ela. Não encontra ou nega-se a encontrar seu lugar na nascente economia de mercado.

Para o homem da época de Baudelaire, viver a modernidade citadina é estar arremessado ao turbilhão de uma realidade em desvario. O cenário desta tragédia moderna é a metrópole, que está sob a égide absoluta do fluxo do inusitado e da rápida obsolescência provocados pelo capitalismo.

O mundo que se moderniza vai se mostrando, se insinuando, transparente e excessivo. Mas a velocidade da vida nervosa das metrópoles, paradoxalmente, torna turva a visão dos contornos e das formas. O citadino é deixado à deriva, jogado de encontro às multidões das ruas; é obrigado a consumir uma profusão incalculável de sinais, códigos, num cenário abarrotado de imagens.

Parar o tempo e a história, esta era a firme intenção de Baudelaire, nem que para isso fosse necessário jogar o próprio corpo sobre os relógios. Era preciso interromper o círculo de fogo da lógica Divina. Baudelaire falou a linguagem de seu tempo, e sua obra mostra isso claramente. Ele teve a ousadia de questionar o progresso e, com o dedo em riste, disse não a este “farol cego”.

Baudelaire experimentou a angústia da desordem e a ânsia de sentido. Esta vertigem arrastou o poeta ao seu fáustico destino. A audácia daquele que, atirando sobre os relógios, queria fazer parar o tempo da história não pôde se sustentar por muito tempo como projeto filosófico-estético. Esse pacto com o diabo não sobreviveria à catástrofe.

O mundo vai acabar. A única razão pela qual ele poderia durar é a de que ele existe. Uma razão afinal bem fraca, comparando com todos aqueles que anunciam o contrário, e em particular a seguinte: o que é que ainda lhe resta a fazer no universo?38

Hoje, um século após o assombro de Baudelaire diante da caducidade da metrópole, uma rede da qual ninguém pode escapar leva o processo de modernização aos mais remotos cantos do mundo e transforma ainda mais as cidades em terra estrangeira para seus citadinos. O espaço urbano foi eleito por Baudelaire como locus de interpretação do social. A cidade natal do poeta, Paris aparece em suas poesias como musa e objeto. Em sua escrita, a cidade transforma-se no material mais poético dentre todos. Baudelaire tem, sobre o material, uma perspectiva tipicamente modernista.
Baudelaire revela, em sua obra, sintonia com a época, com o país, com a cidade. Ele viveu intensamente os anos da revolução burguesa, participou dela, viu a cidade – Paris –ser remodelada: o solo sob seus pés parecia se mover. A lírica do poeta francês tem como personagem a cidade.

Baudelaire, em sua criação literária, confessa-se desejoso de maldisser, ou melhor, zombar de todos. É uma critica mordaz a sociedade de seu tempo, tempo que inaugura o capitalismo. Em carta enviada a mãe Baudelaire anuncia de Les Fleurs du mal faz sobre o mesmo o seguinte comentário:

Porém, este livro, cujo título Les Fleurs du mal diz tudo, esta revestido, como se verá, de uma beleza sinistra e fria. Foi feito com furor e paciência [...] O livro põe todos em furor [...] Zomba de todos, ficará gravado na memória do público letrado, ao lado das melhores poesias de Victor Hugo, de Théophile Gautier e até Byron. 39

Neste trecho fica clara a intenção do poeta, não só escandalizar a mãe, mas a toda “boa” sociedade burguesa que rejeitava o artista. Para os acadêmicos ele é o pós-romântico degenerado, apesar de guardar traços da poesia de Hugo, mas parecia deformá-las pelo péssimo gosto de “cantor das prostitutas” e da decomposição fúnebre, gosto patológico de uma boemia já mórbida. Baudelaire é, em Tableaux parisiens, o primeiro poeta da grande cidade moderna – o amor lésbico e a decomposição fúnebre – todos esses novos mundos Baudelaire conquistou para a poesia. A pressão mental da época burguesa e capitalista, cuja imagem aparece nos grandiosos tableaux perisiens: não uma “divine comêdie de Paris” mostra um poeta mestre de toda poesia moderna, até e inclusive do surrealismo.

Na França, modernismo tem o sentido de modernização e começa com Baudelaire e compreende, pois, o niilismo; este modernismo foi ambivalente, desde sua origem, nas suas relações com a modernização. Sempre desconfiou do progresso; e é essencialmente estético. A partir de Baudelaire ou Flaubert este modernismo se definiu como “antiburguês”. O que nos atrai e ao mesmo tempo nos choca na leitura de Les Fleurs du mal é, com certeza, já de pronto, a violência temática dos poemas. O livro todo, do primeiro ao último verso, apresentasse como confissão de uma pessoa original vacilando entre luz e trevas. Da mesma forma, seu vigor formal rompendo com a tradição romântica francesa surpreende. Suas formulas são breves, sua prosódia é burilada. A linguagem do dia-a-dia, intervindo no canto profundo do poema, confere-lhe uma singularidade. Não há para ele mais termos proibidos ou nobres.

Em Baudelaire, a poesia não jorra mais da unidade que se instaura entre a poesia e um determinado homem, como queriam os românticos. Renunciando à expressão de sentimento, a poesia torna-se vontade formal isto é, artificial. Essa conquista é um dos essa liberdade de falar de tudo em poesia precedeu à liberdade de falar de tudo no romance (conquista de Zola) e precedeu de muito à liberdade de falar de tudo na prosa da vida cotidiana (conquista de Freud). Com essa conquista, Baudelaire tornou-se um verdadeiro libertador da poesia, libertando-a do monopólio tirânico dos termos petrarquescos e românticos – amor ideal, lua e o resto. Baudelaire é o Petrarca da poesia moderna.40

No final do século Baudelaire era o literato mais venerado da França. Ele é considerado o mais importante predecessor da poesia moderna. A rejeição de Baudelaire ao campo tem seguidores e a cidade, a cultura urbana, as diversões urbanas, a vie factice e os paradis artificiel parecem não só incomparavelmente mais atraentes, mas também muito mais espirituais e vívidos do que os chamamos “encantos” da natureza.

A imaginação do artista produz continuamente coisas boas, sofríveis e ruins – diz Nietzsche – e é seu discernimento que primeiro rejeita, seleciona e organiza o material a ser usado. Essa idéia, como toda filosofia da vie factice, promana fundamentalmente de Baudelaire, que deseja “transformar seu prazer em conhecimento” e deixar o crítico no poeta tenha sempre a oportunidade de manifestar-se, e em quem o entusiasmo por tudo é artificial chega, de fato, a ponto de leva-lo, inclusive, a considerar a natureza moralmente inferior.41

Diferente dos românticos, Baudelaire não está à procura do país dos sonhos da “flor azul”. Para ele les vrais voyagenrs sont ceux-là seuls qui partent pous partir... (os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem)




_____________________________________

37 MURICY, Kátia. Benjamin: Política e Paixão. In: CARDOSO, Sérgio. (Org.).Os Sentidos da Paixão. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987, p. 502.
38 BAUDELAIRE, Charles. Projéteis. Poesia e prosa: Op. Cit., p. 515.
39 TROYAT, Henri. Baudelaire. São Paulo: Scrita, 1995, p. 195.
40 CARPEAX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Vol. V. Edições de Cruzeiros, 1959, p. 2256.
41 HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 911-912.

SEMINÁRIO PENSAR A BAHIA

SEMINÁRIO PENSAR A BAHIA - 2023 - 200 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta ... (4)

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta da cidade moderna (4)


(continuação)

Sua lírica moldou-se às formas da cidade e dos habitantes. Ela liga o poeta ao público pelo lado obscuro e sórdido de suas vidas. Com um insulto deliberado, "Hypocrite letcteur, mon semblable, mon frère! (“Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!”), Baudelaire fala a seus contemporâneos. A obscuridade da lírica baudelairiana fascina, mas, ao mesmo tempo, desconcerta. A magia de sua palavra e seu sentido de mistério agem profundamente, embora a compreensão permaneça desorientada. Sua poesia, antes de ser compreendida, desperta os sentidos e choca. Esta junção de incompreensibilidade e de fascinação pode ser chamada de dissonância, pois gera uma tensão que tende mais à inquietude que à serenidade. A tensão dissonante é um objetivo das artes modernas em geral33.

