terça-feira, 5 de abril de 2011

CHICO BUARQUE E OS AMORES URBANOS (13 - FINAL)

CHICO BUARQUE E OS AMORES URBANOS (13 - FINAL)    

3 - AMORES URBANOS DE CLASSE MÉDIA (II)



A letra "Benvinda" (1968) parece funcionar, aqui, como uma antessala para a reflexões que encerram esta série de postagens CHICO BUARQUE E OS AMORES URBANOS.

Talvez até seja possível identificar, em "Benvinda",  não apenas a classe média, ou as classes médias,  mas qualquer outro segmento social; mas - salvo grave engano meu - é muito difícil nela identificar o mesmo clima social/afetivo/amoroso dos amores urbanos ... o morro com o cenário.

Não estou seguindo a ordem cronológica das letras e porisso, vencido pela ansiedade, quero deter-me num detalhe interessante de "Eu Te Amo":

"Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó abraça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu"


Essa letra, nascida em 1980, traz uma citação de 10 anos atrás: o armário embutido. Na década de 70, mocinhas recém-casadas ou a casar (noivas) de classe média alta comentavam com orgulho sobre o armário embutido que tinha sido concluído pelo marceneiro de confiança ("rapaz muito competente") no quartop do casal. Era, então, sinal de elevado status  social, ter um armário embutido, peça que veio substituir o velho guarda-roupas que carregavam sobre sí o peso de malas, caixas, etc.; e, de repente, toda essa traquitana de gosto duvidoso finalmente agora podia "sumir" dentro do maleiro do armário embutido. E a racionalidade da ocupação do espaço ... de um vão, de um espaço morto, dentro  do quarto?

Na década de 80, a expressão armário embutido já havia caído em desuso; o móvel sobreviveu, é verdade, porém com o simples nome armário; e por que Chico Buarque insiste no armário embutido? Penso que há um revestimento irônico na expressão; o móvel aí aparece como algo antigo; do tempo em que o casal contraíra núpcias; uma lembrança, volto arepetir com revestida de ironia, de um tempo de felicidade conjugal que, agora, parece não mais existir; há um clima inegável de despedida matizado com um sentimento de inconformismo e desorientação ante o desenlace que parece inevitável:


"Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir"

E tudo isso ocorre numa cidade, precisamente num apartamento de classe média. Armário embutido num barraco?


Mas, em outra situação, em outra letra, "Já passou", o bálsamo para as dores do amor. Amor urbano? Sim, há referências a lugares e logradouros da capital do estado do Rio de Janeiro (Brasil):  Barra, Praça Mauá. Jardim de Alah.


Um apartamento e seus móveis (armário embutido) ou eletrodomésticos (gravador, secretária eletrônica) é o cenário comum dos amores urbanos de classe média, que ele apareça de modo mais claro ou apenas sugerido ... até que o Rio de Janeiro, enquanto sítio urbano é exibido sem rodeios:


"E quem sabe então
O Rio será
Alguma cidade submersa  ..." 


Esse trecho faz alusão a uma crença de que, no futuro, o mar "retomará" suas águas que foram aterradas pelo ser humano e as cidades à beira mar (a exemplo do Rio de Janeiro) sucumbiriam à força das ondas.


Tsunami no Brasil?



















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