domingo, 7 de março de 2010

RESENHA DE LIVRO



STOFFELS, Marie-Ghislaine. Os mendigos na cidade de São Paulo: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

Resenhista – Vicente Deocleciano Moreira

Só a leitura do título do livro nos remete, de pronto, à idéia de que se trata de uma etnografia cheia de revelações capazes de satisfazer nossa curiosidade comum sobre este segmento da população urbana de qualquer cidade no Brasil e no Mundo. Se o livro de Stoffels fosse apenas isso já teria um mérito extraordinário na medida em que o tipo de população que ela estudou não tem atraído a atenção dos cientistas sociais ao menos nos últimos 33 anos, a contar da data da publicação do livro: 1977. Porém, ela foi bem mais além.
A questão central está ligada à complexidade das atividades e ideologia características da mendicância. Stoffles retira a categoria dos mendigos em São Paulo da exclusiva inserção na subcategoria do lumpenproletariado, tanto em seu sentido amplo de “inferno do pauperismo”, como restrito de “classes perigosas”. Os mendigos – visto pela ideologia dominante como grupo desviante se inserem na população flutuante do exército industrial de reserva é, com exceção do operário da construção civil: na população latente e na população estagnada.
Foram entrevistados e observados 20 mendigos: 10 mendigos indigentes, 4 profissionais e 6 em trânsito em São Paulo.
A rua, tábula é marcada pelo exercício da mendicância através de três formas de apreensão existencial e resolução produtiva: sobrevivência, repouso e convivência grupal. No primeiro caso, compõem o cenário atores outros como os fregueses e os clientes flutuantes. Pedem dinheiro, alimentos, roupas. Quanto à forma repouso, a rua aparece como abrigo depois das reuniões e de mais um dia de labuta. Conversas que tratam sobre experiências recentes, notícias de ausentes, lavagem de roupas, uso de bebidas alcoólicas ... para tudo isso serve a rua como território de convivência grupal.
Stoffels, epigrafa a Introdução de seu livro com os seguintes versos de Fernando Pessoa:
“Vivi, estudei, amei e até cri
E hoje, não há mendigo que eu não inveje
Só por não ser eu.”

Uma escolha poética, uma escolha teórico-metodológica-ideológica – sem dúvida – que banha todo o texto até a sua conclusão; uma postura crítica contra a condenação como “peso morto” comodamente perpetrada e interpretada pela ideologia dominante da sociedade, em meio ao agir e ao auge das diversas formas de consciência dos mendigos.
Trinta e três anos depois de publicado, Os mendigos na cidade de São Paulo: ensaio de interpretação sociológica precisa funcionar como livro de cabeceira para todos quantos, técnicos da Prefeitura de Municipal de São Paulo estão, neste momento (março de 2010), às voltas com as formas de gestão e de respostas aos desafios colocados pela mendicância na cidade de São Paulo.


MACONDO ONDE É MESMO?
(RESENHA DUPLA DO PRÓXIMO DOMINGO, DIA 14 DE MARÇO: “MEMORIAL DE MARIA MOURA”, DE RACHEL DE QUEIROZ E “CEM ANOS DE SOLIDÃO”, DE GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ)




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