Baudelaire

O próprio Baudelaire escreveu: Existe uma certa glória em não ser compreendido. Com efeito, a lírica produzida pelo poeta é dissonante e gera uma tensão no leitor. Este leitor não é qualquer um; ele foi escolhido. É, antes, o homem moderno, que, a partir do século XIX, passa a respirar a fumaça das chaminés das indústrias e a se acotovelar nas ruas das grandes cidades. A poesia de Baudelaire apresenta grandes afrescos do mundo objetivo das relações sociais vividas na França na metade do século XIX, e, ao mesmo tempo, expressa o clima subjetivo da experiência vivida pelos homens dessa época. Sua obra fala não só do ser social, como também dos acontecimentos, dos fatos e do meio no qual ela se manifesta. A criação literária do poeta francês é depósito transparente do seu pensamento criador; de sua obra brotam as fontes da vida social que nutrem e que ordinariamente se oferecem com toda transparência à nossa vista. A literatura portanto fala ao historiador sobre a história que não ocorreu, sobre as possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se caracterizaram. Ela é o testemunho triste, porém sublime, dos homens que foram vencidos pelos fatos.34

Conhecido por sua controvérsia e seus textos obscuros, Baudelaire foi o poeta da civilização moderna, onde suas obras parecem clamar pelo século XXI ao invés de seus contemporâneos. Em sua poesia introspectiva ele se revelou como um lutador a procura de Deus, sem crenças religiosas, procurando em cada manifestação da vida numa árvore ou até mesmo no franzir das sobrancelhas de uma prostituta. Sua recusa em admitir
restrições de escolha de temas em sua poesia o coloca num patamar de desbravador de novos caminhos para os rumos da literatura mundial.

Baudelaire sabia da interdependência entre o indivíduo e o ambiente moderno e rompia com o dualismo entre espírito e matéria. Assim, conferia riqueza e profundidade ao homem – características ausentes em muitos contemporâneos do poeta. Ele não separa “modernismo” de “modernização”; portanto, não diferencia o espírito puro – imperativos artísticos e intelectuais autônomos – do processo material – imperativos políticos, econômicos, sociais. Pensando assim, pode-se incluí-lo na galeria de escritores tais como: Goethe, Hegel e Marx, Dickens e Dostoiévski.

Em Baudelaire o sujeito toma consciência de si mesmo. Ele é o fundador da consciência do sujeito na cultura contemporânea. É o gosto da recusa, da resistência, que cria o sujeito. Na modernidade este sujeito toma consciência de si no movimento de passagem da vida pacata na pequena Vila para a grande Cidade. Na modernidade este sujeito não é mais o sujeito clássico do Iluminismo com sua razão salvadora é antes o homem nu na multidão de iguais. Com Baudelaire nasce uma modernidade que define o eterno no instante, o que se opunha ao idealismo das culturas empenhadas em desprender as idéias eternas das deformações e das
máculas da vida prática e dos sentidos. "A modernidade" escreveu Baudelaire em seu artigo O pintor da vida moderna (publicado em 1863) é o transitório, o fugidio, o contingente; é uma metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o efêmero. O espírito da modernidade estética, com seu novo sentido de tempo como um presente prenhe de um futuro heróico, nasceu na época de Baudelaire. Hoje esta modernidade se encontra prisioneira do instante e arrastada na eliminação cada vez mais complexa do sentido. Modernidade preza a suas proezas técnicas rapidamente ultrapassadas.

Os primeiros modernos não procuravam o novo num presente voltado para o futuro e que
carregava consigo a lei de seu próprio desaparecimento, mas no presente, enquanto presente. Essa distinção é capital. Eles não acreditavam, como disse, no dogma do progresso, do desenvolvimento e da superação. Não depositavam sua confiança no tempo nem na do presente, não do futuro, pois a utopia e o messianismo lhes eram desconhecidos.35 Courbet e Manet, Flaubert e Baudelaire quiseram ser de seu tempo. Se fizeram escândalo, nunca julgaram que deveriam isso ao avanço que teriam sobre seus contemporâneos. Estavam em conflito com o conformismo. Eles não aceitaram a realidade dada como sendo a que deveria ser vivida e pregaram um outro comportamento que passava primordialmente pelo gosto estético.

Pregaram que o presente de cada época e sua modernidade estariam intimamente vinculados a um tempo e a um espaço, ao conjunto de gostos de uma dada época e de um dado lugar, variável segundo a mudança dessas coordenadas.

Pode-se dizer, assim, que no nascimento do conceito contemporâneo de moderno, quando
aparece o termo, temos uma clara ressurreição da utopia presenticista dos quiliastas, onde a fruição do aqui e agora não se apresenta mais como uma realização orgiástica do paraíso, mas sim como uma transposição do prazer carnal para o prazer do consumo de bens dotados de uma beleza, imagem da circunstancialidade e da efemeridade, atados a um conjunto de gostos.


A lei do efêmero da multidão e das aparências mutantes da modernidade metaforiza-se
exemplarmente na figura da multidão, a massa humana das ruas das grandes cidades
industriais que apresenta contraditoriamente a uniformidade do movimento coletivo e a
singularidade das feições, a aparente integração no conjunto e a sensação de isolamento dos indivíduos.36

Como um ocioso que circula em Paris — capital do século XIX — como a terra prometida, o poeta transmudado no flâneur tenta levar uma vida paradoxal: estar na multidão sem se envolver nela e, junto com ela, ir ao mercado contemplar as mercadorias.

O flâneur ainda não está condicionado pelo hábito que automatiza a percepção e impede a apropriação da cidade pelo cidadão. Seu contato com a massa urbana é aquele do olhar, ele vê a cidade, e este método o faz criar em torno de si um escudo. Não sendo um autômato, ele é o ocioso que mapeai a urbe, fazendo referência ao labirinto emocional despertado pela modernidade.

Porém, na segunda metade do século XIX, na Europa industrial, o poeta já não mais podia viver à parte do mundo que, a cada dia, aceitava o mercado como regente. Baudelaire é o primeiro moderno, o primeiro a aceitar a posição desclassificada, desestabelecida do poeta – que não é mais o celebrador da cultura a que pertence; é o primeiro a aceitar a miséria e a sordidez do novo espaço urbano. Baudelaire identificou-se com todos os marginais da sociedade: as prostitutas, os bêbados etc.

Não é comum para um rebelde de sua classe igualar-se à parte “suja” da sociedade. Baudelaire interpretou a sociedade em que viveu o processo opressivo de sua banalização. A sociedade inteira estava comprometida com um tipo de prostituição gigante: tudo estava à venda e o escritor, entre todos, foi um dos que mais se prostituíram, pois ele prostituiu sua arte. Baudelaire tinha outras opções, podia tornar-se um escritor mercenário, e isso seria pior que vender o corpo. Ele voluntariamente apropriou-se do lugar da prostituta e, mais que aceitar tal identidade sobre si pela necessidade bruta, ele a manteve.


________________

33 FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da Lírica Moderna. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1999p. 15.
34 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 21.
35 COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996, p. 37.
36 MENEZES, Philadelphos. A crise do passado: modernidade, vanguarda, metamodernidade. São Paulo: Experiência, 1994, p. 59.

MATERIAL DE "O ALABAMA" / Jazz

Jazz,

Sinceramente não sei se o material do jornal "O Alabama" foi digitado; inclusive trabalhei com a versão original ainda datilografada.

