domingo, 6 de junho de 2010

PORTAL DO ENVELHECIMENTO - Envelhecer em nossas cidades é um grande desafio

Adriana R. de Almeida Prado

Envelhecer em nossas cidades é um grande desafio

São inúmeras as barreiras que os idosos enfrentam diariamente para viver nas cidades brasileiras. São calçadas cheias de buracos; edifícios sem rampas de acesso para pedestre ou sem elevadores. Os ônibus, também, na sua maioria com degraus, exigem muito esforço para o embarque ou desembarque.

Acidentes de trânsito/transportes e as quedas associadas com o ambiente viário, por exemplo, as calçadas irregulares, ocupam os dois primeiros lugares no conjunto de mortalidade por causas externas específicas em idosos no Brasil, respectivamente com índices de 29,6% e 16,6%, conforme pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ (2002).

Os ambientes devem ser planejados para promover e encorajar a independência e a autonomia, de forma que uma boa qualidade de vida possa ser proporcionada a todos os indivíduos. (PERRACINI, M. in FREITAS et alli, 2001)

É necessário criar espaços onde todas as pessoas sintam-se incluídas, que permitam a adaptação de qualquer indivíduo, até mesmo aqueles que apresentam perdas funcionais – espaços acessíveis.

Um ambiente com acessibilidade atende, diferentemente, uma variedade de necessidades dos usuários, tornando possível uma maior autonomia e independência. Entendendo autonomia, aí, como a capacidade do indivíduo de desfrutar dos espaços e elementos espontaneamente, segundo sua vontade. E independência como a capacidade de usufruir os ambientes, sem precisar de ajuda. (GUIMARÃES, 1999)

É comum ouvirmos dizer que é difícil envelhecer. Isso porque o envelhecimento biológico traz algumas perdas que interferem na relação com o ambiente. Os indivíduos adotam diferentes mecanismos compensatórios na medida em que vão sentindo essas perdas, mas algumas providências devem ser tomadas. Por exemplo, a velocidade média da marcha de um idoso, para atravessar uma rua, é de 0,4m/s e a adotada na maioria das cidades, ao calcular o tempo do semáforo, é de 1,2m/s. (BONI, F. e ALMEIDA PRADO, A.R. in KAIROS)

Algumas providências poderiam ser tomadas para evitar essa situação. A travessia das ruas pode se dar através de rebaixamento de guias, em forma de rampas ou com a colocação de faixa elevada, que una uma calçada a outra, sem desníveis. Ambas sempre sinalizadas com faixa de travessia e com piso tátil.

Perdas sensoriais, como a diminuição da acuidade visual, já se manifestam a partir dos 40 anos, acentuando-se aos 50. Aos 60 anos, há uma redução do tamanho da pupila, o que reflete na quantidade de luz que chega na retina. Isso resulta, até para os idosos com boa acuidade, em dificuldade para discriminar sombras, cantos e contrastes. (ROZESTRATEN, R.in NERI, 2002). Torna-se mais difícil notar os detalhes dos objetos, daí a importância do cuidado com a iluminação natural e a artificial. Deve-se iluminar bem os passeios públicos e as travessias de pedestres. Evitar os pisos que possam refletir a luz solar.

Após os 60 anos, a visão periférica fica reduzida. Era de 60 graus aos 30 anos e passa para 40 graus, diminuindo consideravelmente o campo visual, sendo comum os idosos se chocarem com o mobiliário urbano e com as pessoas. (ROZESTRATEN, R. in NERI, 2002).

Uma circulação segura nas calçadas pode ser feita através da garantia da definição de uma faixa livre de obstáculos de 1,50m ou, no mínimo, de 1,20m de largura. O piso dessa calçada deve ter uma superfície firme, regular, estável e antiderrapante. Há desenhos de piso, os sinuosos e com figuras geométricas, que provocam ilusão de ótica, confundindo os idosos que já apresentam perdas visuais e neurológicas. É mais adequado optar por outros tipos de piso.

