quinta-feira, 25 de março de 2010

AGUAONIA OCULAR DE UMA CIDADE CEGA (3)

AGUAONIA OCULAR DE UMA CIDADE CEGA (3)
SECA, AGRESSÕES AMBIENTAIS E QUALIDADE DE VIDA EM
FEIRA DE SANTANA (BAHIA) - SÉCULO XIX - SÉCULO XX

(CONTINUAÇÃO)


Vicente Deocleciano Moreira
vicentedeocleciano@yahoo.com.br
vicentedeocleciano@gmail.com
http://www.viverascidades.blogspot.com

(CONTINUAÇÃO)

Fonte do Mato


A Fonte do Mato tem mais importância para a história e a arqueologia de Feira de Santana do que ousam sonhar o nosso contumaz desprezo e nosso insensato vandalismo por tudo o que é história, memória e prevenção cQntra doenças e agravos no Nordeste no Brasil. Na Fonte do Mato, viajantes, vaqueiros e condutores de boiadas estacionavam para pernoitar ao relento, nas redes ou nos catres improvisados das toscas hospedarias, cozinhar e comer caça moqueada, carne seca e feijão tropeiro, beber água e cachaça, lavar e lavar-se. Era todo um ritual de extrema beleza que aguardava o momento certo I para conduzir a errática boiada aos campos de gado e à feira livre.


A fonte localizava-se no antigo subúrbio - hoje bairro - dos Olhos d' Água, na Rua Papa JQão XXTII. Água considerada de boa qualidade, um dos mais volumosos aqüíferos de sua época, concentrava contingentes de lavadeiras e aguadeiros, até antes da instalação da água encanada, em 1952. Desde que começou a ser assediado pelos primeiros colonizadores, esse corpo d' água vem sendo usado pelas lavadeiras (de roupas dé pratos e panelas )"tropeiros, cavaleiros e para a deposição de lixo e entulhos diversos. Pleiteav~-se freqüentemente às autoridades desobstruí-Io (lixo, lamá, vegetação) e construir, no seu entórno, um muro de contenção. Muitas vezes, a vegetação crescia tanto que dificultava o acesso dos usuários.

"Ein 26 de março de 1915, trinta moradores da Rua 28 de Setembro (subúrbio de Olhos d' Água) encaminharam 'abaixo. Assinado” ao intendente Bernardino Bahia, reivindicando a desobstrução da fonte:


Os abaixo assignados moradores na rua 28 de setembro (Olhos d'Água) subúrbio desta cidade, lutando com as maiores dificuldades para obterem água potável devido ao estado de obstrução em que se acha a fonte denominada do Matto, um dos mais importantes mananciaes existentes nesta localidade, não só pela abundância d'Água quando limpo, como por sua qualidade, vem respeitosamente pedir a V. Excia. Que tão pátrioticamente tem conduzido os destinos deste Município, para ordenar a desobstrução da mencionada fonte, serviço este, que muito vos agradecerão os signatários da presente petição. 'Certos de que serão attendidos, subscrevem-se como admiradores e agradecidos José Ribeiros Falcão [seguindo-se mais vinte e nove assinaturas, sendo a última de José Francisco de Sant'Anna]
(FEIRA DE SANTANA,1915-1916).


Na década de quarenta, século XX, com a proximidade do advento da água encanada, a Fonte do Mato, passou a receber maior atenção do Poder Público, pois estava nos planos a melhoria do sistema de abastecimento, atenção esta traduzida inclusive em indeferimento de pedidos de arrendamento de terrenos próximos ao mananciaL'Mas, depois da instalação da' água encanada (1952) a Fonte do Mato - a exemplo dos demais aqüíferos de Feira de Santana ~ foi relegada ao abandoc no. Na década de 90 estava quase totalmente coberta pela vegetação. Dificilmente~se via, mesmo de perto, o muro de contenção. Suas m.ar'~eI\s pareciam ~eias movediças. Andar em tomo 'da fonte dava a se~s.ação de a qualquer momento , afundar, porque a terra e~tava minada por esgotos a céu aberto que ligavam, livre e impunemente, as residências à fonte, contaminando-a. Em illÍciosda última década do século XX, o abandono da Fonte do Mato conseguiu mobilizar professores, ambientalistas e instituições de Feira de Santana, alarmados, pelo assoreamento, degradação ambienta~ e destruição do entornociliar daquele aqüífero.


Em 25 de junho de 1990, foi instituído o PROJETO FONTE DO MATO-BURACO DOCE, através de Termo Aditivo entre a Universidade Estadual de Feira de Santana (representada pela então Reitora Yara Maria Cunha Pires) e a Prefeitura Municipal de Feira de Santana (prefeito Colbert Martins da Silva). Esse Termo Aditivo estava ligado ao Convênio de Cooperação Técnica, Científica e Cultural celebrado entre estas duas instituições, em 6 de novembro de 1989. Este Convênio deu respaldo legal ao PROJETO NASCENTES, LAGOAS E RIOS DE FEIRA DE SANTANA. Cabe apresentar, na íntegra, a Cláusula Primeira desse Termo Aditivo pelo alcance de seus propósitos:



CLÁUSULA PRIMEIRA - Fica instituído o PROJETO FONTE DO MATO-BURACO DOCE, com duração prevista de 24 (vinte e quatro) meses, a contar da data de assinatura do presente Termo, com o objetivo de desenvolver estudos e ações específicas na Fonte do Mato e na Fonte Buraco Doce, localizadas, respectivamente, no bairro do Jardim Acácia e na Rua Paulo VI, nesta cidade.

Lamentavelmente,.vinte e quatro meses foram um período bastante limitado para realizar tantas atribuições inclusive aquelas não previstas, mas exigidas pelo estado crítico em que a Fonte do Mato se encontrava.

Pela Fonte do Mato passaram os pés dos tropeiros e as patas dos animais que moldaram a face e os passos da civilização feirense..É seguro que tropeiros e animais utilizaram outras vias primitivas de acesso aos campos de gado e à feira livre ,de Feira de Santana. Mas a Fonte do Mato é especial. Tão especial que deveríamos erguer, às suas margens outra escultura do tropeiro (já existe uma no centro da cidade). Ali mesmo, construiríamos um parque urbano/urbanizado, com pistas e quadras para práticas esportivas, equipamentos de lazer contemplativo (bancos de praça), parque infantil, etc, o Parque da Fonte do Mato. Talvez agora isto seja tarde demais. Agora é tarde, Inês é morta, a fonte foi morta. A Fonte do Mato, de tanto receber esgoto a céu aberto dos vizinhos e o desprezo do Poder Público e da sociedade civil, não mais existe.



Noratinho da Pamonha, morador do local há mais de meio século, sempre foi incansável e auto-determinado "guardião da fonte". Lamentavelmente ... foram vãs suas gestas solitári-as em defesa da fonte, como um quixote negro, contra os moinhos de vento da indiferença nos desvãos administrativos do m'ísero povoado - uma espécie de arquétipo que ainda ronda os altos edifícios, os shopping centers e as ruas movimentadas da moderna e cada vez menos cosmopolita Feira de Santana.

(CONTINUA AMANHÃ, SEXTA-FEIRA, DIA 26 DE MARÇO)

Nenhum comentário:

Postar um comentário