De todo o modo deixo endereços do IPAC p/ possíveis contatos:

Assessoria de Comunicação – IPAC
Jornalista responsável Geraldo Moniz (1498-MTBa) – (71) 8731-2641
Contatos ASCOM/IPAC: (71) 3116-6673, 3117-6490, ascom,ipac@ipac.ba.gov.br.
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Abraços,

Vicente
vicentedeocleciano@yahoo.com.br

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

JAZZ, ESTE BLOG RECEBE VOCÊ COM ALEGRIA E COM A MAGIA DIONISÍACA DA MÚSICA

JAZZ, ESTE BLOG RECEBE VOCÊ COM ALEGRIA E COM A MAGIA DIONISÍACA DA MÚSICA


A condição dionisíaca nos leva ao filósofo Nietzsche ... estamos sem ele vivo e estamos com ele vivo há mais de cem anos. Nietzsche não acredita que fosse possível ao ser humano existir se não existisse, se não tivéssemos inventado, a música. É dele também a constatação de que é preciso ter um caos dentro de sí para fazer nascer uma estrela que dance ... já que ele só acreditaria num deus que dançasse.


Seja superacolhida,

Vicente

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta ... (3)

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta da cidade moderna (3)

Marco Antonio de Menezes



(continuação)

O poeta nega o curso do tempo, o tempo linear. Ele o constrói e encontra o heróico. Ele heroifica o presente. Mas não se trata da sacralização do presente e nem só da sua apreensão como fugidio. Ser moderno, para Baudelaire, é tirar do agora o que ele tem de poético. É antes uma atitude. Mais uma vez ele lembra que a beleza moderna é particular. Ele termina seu Salão de 1846 conclamando seus contemporâneos à percepção do agora, lembra que os heróis do passado são os heróis do passado e que o presente tem seus heróis e eleva Honoré de Balzac à estatura de Publius Vigílio Marco. Afirma ser Balzac o mais heróico, o mais singular, o mais romântico e o mais poético entre todas as personagens que tirastes de vosso peito. 23

Baudelaire quer uma poesia e uma arte que um dia se torne clássica por ter falado de seu presente. Esta heroificação é irônica, o clássico moderno é precário, a modernidade rompe com a tradição. Então, ela será colocada à prova e verificar-se-à se ela pode ser clássica.

Em Baudelaire, a modernidade cheira à morte, à destruição do tempo e a metrópole é o lugar desta morte. É em As Flores do Mal que a cidade grande e a multidão, sem serem um tema explícito, desenham a modernidade. Em todo Quadros Parisienses a cidade é mostrada em sua fragilidade: a cidade moderna como ruína antiga. O poeta já não encontra nas palavras o sentido habitual: a lírica tradicional caduca. São outras as palavras, as imagens usadas pelo poeta lírico moderno. Mas também é outra sua percepção, os seus sentidos, as suas paixões. Se ressurgem as condições de articulação do efêmero com o eterno, como no período barroco, há uma nova função da visão alegórica no século XIX. É pela alegoria que Baudelaire põe a modernidade à distância. O spleen transforma o presente em antigüidade, em realidade frágil da qual, no próximo instante, só subsistem as ruínas. As àguasforte de Méryon, tão admiradas por Baudelaire, mostram Paris simultaneamente em ruínas, em escombros, e em construção. Encarnam o caráter alegórico da modernidade face à experiência da transitoriedade e da morte.

A teoria da arte moderna de Baudelaire culmina, assim, em uma teoria do artista moderno. O artista deve aprender a observar e esquecer o que as escolas lhe ensinaram. Em suma, o artista do moderno é um sofisticado homem do mundo sem ser um cínico despreocupado. O verdadeiro artista é inteiramente treinado pela observação e pela sensibilidade e não simplesmente pela técnica. É por isso que Baudelaire achou Delacroix um grande pintor. Ao opor Delacroix a Hugo, o poeta vê no romantismo de Delacroix só imaginação e nem uma técnica.

Em A Arte Filosófica, Baudelaire, de início, lança a pergunta: O que é a arte pura segundo a concepção moderna? E responde: É criar a magia sugestiva que contenha o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista. 24 Não há aqui confiança exclusiva nem na razão, nem na imaginação. Se lermos as poesias de Baudelaire, especialmente às do ciclo urbano,

Quadros Parisienses, à luz de suas reflexões sobre arte, particularmente sobre pintura, perceberemos o quanto ele incorporou destas reflexões. Em um poema como A Uma Passante é visível a execução prática destas idéias.

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa.
Erguendo e sacudindo a barra do vestido
Pernas de estátua era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia.
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... E a noite após? — Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste
! 25

Ao fazer uma leitura do soneto, Benjamin observa a presença fenomenológica do erotismo na grande cidade: Pode-se dizer que não trata da função da massa na existência do burguês, mas na do ser erótico. 26 Para ele, a cidade grande — aquela que nasce no século XIX — pode proporcionar experiências bizarras, como a de um encontro amoroso em que o que permanece é o trauma por uma promessa não realizada.

O arrebatamento desse habitante da cidade não é tanto um amor à primeira vista quanto à última vista. O nunca da última estrofe é o ápice do encontro, momento em que a paixão aparentemente frustrada, só então, na verdade brota do poeta como uma chama. 27

Para Benjamin, o elemento principal de A Uma Passante, é a multidão, que provoca o surgimento e desaparecimento da misteriosa mulher: Nenhuma expressão, nenhuma palavra, designa a multidão no soneto ‘A uma passante’. No entanto, o seu desenvolvimento repousa inteiramente nela, do mesmo modo como o curso do veleiro depende do vento. 28 Ainda no dizer de Benjamin, o poema é a marca característica do interesse de Baudelaire pela multidão anônima: a mulher que passa pode ser qualquer uma e ninguém.

A multidão está presente em toda a obra baudelairiana, embora não se faça nenhuma menção a ela. Ela deixa pegadas em toda a criação do poeta. Como se convidada a uma dança macabra, a multidão compacta avança com seus esqueletos e espectros que abraçam o transeunte já agora em pleno dia. 29

O que interioriza a multidão na obra e dá sentido ao texto é a forma como o cenário é
apresentado; não a vemos, mas sabemos de sua existência. Assim, na descrição do cenário, o externo se interioriza na obra. A estética acurada desse poeta francês dá conta dos temas que a métrica de um poeta mediano mataria. Baudelaire, mais que trabalhar a matéria bruta, entregava à imaginação criadora elementos já elaborados: gravuras, telas, estátuas. O segundo poema publicado por Baudelaire, Dom Juan nos
Infernos, nasceu de uma litografia de Pierre-Narcisse Guérin e do quadro de Delacroix intitulado Dante e Virgílio. O poeta compôs versos para obras dos amigos Manet, Honoré Daumier e Delacroix. Estes poemas aparecem em As Flores do Mal, na seção Épigraphes.

Os Quadros Parisienses retratam suas caminhadas por Paris e evocam lembranças, muitas delas, de quadros dos pintores amigos, que tinham por tema a cidade. A influência de Paris lhe fez descobrir a necessidade de evasão, de liberdade. Antes mesmo da época apropriada, “pintava” a multidão do bulevar, como Monet e Renoir, os cafés da moda, como Manet e Degas, as prostitutas, como Lautrec.

Admira a eterna beleza e a espantosa harmonia da vida nas capitais, harmonia tão
providencialmente mantida no tumulto da liberdade humana. Contempla as paisagens da cidade grande, paisagens de pedras acariciadas pela bruma ou fustigadas pelo sobro do sol.