Áreas com piso mal conservado, com desníveis e buracos, apresentam um grande risco de provocar entorse ou quedas àqueles que estão com a sensibilidade táctil diminuída ou perdendo a força muscular, como foi comprovado pela pesquisa da FIOCRUZ.

Por isto muitas vezes as pessoas optam por circular pelas ruas porque o piso é uniforme porém, expondo-se a outros a grandes riscos. Uma das soluções poderia ser alargamento de uma das calçadas, criando uma área de convívio.

Quando o problema é distúrbio de equilíbrio, o indivíduo necessita de apoio, para seu deslocamento. É necessária a instalação de corrimão, nos dois lados de escadas e rampas. Um corrimão para garantir uma perfeita pega tem seu diâmetro variando entre 3cm a 4,5 cm.

Nos veículos de transporte coletivo, não basta ter assentos reservados aos idosos é necessário que também possibilitem o embarque ou o desembarque em nível, sem a grande barreira dos degraus.

Alguns idosos sofrem de distúrbios gastrointestinais ou genitourinários e, por isso, não saem de casa tolhidos pela inexistência de sanitários públicos, notada na maioria das cidades brasileiras.

Se nossas cidades não se prepararem para essa mudança do perfil de sua população, provavelmente esse contingente de idosos ficará preso em sua residência, para não dizer enclausurado em seus quartos. É imprescindível que medidas de acessibilidade sejam adotadas para evitar este futuro, e garantir que as pessoas idosas possam desfrutar dos prazeres de nossas cidades.

É necessário incluir o individuo nos ambientes em que vive. Daí a importância de se desenvolver políticas para garantir que os diversos espaços da cidade permitam a adaptação de qualquer indivíduo, incluindo aqueles que apresentam perdas funcionais.


Referências Bibliográficas


ALMEIDA PRADO, Adriana Romeiro de. A Cidade e os Idosos: um estudo da questão de acessibilidade nos bairros Jardim de Abril e Jardim do Lago do Município de São Paulo. Dissertação de Mestrado em Gerontologia. São Paulo, PUC, 2003. 112 p.

FIOCRUZ. Análise de mortalidade por causas externas de idosos em capitais de regiões metropolitanas do Brasil. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde, 2002

GUIMARÃES, Marcelo. Acessibilidade ambiental para todos na escala qualitativa da cidade. In: TOPOS - Revista de Arquitetura e Urbanismo. v.1, nº 1, Belo Horizonte: NPGAU, 1999.

LICHT, Flávia Boni, ALMEIDA PRADO, Adriana Romeiro de. Idosos, cidade e moradia: acolhimento ou confinamento?. In: Revista Kairós: gerontologia/ Núcleo de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia – PUC – SP, v.5, nº2, dez, 2002.

MADRID. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. Real Patronato de Prevención y de Atención a Personas con Minusvalía, Guía para la Redacción de un Plan Municipal de Accesibilidad. Documentos 54/2000, 2000. 300p.

PERRACINI, MÔNICA. Planejamento e Adaptação do Ambiente para Pessoas Idosas. In: Freitas at al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Guanabara & Koogan – 2002, p. 798 – 807.

ROZESTRATEN, REINER J. A. Envelhecimento, mobilidade e participação no trânsito. In: Néri, A.L.(org). Qualidade de vida e idade madura. Campinas, SP: Papirus, 2002, p. 157- 190.


__________________________________________________



Adriana Romeiro de Almeida Prado

Arquiteta, urbanista, mestre em Gerontologia, especialista pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – SBGG. Coordenadora de projetos de acessibilidade na Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. Coordenadora da Comissão de Estudo Acessibilidade a Edificações e Meio do Comitê Brasileiro de Acessibilidade – CB40, da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. Consultora da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – Corde.

Nenhum comentário:

Postar um comentário