sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CULTURA URBANA E EDUCAÇÃO - ME/SED - BRASIL (!)



 ISSN 1982 - 0283
Cultura urbana e educação
Ano XIX – Nº 5 – Maio/2009
Ministério da
Educação
Secretaria
de Educação a Distância
SUMÁRIO
Cultura urbana e educação
Aos professores e professoras ................................................................................... 3Rosa Helena Mendonça
Apresentação da série Cultura urbana e educação .................................................. 4Ecio Salles
Texto 1 – A posse da linguagem ........................................................................................ 11Inclusão subjetivaIvana Bentes
Texto 2 – O conhecimento do território ................................................................. 20Conhecer o território, viver a culturaJorge Luiz Barbosa
Texto 3 – Práticas inovadoras ................................................................................. 26
Novas práticasMarcus Faustini

3
Cultura urbana e educação
Aos professores e professoras,
Urbano vem do latim e significa “o que é próprio da cidade”. Cultura urbana seria, por extensão, a expressão de grupos que desenvolvem sua arte nas ruas, nos bairros, em espaços públicos que são democratiza­dos, criando novas sociabilidades. São pro­jetos com um potencial transformador, uma vez que gestados nas/pelas comunidades, em especial nas chamadas periferias. Na maioria jovens, esses atores sociais estão ou estiveram na escola, tecendo redes entre educação e cultura.
É importante que o espaço escolar incorpore essas manifestações culturais e suas lingua­gens específicas, possibilitando recriações e inovações, num processo de permanente mudança.
Atento a essa diversidade de expressões e à necessidade de um diálogo consistente en­tre a cultura escolar e aquela que emerge das comunidades, o Salto para o Futuro tem se empenhado na produção de séries que buscam trazer, por meio de múltiplas vozes, reflexões acerca dessas práticas contempo­râneas.
Para a consultoria desta série, contamos com a colaboração de Ecio Salles, escritor e estudioso da cultura hip-hop no Brasil, entre outros temas relacionados à cultura urbana. Ecio foi coordenador de pesquisa e conteúdo do Grupo Cultural AfroReggae, e atualmente é pesquisador na ECO/UFRJ e ainda consultor de programas voltados para ações culturais.
Os textos que compõem a publicação eletrô­nica Cultura urbana e educação, bem como a série televisiva, têm como proposta cons­truir pontes entre os espaços/territórios que nas cidades são palcos de expressões cultu­rais diversas e as escolas, potencializando a relação educação, cultura e cidadania.
Rosa Helena Mendonça1
1 Supervisora pedagógica do Programa Salto para o Futuro.4
APRESENTAÇÃO
Cultura urbana e educação

Ecio Salles1
Em um conhecido poema, João Cabral de Melo Neto escreve que um galo sozinho não é capaz de produzir a manhã. Para isso, seria necessário que o canto deste galo se unis­se ao de outros, até que o conjunto sônico de todos os galos finalmente tecesse a ma­nhã. Essa é uma forma poética – e, por isso mesmo, não menos importante que qual­quer outra – de narrar a força do coletivo, a importância de os indivíduos ou grupos de indivíduos se articularem no sentido de po­tencializar suas ações.
O campo gravitacional ao qual pertence a expressão cultura urbana, de acordo com a proposta que embasa esta série do Salto para o Futuro, reúne palavras que se atraem mu­tuamente: processo, linguagem, subjetivida­de, experiência. São termos diferentes entre si, mas que deixam – especialmente se pensa­das em face do conjunto cultura e educação – perceber um destino compartilhado: a pers­pectiva de ampliação ou universalização dos direitos e o aprofundamento democrático.