Admira as belas carruagens, os garbosos cavalos, a limpeza reluzente dos lacaios, a
destreza dos criados, o andar das mulheres ondulosas, as belas crianças, felizes por
viverem e estarem bem vestidas; resumindo, a vida universal. 30

Se estas não fossem palavras de Baudelaire sobre o amigo Constantin Guys, poderiam, sem dúvida nenhuma, ser empregadas para falarmos sobre seus poemas reunidos em Quadros Parisienses. Esses poemas são, na verdade, pinturas escritas, ou melhor, palavras coloridas de tinta, onde a pena do poeta vira pincel e seu tinteiro, palheta com tintas de vários matizes que vão do claro ao escuro em um único movimento da mão do artista. Este espírito de revolta estética encontra na Paris tumultuada pela reforma urbanística de Haussmann, uma realidade já em ruínas. Essa cidade-sujeito em mutação materializa a impureza de tudo o que há, em sua vocação para a metamorfose. Este presente, em que se prepara o futuro, encontra-se numa relação indissolúvel com o passado, uma vez que coabita com suas ruínas.

Na crítica sobre o Salão de 1859, Baudelaire faz o seguinte comentário sobre as águas-fortes de Charles Méryon:

Raramente vi representada com mais poesia a solenidade natural de uma cidade imensa. As majestades de pedras edificadas, os campanários indicando o céu, os obeliscos da indústria vomitando para o firmamento seus blocos de fumaça, os prodigiosos andaimes dos monumentos em reparação, revestindo o corpo sólido da arquitetura com sua própria arquitetura vazada de uma beleza tão paradoxal, o céu tumultuoso, carregado de cólera rancor, a profundidade das perspectivas aumentada pelo pensamento de todos os dramas que nela estão contidos; nenhum dos elementos complexos que compõem o doloroso e glorioso cenário da civilização fora esquecido. 31

Suas idéias se assemelham às encontradas no poema Paisagem, que abre a série Quadros Parisienses e que foi publicado pela primeira vez a 15 de abril de 1857 em Le présent. Tal qual na descrição do trabalho de Méryon, que era amigo de Baudelaire, a quem tinha como seu principal crítico, o poema mostra a cidade com suas luzes, seus ruídos, seus edifícios, paradigma da imaginação que voluntariamente se priva de todo e qualquer espetáculo natural.

Quero, para compor os meus castos monólogos,
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
E, junto aos campanários, escutar sonhando.
Solenes cânticos que o vento vai levando, só, na água-furtada,
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.
32

Paisagem. V. 01-08.


É o mesmo céu, a indústria lançando no firmamento sua fumaça, a mesma cidade e a mesma imaginação criadora a serviço da arte. O mesmo sentimento diante de um mundo que está sendo transformado em ruínas, onde o que fica gravado na memória são os traços da pintura que retratam tais acontecimentos ou o risco da pena que descreve tal cenário.

Tal qual um “caleidoscópio carregado de energia”, o poeta desceu às profundezas da cidade para revelar as formas de beleza e as monstruosidades criadas pela modernização.

________________

24 BAUDELAIRE, Charles. A Arte Filosófica. Poesia e prosa. Op. cit, p. 789.
25 BAUDELAIRE, Charles. A Uma Passante. As Flores do Mal. Op. cit. p. 344-345.
“La rue assourdissante autour de moi hurlait/ Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse, / Une femme passa, d’une main fastueuse/ Soulevant, balançant le feston et l’ourlet; // Agile et noble, avec sa jambe de statue. / Moi, je buvais, crispé camme um extravagant, / Dans son oeil, ciel livide aù germe l’ouragan,/ La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.// Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté/ Dont le regard m’a fait soudainement renaître,/ Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?// Ailleurs, bien loin d’ici! Trop tard! jamais peut-être!/ Car j’ignore aù tu fuis, tu ne sais aù je vais,/ O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!”
26 BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: Op. Cit., p. 42.
27 Ibidem, p. 43.
28 Ibidem, 117.
29 JUNQUEIRA, Ivan. A arte de Baudelaire. As Flores do Mal. Op. cit, p. 89.
30 BAUDELAIRE, Charles. O pintor da vida moderna. A modernidade de Baudelaire. Op. Cit., p. 171.
31 BAUDELAIRE, Charles. Salão de 1859. A modernidade de Baudelaire. Op. cit. p. 136.
32 BAUDELAIRE, Charles. Paisagem. As Flores do Mal. Op. cit. p. 316-317.
“Je veux, pour composer chastement mês églogues, / Coucher auprès du cil, comme les astrologues, / Et, voisin des clochrs, écouter en rêvant / Leurs hymnes solennels emportés par le vent. / Les deux mains au menton, du haut de ma mansarde, / Je verrai l`atelier Qui chante et Qui bavarde; / Les tuyaux, les clocherrs, ces mâts de la cité, / Et les grands ciels Qui font rêver d`éternité.”

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

M.A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta ... (2)

BAUDELAIRE: o poeta da cidade moderna (2)
Marco Antonio de Menezes

(continuação)

Se, no século XVII, a flânerie ainda não era de todo possível devido o aspecto insalubre da cidade a partir do século XIX, as reformas no espaço urbano – tendo como modelo a Paris de Haussmann – propiciariam o livre passeio pela malha da cidade e com isto favorecer sua descrição pela literatura. Neste período o desenvolvimento da imprensa, também, contribuiu para que a nova “escritura” da cidade se afirmasse. O texto rápido que narra o desenrolar da vida no dia-a-dia da cidade é a moda que ganha as páginas dos jornais inaugurando a reportagem.

Dickens, Balzac, Hugo, Dostoievski, Gogol, Zola, para só citar literatos europeus do século XIX, foram alguns dos que, ansiando por desvendar a alma humana, compreenderam que deviam debruçar-se sobre a janela do gabinete onde escreviam e encarar a cidade, estabelecendo um fluxo entre o devaneio pessoal e intransferível e o bulício das ruas.

Não é por menos que Baudelaire sugeria que o verdadeiro artista moderno deveria épouser la foule e que para o observador apaixonado, o flâneur, é grande fortuna escolher sua moradia no numeroso, no ondulante, no movimento, e no fugitivo e infinito. 10

E é, no entanto, o próprio Baudelaire quem funda uma poesia voltada para a cidade e oriunda dela, escrevendo sobre a Paris do Segundo Império, uma cidade grandiosa, planejada, urbanizada, centro da produção intelectual e cultural e pólo irradiador de idéias na época. A face da Paris que revela é caótica e opressora, apresenta claramente aquele caráter dicotômico que aponta para a atração e a repulsa. O olhar da poesia volta-se para o submundo, para a miséria humana: a mulher é a prostituta; as imagens são carregadas em cores fortes, sombras e detalhes, produzindo estranhamento, choque, horror e, ao mesmo tempo, fascínio.

Transformar em poesia uma cidade: representar seus personagens, evocar figuras humanas e situações; fazer com que em cada momento mutável a verdadeira protagonista seja a cidade viva, sua continuidade biológica, o mostro - Paris: essa é a tarefa à que Baudelaire se sente chamado no momento em que começa a escrever Les Fleurs du mal.

Baudelaire nos revela, como num quadro de fisionomias, o que está interno ao olhar, percepção que na metade do século XIX nos dá a idéia do Outro, do que não temos controle, que perambula Mdesatento e aflito, que foge ao olhar e ao verbo. O olhar do flâneur vai de encontro ao olhar da bela passante na multidão, e o detém, por menos de um instante, mas ao perdê-lo apreende que a Paris do século XIX é um mosaico de luzes, movimento, e solidão. A bela passante é esquecida e relembrada a cada instante.

Em Baudelaire, assinala Williams – a cidade era uma ‘orgia de vitalidade’, um mundo instantâneo e transitório de ‘êxtases febris’.11 Nesse contexto, no século XIX, Baudelaire aparece como criador de um paradigma da cidade moderna, ao assimilar, principalmente, o caráter brusco e inesperado que caracteriza a vida transitória do homem moderno. Na leitura que Walter Benjamin12 faz do escritor, está presente a
idéia de que a arte é também um ato de resistência, um protesto comum contra a sociedade.

