terça-feira, 22 de março de 2011

ASSIS VALENTE E OS AMORES URBANOS (3 - FINAL)

ASSIS VALENTE E OS AMORES URBANOS (3 - FINAL)


Vicente Deocleciano Moreira


CAMISA LISTRADA

Assis Valente

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão

Tirou o anel de doutor para não dar o que falar
E saiu dizendo eu quero mamar
Mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar

Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão
Levou meu saco de água quente pra fazer chupeta
Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia
Abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação
E até do cabo de vassoura ele fez um estandarte
Para seu cordão

Agora a batucada já vai começando não deixo e não consinto
O meu querido debochar de mim
Porque ele pega as minhas coisas vai dar o que falar
Se fantasia de Antonieta e vai dançar no Bola Preta
Até o sol raiar


CAMISA LISTRADA,  presença destacada no hinário da MPB, cantada e assobiada por milhares de pessoas (amadoras ou intérpretes)  no Brasil (mesmo que a maioria talvez  lhe ignore ou desconheça a autoria), é conteúdo dos mais complexos e dos mais desafiadores às análises ... ao menos na trasversalidade ASSIS VALENTE E OS AMORES URBANOS escolhida por esta série de postagens que hoje chega ao seu final. A possibilidade e o amplo espaço que sugerem múltiplas  leituras - só para falar no campo amoroso, afetivo da relação homem/mulher -  não facilita o empreendimento.
Usar camisa de mangas curtas e, como se não bastasse, listrada não elevava o julgamento difuso do senso comum das pessoas, da vizinhança; de toda uma cidade - se me permitem tamanha generalização   Em outras palavras, era um traje que, nas primeiras décadas do século XX,  identificava facil e diretamente o malandro carioca "de carteirinha" - como diríamos hoje (2011).
Temos aí, uma primeira recorrência de Assis Valente a exemplo da matriz presente e insitente  nos  compositores de seu tempo: a figura do malandro carioca vivendo às expensas de uma mulher que - esta sim! - trabalhava duro para sustentá-lo casa, roupa e comida ... e cama. Uma mulher carente ... todas carência ... com o corpo e a alma marcados pelas duras experiências de vida desde a mais tenra idade: pobreza, falta d einstrução escolar e de saúde, abusos sexuais, espancamento ... Um homem aproveitador, mulherengo, contraventor,  preguiçoso, exigente e, não raras vezes, violento além de tantos outros defeitos que desapareciam na glamurização deste tipo masculino urbano carioca (Rio de Janeiro - Brasil). Canivete na cintura da calça e pandeiro na mão. Perfeito.
A segunda recorrência - que não aparece em "Camisa Listrada" sob cores tão vivas e tão nítidas - é o morro, lá em cima,  com o um ecossistema social separado da cidade lá embaixo. Não creio que Assis Valente tenha fugido a esta regra geográfica imaginária que, diga-se de passagem e de antemão, não é internalizada pelo nosso contemporâneo Chico Buarque de Hollanda como poderemos constatar a partir de amanhã quarta-feira. O morro, a favela, a cidade integram um mesmo 'caldeirão' de tensões e de trocas inclusive simbólicas.
Por que o sujeito lírico masculino de "Camisa Listrada" com sua repentina 'mudança' de conduta surpreende a todas as pessoas (Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati) - a começar pela sua companheira  sempre pronta para compreender o desatino do rapaz e para, seguindo à risca a mulher do soneto "A Mulher Ideal"/Vinicius de Moraes, estar sempre disponível para perdoar (?). Será que sua folie (loucura) não teria como cenário e conteúdo um pleno e franco dia de carnaval quando cabem desvarios, fantasias e seus múltiplos sentidos ... e mesmo inversões como homens vestidos de mulher .. sim, de forma carcatural e, no bem sentido da expressão, ridícula.

Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia
Abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação


Apesar do perdão das estravagâncias (como vestir-se de mulher)  concedido pelo espírito do Carnaval, Tirou o anel de doutor para não dar o que falar


Mesmo que tenha sido um dia de Carnaval, ele não foi poupado dos comentários "sossega leão" / "sossega leão" aos quais, de modo narcisista,  respondia com sorissos de autosatisfação e autoerotismo.

Porém para o conforto geral de todos e felividade geral da nação, é Carnaval. A referência ao Bola Preta nos proporciona esta segurança.

E até do cabo de vassoura ele fez um estandarte
Para seu cordão
Agora a batucada já vai começando não deixo e não consinto
O meu querido debochar de mim
Porque ele pega as minhas coisas vai dar o que falar
Se fantasia de Antonieta e vai dançar no Bola Preta
Até o sol raiar


[O  Bola Preta é um dos ícones da tradição urbana do Rio de Janeiro. Espaço carnavalesco rico e alegre, é o Cordão   o mais antigo do Carnaval carioca: data de 1918. A partir das nove horas da manhã, no sábado do Carnaval, o Bola Preta sai da Cinelância (centro) e só consegue chegar à Praça Tiradentes no meio da tarde. No Carnaval de 2011, foi considerado o maior bloco carnavalesco do Mundo com dois milhôes de pessoas se espremendo e dançando marchas e todo o tipo de ritmo, até chegar ao destino final (Praça Tiradentes)]

Talvez em "Camisa Listrada", a mulher sofredora de "Fez Bobagem" tenha dado lugar e vez a uma mulher talvez mais alegre porque mais cúmplice das estrepolias

Agora a batucada já vai começando não deixo e não consinto
O meu querido debochar de mim
Porque ele pega as minhas coisas vai dar o que falar

E das  "infantilidades" carvalescas:

E saiu dizendo eu quero mamar
Mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar
(...)
Levou meu saco de água quente pra fazer chupeta

________

A mulher de "Camisa Listrada" é realmente mais feliz que as outras mulheres do amor urbano construído e pensado por Assis Valente?

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