Estes são pontos definidores das estratégias dos grupos que desenvolvem ações culturais na cidade. Em primeiro lugar, a cultura é entendida como um modo de estar na vida. Nesse contexto, deixa-se de lado o ponto de vista da cultura como representação e pas­sa-se a entendê-la a partir de suas estraté­gias e procedimentos, que deslancham pro­cessos continuados de ação criativa com a vida. A cultura pensada como processo atua no cotidiano das pessoas, modificando-as produtivamente, potencializando os sujei­tos das ações, incidindo sobre a comunida­de: reforça laços, estimula a conquista de autoestima, produz pensamento sobre o lu­gar de cada um na rua, no bairro, na cidade, no país, no mundo, abrindo-se à possibili­dade de transformar e de democratizar esse processo. Trata-se de investir nos processos micropolíticos, balizados na consideração do desejo e da produção de subjetividades, capazes de obter efeitos na macropolítica: reinventar a cidade.
Trata-se de estimular o desejo, experimentar todas as linguagens, compartilhar a emo­ção, a inteligência, potencializar e empode­
1 Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense e doutorando em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. Consultor do Programa Onda Cidadã (Itaú Cultural). Entre 1997 e 2006 foi Coordenador de Pesquisa e Conteúdo do Grupo Cultural AfroReggae. Consultor da série.5
rar os sujeitos e os discursos, tomar posse da própria existência. Como percebe Ivana Bentes, “é preciso tomar posse das lingua­gens e dos meios, tomar posse das câmeras, pois as questões de pertencimento e autoes­tima passam pela potência da imagem e da visibilidade”2. E também garantir o direito à fruição, ao gozo estético.
Por um lado, a cultura designa a capacidade de determinados grupos em desenvolver o seu trabalho com organicidade e legitimi­dade nas comunidades onde se estabelece­ram. Nos últimos anos, os movimentos dos jovens – em especial dos jovens negros e po­bres – têm sido responsáveis pela produção de uma nova subjetividade a partir das peri­ferias do Brasil. Transformaram suas comu­nidades, a partir de uma dinâmica que com­bina comportamentos de resistência com os das redes sociais de produção, inaugurando espaços de criação e de “trabalho comum”3.
É notável como, no mundo inteiro, o fenô­meno da proliferação das favelas tem se tornado um elemento marcante do cresci­mento dos centros urbanos. Segundo rela­tório do Programa de Assentamentos Hu­manos das Nações Unidas, os moradores de favela representam 78,2% da população urbana dos países menos desenvolvidos e constituem um terço da população urbana global. E pelo menos metade dessa popula­ção é composta por jovens com menos de vinte anos de idade (apud Davis, 2006). Sob um determinado ponto de vista, esse fenô­meno é preocupante, uma vez que resulta do aumento da desigualdade social, do de­semprego e da miséria, além de favorecer o recrudescimento da violência urbana.
Por outro lado, nos últimos anos o campo da cultura vem desempenhando um papel cada vez mais importante em nossa vida so­cial, econômica e política. Nesse mesmo pe­ríodo, a voz das periferias, “falando alto em todos os lugares do país”, tem-se apresenta­do como, nas palavras de Hermano Vianna, “a novidade mais importante da cultura bra­sileira na última década”4.
Os meios de expressão aí encontrados são os mais diversos, desde o saquinho de pão impresso, distribuído nas padarias de Vi­tória pelo Projeto Forninho e funcionando como um jornalzinho regional; os saraus poéticos promovidos pela Cooperifa nos ba­res de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, transformando o bar no verdadeiro “espaço público” das favelas; as interven­ções públicas e midiáticas do coletivo Bi­jari em áreas gentrificadas de São Paulo,
2 BENTES, Ivana. 2007. Texto inédito, produzido para o Programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural.
3 NEGRI & COCCO, 2005, p. 57.
4 Texto publicado pela TV Globo como anúncio em vários jornais brasileiros, no dia 08/04/2006, data da estréia do programa Central da Periferia. Depois republicado em formato de manifesto em sites na Internet, como o Overmundo.6
contrapondo-se à limpeza étnica urbana em curso; T-bone Açougue Cultural e suas atividades em Brasília (chegou a ter dez mil livros em seu açougue para empréstimo gratuito à população); o pessoal do Media Sana em Pernambuco, com sua militância política e estética, juntando vídeo e músi­ca; o Enraizados, e suas múltiplas atividades através do hip-hop, falando a partir de Nova Iguaçu para o Brasil inteiro e para alguns países no mundo; a incrível experiência do Espaço Cubo, em Cuiabá, com a produção de festivais de rock independentes, produ­zindo uma economia local tão consistente que gerou uma própria; ou, ainda, o traba­lho da Fundação Casa Grande, no Ceará, em que as crianças participantes assumiram a gestão do projeto.