Leitor de Baudelaire e de Benjamin, Marshall Berman13 mostra como o herói moderno de Baudelaire abre um caminho que vai além da representação imagética tradicional da cidade como virtude ou como vício. Ao romper com a tradição literária que ao mesmo tempo integrava e ao criar uma linguagem própria, nascida da observação das cidades, Baudelaire acabou criando um novo modelo de cidade moderna, que corresponde justamente à imagem da cidade “além do bem e do mal” de Carl Shorske14. Os caminhos que Baudelaire abriu com sua esgrima criaram, então, uma matriz de cidade moderna. Baudelaire buscou, na imensidão das grandes cidades, o efêmero que caracterizou sua época. O momento histórico de Baudelaire foi aquele em que a cidade era o local privilegiado da disputa pelo poder, em que este espaço estava no centro dos acontecimentos como fonte obscura e temível do próprio poder.

Ordenar, disciplinar esta cidade vira obsessão para os governantes saídos das lutas de 1848. A defesa contra a ameaça revolucionária dá o tom das intervenções que vão provocar o deslocamento de uma ordem — até então confusa e mal-traçada — que remonta ao período medieval. Ambientes públicos e privados são separados e até contrapostos por medidas legais. A via pública passa a ser o lugar onde cada um se misturará com os outros sem ser reconhecido. É aí que Baudelaire se sente só em meio à multidão. A rua oitocentista, filha da rua medieval, acaba por modificá-la e destruí-la: os caminhos sinuosos e irregulares são alargados e substituídos. Velhos bairros são demolidos, e uns poucos edifícios antigos – os mais importantes – são mantidos por serem considerados documentos históricos. Estes edifícios “isolados” tornam-se “monumentos” separados do ambiente urbano. Arte e vida já não estão entrelaçadas, o ambiente quotidiano começa a ficar mais pobre. Os espaços públicos e privados vão se separando cada vez mais. Os intelectuais, também, vão se distanciando da coisa pública.

As mudanças públicas realizadas, em Paris, pelo Barão Haussmann são criticadas e consideradas vulgares e fastidiosas por escritores diversos, como os Goncount e Proudhon. Eugéne Sue, Balzac, Victor Hugo e Dickens apreciavam o aspecto confuso, misterioso e integrado da cidade tradicional, mas foi Baudelaire – no poema Le cygne, de Les fleurs du mal – quem melhor soube traduzir o efeito temível da rapidez com que as obras de Haussmann eram executadas.

Fecundou-me de súbito a fértil memória,
Quando eu cruzava a passo o novo Carrossel.
Foi-se a velha Paris (de uma cidade a história
Depressa muda mais que um coração infiel);15


(O cisne, v. 5).


Com Baudelaire, a literatura urbana mostra novos aspectos: sons, edifícios, tráfego, tudo isso é matéria literária por fazer parte da nova consciência que envolve homens e mulheres. Pode-se afirmar que a literatura modernista nasceu na cidade, e com Baudelaire. Desde metade dos anos de 1840, Baudelaire defendia uma nova atitude nas artes. Seu Salão de 1845 é um texto curto, menos denso que suas últimas observações sobre pinturas e pintores. Era o início. Escreve ele: O salão, em suma, assemelha-se a todos os salões precedentes. 16

Chamam-lhe a atenção apenas algumas peças de Willliam Haussoulier, de Delacroix e de Alexandre-Gabriel Decamps. Mas em matéria de invenção, de idéias, de temperamento, não houve melhora em relação ao de antes. 17 Lamenta que os artistas que expuseram neste salão não se deram conta de que o heroísmo da vida moderna nos envolve e nos pressiona. 18

Ele espera pelo futuro em que o pintor, o verdadeiro pintor saberá arrancar à vida atual a sua componente épica e ambiciona que possam os verdadeiros pesquisadores nos oferecer no próximo ano a alegria singular de celebrar o surgimento do novo! 19
Se estes comentários pareciam um pouco vagos para a renovação artística, no Salão de 1846 um estilo jornalístico arrojado é adotado. Neste texto, Baudelaire mostra o quão à beleza é múltipla e relativa.

Antes de buscar qual pode ser o épico da vida moderna, e de provar, com exemplos, que nossa época não é menos fecunda que as antigas em motivos sublimes, pode-se afirmar que, como todos os séculos e todos os povos tiveram sua beleza, nós temos inevitavelmente a nossa. Isto é normal. 20

Para Baudelaire, o artista tem de estar vinculado com sua época. Esta é a condição da produção da arte moderna. Assim, a obra está ligada ao tempo e à história. Existem, pois, artistas mais ou menos capazes de compreender a beleza moderna. 21 Neste caso, a modernidade é mais que um período histórico, é atitude, consiste em procurar, por uma decisão da vontade de construir uma eternidade particular.


A vida parisiense é fecunda em termos poéticos e maravilhosos. O maravilhoso nos envolve e nos sacia como a atmosfera; mas não o vemos. 22


______________________

9 Quando Restif de la Bretonne escreve sua obra Les Nuits de Paris, 16 volumes editados entre 1788 e 1793, a capital francesa tinha aproximadamente 700 mil habitantes.
10 BAUDELAIRE, Charles. O Pintor da Vida Moderna. In: A Modernidade de Baudelaire. Tradução, Suely Cassal Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 170.
11 WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 316.
12 BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1994.
13 BERMAN, Marshall. Tudo que é solido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
14 SHORSKE, Carl. Op. cit., p. 47.
15 BAUDELAIRE, Charles. O cisne. In: As Flores do Mal. Op. cit., p. 326–327.
16 BAUDELAIRE, Charles. Salão de 1845. Poesia e prosa. Volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 1079.
17 Ibidem, p. 1079.
18 Ibidem, p. 1079.
19 Ibidem, p. 1079.
20 BAUDELAIRE, Charles. O salão de 1846. Poesia e prosa: Op. cit., p. 683.
21Ibidem, p 730.
22 Ibidem, p 731.
23 Ibidem, p 731.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

M. A. de Menezes - BAUDELAIRE: o poeta ... (1)

BAUDELAIRE: o poeta da cidade moderna (1)
Marco Antonio de Menezes

Trabalho apresentado ao I SEMINÁRIO ARTE E CIDADE - Salvador, Bahia - Brasil, maio de 2006 PPG-AU - Faculdade de Arquitetura / PPG-AV - Escola de Belas Artes / PPG-LL - Instituto de Letras UFBA



Foi a raça maldita de Caim, o primeiro demônio humano, que se espalhou sobre a terra e fundou as primeiras cidades. Raça de Caim, tua argamassa, jamais foi sólida o bastante1 O fruto de um povo marcado pelo crime e ódio não poderia ser doce, e sim amargo. Após o dilúvio – castigo de Deus contra os infratores de suas leis, contra a geração de Caim –, aqueles que sobreviveram fixaram-se em uma planície na terra de Sinear e, ali, começam a edificar uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus.2 No entanto, Babel – cidade erguida com tijolos queimados; pretensão dos homens a criadores – não poderia persistir; não era lícito ao homem igualar-se a Deus. O
homem não poderia construir uma outra natureza, artificial, erguida sobre a natureza primordial e unitária: a obra divina.

Então o Senhor – ao ver a cidade e a torre, o que os filhos dos homens faziam, e perceber que, agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer3 – resolveu lançar mais uma maldição sobre a própria criação: as línguas foram embaralhadas, e os homens não mais se entendiam. Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face da terra; e cessaram de edificar a cidade. 4

A cidade do século XIX é a Babel que prospera com a perda das conexões e a falta de referência aos valores do passado; palco para a atrofia progressiva da experiência relativa à tradição, à memória válida para toda a comunidade, substituída pela vivência do choque ligada à esfera do individual. O impacto da técnica moderna mudou tudo e, especialmente, a cidade, cuja capacidade de regeneração – metamorfose sem fim de autodestruição criativa – foi ficando cada vez mais rápida.

