quarta-feira, 20 de outubro de 2010

JUVENTUDES, DIVERSIDADE E CIDADANIA (2)

JUVENTUDES, DIVERSIDADE E CIDADANIA (2)

1.4 Condição de liminaridade

O (a) jovem, o (a) adolescente em geral está num incômoda condição de liminaridade (de limite), independentemente dos ritos de passagem da cultura de que faça parte. (TURNER, 1974, GENNEP, 1977,). Tendo já cumprido o rito de separação que o afasta da infância ainda não realizou o rito de agregação à condição de adulto. Não são tolerados determinados comportamentos que os adultos classificam como ‘infantís’, tanto quanto são aceitas somente atitudes que o(a) jovem deve assumir, adotar, quando forem adultos.

1.5. Juventude e beleza

Quanto mais distantes, no tempo e no espaço, da Grécia Antiga, as imagens do jovem Apolo e da jovem Afrodite mais os elegemos como padrão de beleza universal. A ironia sofisticada de Shaw e o duplo sentido da frase de Rodrigues não conseguem esconder a saudade que muitos têm dos tempos de juventude.

A juventude é o próprio ideal de saúde física e mental. Quando alguém chega à idade dos 40, 45 anos em diante – ou até mesmo antes disso! - , é comum que médicos, mídias (jornais, TV, revistas ...) e livros recomendem, e praticamente nos obriguem, a fazer exercícios físicos diariamente e sob recomendação médica, adotar dieta balanceada, evitar consumo excessivo de carne vermelha, não trabalhar em excesso, praticar atividades de lazer, não fumar, beber álcool moderadamente, otimismo diante da vida, evitar estresse, etc. Enfim, fazer coisas que têm a ver com o ideal do vigor juvenil, mas de execução difícil para quem já está nos cinqüenta.

Quando uma emissora de TV ou qualquer outro órgão de imprensa faz reportagem sobre a saúde, vitalidade e a perspectiva de longevidade de quem hoje (2010) tem 60 anos de idade, essas mídias dão expressivo destaque para o corpo esbelto, para pessoas fazendo exercícios, praticando surfe. Essas imagens – que tentam “vender” saúde e vitalidade têm como padrão a juventude. A estas pessoas com 60 anos ou mais é negado, pela mídia, um padrão próprio (para a idade) de saúde e disposição. Daí todos dizermos que determinado idoso ou idosa tem um ar “jovial” quando apresentam (ou aparentam mostrar) pele, energia, capacidade física e intelectual próprias dos jovens.

JUVENTUDES

Sempre que falamos em juventude, no singular, podemos correr o risco de idealizar o jovem e de generalizar para todos os jovens as idéias que, comumente, fazemos sobre o que é ser jovem, o que é e o que faz a juventude. E, além de correr esse risco, esconder, ignorar ou ser indiferente às diversas formas de ser jovem, sobretudo em sociedades com fortes desigualdades sociais como o Brasil.

Fazendo uso, mais uma vez, dos ditos populares, diremos que “os dedos das mãos são irmãos mas não são iguais”. Dizemos que as mãos são a juventude e a condição bio-psíquica-social-cultural do ser jovem, em diversos tempos, culturas e lugares físicos e sociais. Cada dedo da mão, diferente do outro (mesmo quando se juntam as duas mãos), pode sugerir que existem diferentes jovens em condições de cultura, classe social, de nível de instrução e de poder aquisitivo.

A verdade é que nem todo@s @s jovens: são gastador@s (mesmo quando têm dinheiro) ou vivem no paraíso de felicidade e irresponsabilidade, entusiasmo desvairado e de alto consumismo em que às vezes imaginamos que el@s vivem. Nem tod@s têm o poder, a força atlética e a saúde que os corpos das estátuas de Apolo e Afrodite parecem “dar” e “vender”. Nem tod@s os jovens têm roupa de grife casa e comida, são branc@s, ricos, cursam as melhores escolas ou faculdades, dispõem de note book, internet, de TV de LCD ou dos mais confiáveis e caros serviços de saúde,. Nem tod@s já foram (pu irão) à Disneilândia ou não precisam trabalhar para viver.

Alguns meninos e meninas comemoram o Dia das Crianças (12 de outubro) leves, livres e soltas, comendo pizzas e ostentado presentes caros e vistosos. Mas há crianças que “comemoram” esse dia, nas penitenciárias, na mesma cela onde estão também presas suas mães, sem comida ao menos digna, numa vida sem presentes, sem presente e sem futuro.

Nem tod@s jovens estão protegid@s, na prática concreta da vida social, mesmo pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A juventude não usufrui, igualmente, dos direitos sociais que configuram a nossa idéia contemporânea de cidadania: saúde, educação, habitação, segurança e proteção contra atos de violência, de cooptação pelo narcotráfico, de abusos sexuais, acesso ao direito à alimentação saudável, à dignidade ...

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Diante de tantas diferenças e diversidades num universo só aparentemente igual que é a juventude, é melhor e mais realista falar em juventudes, no plural – porque ela é plural, diversificada e a cidadania não tem sido conquista de todo@s @s jovens.
Enquanto houver “um nino en la calle”, e se, mesmo assim, continuarmos falando em infância e em juventude, no singular, não estaremos senão construindo uma nuvem de fumaça para tentar esconder as perversas formas de desigualdades sociais, de oportunidades mais e mais limitadas e de privação da cidadania para milhares de jovens brasileiros.

1.6. Juventudes, educação e conquista da cidadania

É na educação onde as profundas desigualdades entre jovens, no Brasil, têm maior visibilidade. Andrade e Farah (2007, p. 55-56) trazem importante contribuição ao nosso texto instrumental:

Pensar no processo de juventude e em condição social juvenil significa, necessriamente, pensar em um conjunto de processos de diferenciação. No Brasil, a situação dos jovens perante o sistema educacional é um deles. A escolaridade, relacionada com a faixa etária, opera importantes diferenciações juvenis, especialmente se cotejada com a situação de vida das famílias dos jovens – determinada, principalmente, pelo status socioeconômico -, com sexo, cor, local de moradia, clivagens intergeracionais etc. Sem dúvida, não é possível se pensar em juventude como uma categoria independente do contexto no qual ela toma sentido (CHAMPAGNE, 1996). Assim, o processo de escolarização constitui hoje, sem dúvida, um espaço importante de sentido, que explicita, de forma incisiva, desigualdades e oportunidades limitadas que marcam expressivos grupos de jovens brasileiros. Ao mesmo tempo, é um espaço fundamental de reflexão e luta por direitos.

Vejamos alguns indicadores educacionais das juventudes brasileiras apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (BRASIL, 2008), relativos ao ano de 2008;


(amanhã, quinta-feira, conclusão de JUVENTUDES, DIVERSIDADE E CIDADANIA)

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