A partir da Revolução Inglesa e, em especial, no século XIX, o desenvolvimento das cidades muda de ritmo não mais para acompanhar as badaladas dos sinos nos mosteiros, mas o tic-tac do relógio mecânico. Agora, o crescimento ou refluxo obedece às normas ditadas pelas necessidades econômicas de produção de mercadorias, e não simplesmente de trocas. Aparece, então, a cidade moderna: afastada do mundo religioso dos mosteiros e das igrejas, mas condenada a se erigir à beira dos muros da fábrica, com a fumaça das chaminés a encobrir os campanários das antigas igrejas e o relógio das indústrias a regular o tempo nas ruas. A arquitetura do passado cede rapidamente terreno a formas e contornos do mundo da produção e do trabalho.

Baudelaire pôde constatar pessoalmente isso quando o bisturi urbanístico do barão Haussmann golpeava a velha Paris, abrindo no corpo palpitante da cidade as grandes artérias – os bulevares – projetadas por Napoleão III. Nesse momento, não havia ainda – à disposição da nascente literatura sobre o urbano – um vocabulário próprio para denominar o novo cenário. As associações metafóricas são usadas na falta de um outro referencial, e a cidade é descrita em metáforas médicas, metáforas visuais relacionadas com a natureza, metáforas orgânicas ou, ainda, metáforas bíblicas. Carl Shorske5 apresenta três modos de avaliar a cidade, reunindo essas metáforas nas seguintes imagens: cidade como “virtude”, como “vício” e como algo “além do bem
e do mal” – sendo esta representativa da superação de discursos monolíticos construídos com base nas duas primeiras.


Na poesia de Baudelaire, estão presentes as metáforas da morte, da destruição, da degeneração, da putrefação, da caveira. São alegorias mais que apropriadas para se mostrar o que ocorria com o corpo da cidade. São fragmentos figurativos mostrados dispersamente, sem forma, mas nunca uma imagem completa – e isso lhe confere o caráter alegórico. A imagem é fragmento, ruína. É importante ressaltar que essa superação só pôde ser realizada na própria prática textual; por isso, os escritores são considerados, por Barthes6, como aqueles que mais se aproximaram da construção de uma semiótica urbana.

Uma cidade é, antes de tudo, um ambiente físico, uma “unidade funcional”, uma construção, no sentido arquitetônico do termo, composta de alguns elementos fixos – como as edificações – e outros móveis – a exemplo dos homens7. Embora “a cidade” possa ser tratada de forma genérica a princípio, cada uma delas tem particularidades, assim como em cada época concebe-se uma noção de cidade. Segundo Kevin Linch, a cidade tem uma “imagem pública” que se forma pela sobreposição das imagens criadas por vários indivíduos, e cada um deles tem uma imagem própria e única da cidade: Cada imagem individual é única e possui algum conteúdo que nunca ou raramente é comunicado, mas ainda assim ela se aproxima da imagem pública que, em ambientes diferentes, é mais ou menos impositiva, mais ou menos abrangente. 8

Esta nova atmosfera propiciou o surgimento da literatura sobre a nascente grande cidade. Todo o espaço urbano é esquadrinhado por centenas de olhos atentos e afoitos a descrever tudo o que era movido ou se fazia mover. Surge aí uma plêiade de escritores cuja musa, então, era o novo espaço urbano. Mas os seguidores do “artista-demolidor” – alcunha que Haussmann deu a si mesmo – proliferaram junto com os escritores da nova cidade. Depois de o poeta de Les Fleurs du Mal ter traduzido, em versos, as mudanças que a nova cidade do século XIX provocava na alma e no mundo físico, muitos outros se ocuparam de tal tarefa. Mas, ainda assim, a cidade parece ser
material inesgotável, sempre passível de novas abordagens – mesmo porque, a nova cidade se renova a cada dia.

Nessa cidade, os conflitos vão ganhar contornos mais nítidos, como se os corpos dos seus habitantes antes estivessem presos às suas pedras. Pedras serão deslocadas e explodirão em miríade sobre as cabeças convulsas dos seus atônicos citadinos.
No século XIX, o fenômeno urbano inquietou as almas, tanto as mais sensíveis quanto as mais rudes. A experiência da vida nas metrópoles fez com que a tradição literária se ajustasse ao estudo singular dessa nova sensibilidade produzida. É a literatura das grandes cidades cosmopolitas – principalmente das capitais culturais da Europa – que trazem em si a complexidade e a tensão da vida moderna. Certamente, essas cidades eram mais do que lugares de encontros casuais; eram ambientes geradores de novas artes, pontos centrais da comunidade de intelectuais, e mesmo de conflito e tensão entre estes.


A princípio, a reação de escritores e intelectuais foi de abandonar a cidade: escapar dos vícios, da velocidade, do agigantamento. O tipo humano nela formado tem sido aquele que compõe a base de uma profunda recusa cultural, visível naquela moda literária nascente – a pastoral – que tanto pode apresentar uma crítica à cidade quanto a superação dela. Mas, apesar disso, escritores e intelectuais sempre gravitaram ao redor das cidades. A multidão em desvario, indiferente ao destino dos demais, chamou a atenção de quem tinha por ofício a escrita. Nas páginas de romances, novelas, contos e poesias, tal população aparece acelerando o passo para não tardar no compromisso com os ponteiros do relógio fabril. Homens e mulheres são empurrados pelo ritmo das fábricas e avançam como esteiras de máquinas na linha de montagem.

Atentos e também vivendo no meio desse tumulto, os escritores do século XIX buscaram matéria literária nesse conteúdo desordenado. A literatura surgida a partir de meados do século XIX é tipicamente citadina. Isso já começa a ser percebido com o romance romântico, que, por se deter no modelo de vida burguês, tende a se
concentrar mais nos espaços urbanos, mas sem perder de vista a concepção de que o campo é o lugar ideal, que concentra uma forma idílica de pureza original. Talvez pelos mesmos motivos que fizeram com que os românticos "guardassem" o desejo do campo, os realistas do fim do século XIX se afastaram cada vez mais dele, concentrando sua atenção primordialmente na vida da cidade.

Indagar sobre as representações da cidade na cena escrita construída pela literatura é, basicamente, ler textos que lêem a cidade, considerando não só os aspectos físico-geográficos (a paisagem urbana), os dados culturais mais específicos, os costumes, os tipos humanos, mas também a cartografia simbólica, em que se cruzam o imaginário, a história, a memória da cidade e a cidade da memória. É, enfim, considerar a cidade como um discurso, verdadeiramente uma linguagem, uma vez que fala a seus habitantes, revela a eles suas partes e seu todo.

Tudo é ação numa cidade grande!, exclamava Restif de la Bretonne já no século XVII,9
justificando o interesse pelo errância urbana. Se a própria cidade não para de crescer, também o interesse da literatura por ela só expande e chega até nossos dias. Neste espaço de tempo, século XVII até hoje, início do século XXI, a destruição e a reconstrução da cidade, também não cessaram. As cidades, que até então conservavam uma aparência medieval. Com suas ruelass ujas com esgoto escorrendo a céu aberto, cede espaço a cidade aberta por grandes avenidas (os boulevards de Paris) favorecendo a perambulação.

__________

1 BAUDELAIRE, Charles. Abel e Caim. In: As Flores do Mal. 5ª ed. Tradução e notas Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1985, p. 420.
2 Gênese, primeiro livro da bíblia, que narra a criação, 11.
3 Ibidem.
4 Ibidem.
5 SHORSKE, Carl. A cidade segundo o pensamento europeu — de Voltaire a Spengler. In: Espaço & Debates, nº 27, São Paulo, 1989, p. 47.
6 BARTHES, Roland. A aventura semiológica. Lisboa: Edições 70, 1992.
7 Cf. LINCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 17.
8 Ibidem, p. 51

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Viviane Senna - A grave patologia da educação brasileira

A grave patologia da educação brasileira

Viviane Senna


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O Brasil se destaca como um "case" de egossintonia secular, em relação a disfunções e sintomas graves, como a falta de equidade e de educação,

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Em 20 anos de prática clínica, observei que os sintomas são nossos aliados. E tão melhores quanto mais nos incomodem.

Como verdadeiros sistemas de alarme, sinalizam que alguma coisa está em risco. Portanto, são eles que nos permitem mudar o desfecho de uma história, de nossa história. Desde que os ouçamos.

Quanto mais egossintônico é um sintoma para um indivíduo, pior será o seu prognóstico. Do mesmo modo, quanto mais confortável uma sociedade se sente com seus distúrbios, piores serão as chances de superá-los.

O Brasil se destaca como um "case" de egossintonia secular, em relação a disfunções e sintomas graves, como a falta de equidade, de ética e de educação.

Prova disso é que levamos mais de 300 anos para editar o primeiro livro e fundamos nossa primeira universidade apenas no século 20, 300 anos depois da primeira universidade da América Latina e 400 anos após a primeira universidade da América do Norte, Harvard.

Ninguém sentiu desconforto com isso ou com o fato de que essa universidade foi criada apenas para conceder o título honoris causa ao rei da Bélgica. Não é à toa que, em 1950, convivíamos pacífica e confortavelmente com taxas de 50% de analfabetos absolutos, enquanto a Argentina e os EUA tinham, respectivamente, 14% e 3% de analfabetos.

Tudo isso sem contar que, em 1900, essa taxa era de 65%, o que significa que levamos meio século para reduzi-la em 15 pontos percentuais!

No primeiro censo escolar, de 1932, o índice de repetência na primeira série era de 60%. Quase 50 anos depois, no censo de 1980, esse índice foi reduzido para incríveis 50%. Hoje, essa taxa para o ensino fundamental é de cerca de 20%, colocando-nos atrás de países como Uganda, Ruanda e Haiti.

No entanto, continuamos convivendo pacificamente, também, com consequências dessa realidade: a evasão e o abandono.

De cada dez crianças que entram na primeira série do ensino básico, só três o concluem. E mais: apenas uma em cada dez sabe o que deveria saber para o terceiro ano do ensino médio. E um quinto desses alunos tem, em matemática, nível de quarta série do fundamental.

E qual é a reação diante desse quadro? As pesquisas mostram que 70% das famílias de alunos de escolas públicas estão satisfeitas com o ensino que seus filhos recebem. Fica difícil decidir o que é mais grave: o cenário da educação ou nossa reação diante dele.

É possível, no entanto, suplantar esse padrão histórico de egossintonia com situações graves como essa. Como mostra o movimento Todos pela Educação, até 2022 podemos atingir o padrão de desempenho escolar da média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Para isso, precisamos aliar compromisso ético com competência técnica.

Estudo feito por Ricardo Paes de Barros, com cerca de mil municípios parceiros do Instituto Ayrton Senna, mostra que é possível acelerar o desenvolvimento educacional entre seis e 11 anos a cada ano de trabalho, não importando as condições adversas e a região do país.

Altamira, no Pará, tinha 70% de seus alunos atrasados. Hoje, esse número está em torno de 20%. Em São Vicente (São Paulo), o antigo índice de 16% de alunos com distorção de idade e de série está em 3%. A rede de ensino de Boca do Acre (Amazonas) reduziu a taxa de defasagem de 70% para 19%, alcançando o primeiro lugar no Ideb (índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da rede estadual (4,4).

Assim, a despeito da extrema seriedade do quadro educacional brasileiro, é possível rever o curso. Basta ouvir os sintomas e aliar a vontade ético-política à competência técnica, transformando incômodo em resultados para mudar toda uma história. A nossa história.

________
VIVIANE SENNA, formada em psicologia pela PUC-SP, é presidente do Instituto Ayrton Senna e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.


(Publ. "Folha de São Paulo", São Paulo, 22 de novembro de 2010, p. A3)

domingo, 21 de novembro de 2010

CRÔNICA DOMINICAL - DOMINGOS DOMÉSTICOS

DOMINGOS DOMÉSTICOS

[CRÔNICA DOMINICAL DE 21 DE NOVEMBRO DE 2010]

Vicente Deocleciano Moreira


Domingo pode ser uma boa opção - ou uma boa desculpa! - para ficar em casa. Fora de casa, trânsito mais livre e ruas mais vazias ... mas restaurantes, clubes e parques mais cheios, barulhentos, senhas, filas e esperas de tirar o fôlego - quero dizer - o apetite. O fato é que, por força do trabalho que ocupa os chamados "dias úteis", ou sob o imperativo da mão de ferro do hábito, tod@s e todas as famílias com suas famigeradas alegrias vão aos mesmos lugares, no mesmo dia e à mesma hora. E o ar condicionado menos frio por causa do calorento calor humano.

Se o domingo a gente inventa ele pode acontecer qualquer dia "útil" da semana sem restaurantes, clubes e parques cheios, barulhentos, senhas, filas e sem esperas de tirar o fôlego - quero dizer - o apetite. E o ar condicionado bem mais frio. Tudo bem: quem pode pode inventar o domingo fora do domingo, num dia "útil" por exemplo; quem pode pode, quem não pode se sacode e do bolso caem moedas de cinco centavos de real.

Ficar em casa, esta é a opção menos estressante e aborrecida. Vamos pensar, para nosso consolo ou para nosso comodismo e sabedoria, que o domingo pode ser preenchido com um mergulho no falso vazio do noso mundo interior. Não; sem autoavaliações de como fomos na semana e a tolice do esforço de como podemos fazer para melhorar.

Se não for possível fugir a essa tolice, sentar sob a árvore de um bosque não nos afugenta da nossa casa, pois estamos no nosso OIKOS, estando sentados ou deitados sob a árvore de um bosque.

Piqueniques sairam de moda, no Brasil?

MUNDO ... EM PRAGA, FAXINEIRAS DE LINGERIE

MUNDO VASTO MUNDO DE 21 DE NOVEMBRO DE 2010


FAXINEIRAS TCHECAS LIMPAM CASAS VESTINDO APENAS LINGERIE

Estudante de 21 anos criou serviço onde o cliente paga para ver tudo limpo e um pouco mais.


Você gosta que a sua casa esteja limpa, mas não tem paciência para os serviços domésticos, e de quebra aprecia ver mulheres seminuas? Que tal juntar tudo em um serviço exclusivo? Foi o pensou a estudante de Economia em Praga, Katka Kopecka, de 21 anos.

Ela criou na República Tcheca a Crazy Cleaners (ou faxineiras malucas, em tradução livre), um negócio que oferece serviços de faxineiras que trabalham de lingerie, topless e até nu frontal.

Mas não pense que só as moças dão duro. A agência dispõe de 15 estudantes do sexo masculino e feminino em sua equipe.

Se a limpeza agrada aos olhos, dói no bolso. O preço por hora custa 150 libras, cerca de R$ 410. Para Kopecka, tudo são negócios:

— Nós precisávamos arrumar um emprego e não conseguimos, então pensamos nisso — resume ao jornal Metro — Não é prostituição, é um serviço de limpeza.

***

(Fonte : DIÁRIO CATARINENSE, Florianópolis (Santa Catarina- Brasil), Domingo , 21 de novembro de 2010)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (3 - FINAL)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (3 - FINAL)

Albano Martins ( "Castália e Outros Poemas"):

Uma Cidade
Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso
numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

*****

Natália Correia ("O Vinho e a Lira"):

Cidadania
Buquê de ruídos úteis
o dia. O tom mais púrpura
do avião sobressai
locomovida rosa pública.

Entre os edifícios a acácia
de antigamente ainda ousa
trazer ao cimo a folhagem
sua dor de apertada coisa.

Um solo de saxofone excresce
mensagem que a morte adia
aflito pássaro que enrouquece
a garganta da telefonia.

Em cada bolso do cimento
uma lenta aranha de gás
manipula o dividendo
de um suicídio lilás.


*****

Rio Tejo - Portugal(images.aeiou.pt)

Manuel Alegre ("Babilónia"):

Balada de Lisboa

Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém


*****


Mário Cesariny ( "Poemas de Londres")

Os Pássaros de Londres

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

sábado, 20 de novembro de 2010

ADENILSE ROMANA chega num sábado feliz

ADENILSE ROMANA chega num sábado feliz


Adenilse, com sua arte, artes - digo - nos chega e a todos os salões com sua luz.


Seja bemvinda a este Blog.


Recebemos você,

Vicente

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (2)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (2)

Praça da Figueira - Lisboa - Portugal
(commons.wikimedia.org)


Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa - ("Poemas"):


A Praça

A praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.

Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui ... Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante ...

Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena...

De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros ou as que não há.


*****


Pedro Homem de Mello ("Grande, Grande Era a Cidade...":


Divórcio

Cidade muda, rente a meu lado,
Como um fantasma sob a neblina...
Há cem mil rostos. Tanto soldado
E tanto abraço desesperado
Nesta cidade tão masculina!

Cidade muda como um soldado.

Cidade cega. Todos os dias,
A nossa vida fica mais breve,
As nossas mãos ficam mais frias...
Todos os dias, todos os dias,
A morte paga, paga a quem deve.

Cidade cega todos os dias.

Cidade oblíqua. Sexo pesado.
Rio de cinza, lúgubre e lento...
Bandeira negra, barco parado,
Nunca o teu nome foi baptizado
Nem o teu beijo foi casamento!

Cidade minha, do meu pecado...

Cidade estranha, sabes que existo?
Os homens passam... Para onde vão?
Só tem amores quem não for visto.
Por isso canto, só porque insisto
Em dar combates à tentação.

Oh! a volúpia de não ser visto!


*****


Gastão Cruz ("O Pianista"):

O Teatro das Cidades

Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água


*****



Amanhã, domingo, terceira e última postagem)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CEAO HOJE SEXTA 19/NOV - 17:30H

CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais

CEAO sedia conferência com Carlos Agudelo, professor do Centro de Estudos Mexicanos e Centroamericanos (CEMCA) e investigador AFRODESC-EURESCL, e exibe documentário "Los hijos del destierro: Memórias del pueblo Garifuna de América Latina”.

|Serviço|

Quando: Hoje (19/11), às 17h30.

Onde: CEAO, Pç. Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de Julho

Quanto: Entrada gratuita.

Mais Informações: (71) 3283-5509 / www.fabricadeideias.ufba.br


|Documentário|

Título: Los hijos del destierro – Memorias del pueblo Garifuna de América Central.

Género: Film documental Soporte: video digital Dvcam, DVD.

Fecha de realización: 2009 -2010

Duración: 54 minutos

Producción: proyectos AFRODESC (Francia) e EURESCL (Europa)

Realización: Melesio Portilla Viveros, realizador independiente

Asesor científico: Carlos Agudelo, CEMCA – Centro de Estudios Mexicanos y Centroamericanos, investigador AFRODESC-EURESCL

Lenguas: garífunas, inglés, francés y español


Versión origina en español

Sinopsis

Mediados del siglo XVII. Grupos de africanos prófugos del esclavismo se refugian en las Antillas menores, territoriod e indios Caribes. De este encuentro nace un grupo étnico particular, los Garinagu conocidos al principio como Caribes negros.

En la confrontación entrel os poderíos coloniales por el control de la región, los Caribes negros, a pesar de su tenaz resistencia, son vencidos y desterrados hacia América Central en 1797. Allí, en medio de las guerras de Independencia y la continuidad del racismo heredado Nicaragua y Belice. En este peregrinar por la región este pueblo preserva elementos centrales de su cultura, en especial su lengua, su culto a los ancestros y los lazos familiares que trascendieron las fronteras nacionales. Han construido así una fuerte identidad como grupo que no ha sido rota ni por la fuerte migración garifuna hacia los Estados Unidos iniciada a mediados del siglo XX.

Los Garinagu han desarrollado un proceso de valorización política de su identidad y de su historia como recursos de lucha por el reconocimiento y la inclusión social que se prolonga hasta el presente. Su cultura es reconocida como patrimonio intangible de la humanidad por parte de la UNESCO y han logrado diferentes niveles visibilizacion y de representación en sus respectivos países. Pero a pesar de estos significativos logros, el camino hacia la obtención de sus reinvindicaciones de inclusión ciudadana con justicia social, respeito a sus derechos y superación de la discriminación racial y la exclusión tiene aun mucho trecho por recorrer.



CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais

Pç. Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de Julho - CEP 40025-010. Salvador - Bahia - Brasil
Tel (0xx71) 3322-6742 / Fax (0xx71) 3322-8070 - E-mail: ceao@ufba.br - Site: www.ceao.ufba.br

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (2)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (2)

Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa - ("Poemas"):


A Praça

A praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.
Praça da Figueira - Lisboa - Portugal
Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui ... Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante ...

Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena...

De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros ou as que não há.


*****


Pedro Homem de Mello ("Grande, Grande Era a Cidade...":


Divórcio

Cidade muda, rente a meu lado,
Como um fantasma sob a neblina...
Há cem mil rostos. Tanto soldado
E tanto abraço desesperado
Nesta cidade tão masculina!

Cidade muda como um soldado.

Cidade cega. Todos os dias,
A nossa vida fica mais breve,
As nossas mãos ficam mais frias...
Todos os dias, todos os dias,
A morte paga, paga a quem deve.

Cidade cega todos os dias.

Cidade oblíqua. Sexo pesado.
Rio de cinza, lúgubre e lento...
Bandeira negra, barco parado,
Nunca o teu nome foi baptizado
Nem o teu beijo foi casamento!

Cidade minha, do meu pecado...

Cidade estranha, sabes que existo?
Os homens passam... Para onde vão?
Só tem amores quem não for visto.
Por isso canto, só porque insisto
Em dar combates à tentação.

Oh! a volúpia de não ser visto!


*****


Gastão Cruz ("O Pianista"):

O Teatro das Cidades

Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água


*****

Amanhã, domingo, terceira e última postagem)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (1)

A CIDADE NA POESIA PORTUGUESA (1)

Lisboa - Portugal


Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa - (Poemas):

Lisboa

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

*****

António Gomes Leal (Claridades do Sul):

Lisboa

De certo, capital alguma n'este mundo
Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo,
Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pallidas creanças,
Mais graves cathedraes - e ruas, onde a esteira
Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade é formosa e esbelta de manhã! -
É mais alegre então, mais limpida, mais sã;
Com certo ar virginal ostenta suas graças,
Ha vida, confusão, murmurios pelas praças;
- E, ás vezes, em roupão, uma violeta bella
Vem regar o craveiro e assoma na janella.

A Cidade é beata - e, ás lucidas estrellas,
O Vicio á noute sae ás ruas e ás viellas,
Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros;
E á triste e dubia luz dos baços candieiros,
- Em bairos sepulchraes, onde se dão facadas -
Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!

As mulheres são vãs; mas altas e morenas,
D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas,
Ebrias de devoções, relendo as suas Horas;
- Outras fortes, crueis, os olhos côr d'amoras,
Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos...
- E ás vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burguezes banaes são gordos, chãos, contentes,
Amantes de Cupido, avaros, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas e nos lutos,
Bastante sensuaes, bastante dissolutos;
Mas humildes crhistãos! - e, em lugubres momentos,
Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

E assim ella se apraz n'um somno vegetal,
Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal! -
- Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura,
Como Nero tambem dá concertos á lua,
E, em noutes de verão quando o luar consolla,
Põe ao peito a guitarra e a lyrica violla.

No entanto a sua vida é quasi intermitente,
Afunda-se na inação, feliz, gorda, contente;
Adora inda as acções dos seus navegadores
Velhos heroes do mar; detesta os pensadores;
Faz guerra a Vida, á Acção, ao Ideal - e ao cabo
É talvez a melhor amiga do Diabo!


*****

Alexandre O'Neill, (De Ombro na Ombreira):

E de Novo, Lisboa...

E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?


*****


(Amanhã, sábado, mais ...)