E mais, iniciativas como as do Grupo Cultu­ral AfroReggae, do Observatório de Favelas, da Cia. Étnica de Dança e da CUFA, no Rio; do Eletrocooperativa e do Bagunçaço, na Bahia; da Casa do Zezinho e a do Hip-Hop, em São Paulo... Inúmeros outros projetos e experi­ências espalhados pelo país têm em comum a conjugação dos aspectos mencionados acima com uma profunda e consistente in­serção em seus territórios de atuação. Nem todos os grupos têm sua origem nos locais em que atuam (e mesmo essa “origem” não seria por si garantia de legitimidade). Aque­les que obtiveram os melhores resultados nesse processo são os que, ao entrarem em contato com o contexto social no qual in­vestiram, a um só tempo modificaram e se permitiram modificar por ele.
Essas iniciativas são, talvez, representativas de uma nova modalidade de arte. E o artista hoje já não pode deixar-se levar pelo mito romântico do ser solitário, inspirado, acima das coisas do mundo. Ele se torna uma espé­cie de operário, de produtor ou operador de ações criativas, sempre inserido na mobili­zação coletiva, em que cada ponto da rede é um foco de irradiação cultural. Assim, caem por terra as noções consolidadas sobre a relação centro/periferia, a dependência em relação às instituições reconhecidas e os clichês sobre inclusão social, cidadania, pre­cariedade, reivindicação e conflito. Está em suas mãos a potência de reinventar a subje­tividade coletiva, os meios de produção, de troca e de consumo, a própria mídia.
Nas periferias do Brasil, os casos em que essa forma de articulação foi determinante para o êxito das iniciativas – especialmente no que se refere a projetos ligados à educa­ção e à cultura – são numerosos. Nessas or­ganizações, a música, a dança, o teatro, o circo e a capoeira, entre outras, além de for­mas estéticas, são também linguagens que promovem um certo diálogo, aquele capaz de reescrever trajetórias de vida, modificar pessoas e comunidades, repensar a vida e transformá-la. Como afirma George Yúdice em seu estudo sobre o assunto, a cultura hoje “está sendo crescentemente dirigida 7
como um recurso para a melhoria sociopolí­tica e econômica”5.
Nessa perspectiva, abre-se a possibilidade de investimento, a partir do campo cultu­ral, em outra vida possível, afetando e as­sociando-se ao movimento da vida social, numa recusa decidida de acomodar-se à or­dem dominante. É por isso que, apesar de a forma de organização pelas ONGs encontrar limites à sua atuação – o risco de cooptação, devido à sua adesão à grande mídia; o des­vio do sentido de suas lutas ao participar de redes abrangentes, com setores das classes dominantes, etc. –, no fim das contas não cessam de elaborar a cultura popular como “gestos ritualísticos de produção de subje­tividade autônoma por parte dos pobres”, como define Muniz Sodré6. Ou, como acre­dita Peter Pál Pelbart, “esse grupo vive na carne a constatação de que o capital maior é a própria vida, e que sua potência de ex­pansão e de constituição extrapola o poder do capital e o sequestro da vitalidade social dali advinda. É uma pequena revolução bio­política”7.
O processo de articulação não se dá apenas no interior das periferias. Uma vez realiza­do esse movimento, as próprias periferias, a partir da ação dos grupos organizados, promovem um outro nível de articulação, agora com setores externos às comunidades – agências de fomento, empresas, governo, mídia... –, visando potencializar seus proje­tos e atividades.
Esses agenciamentos tendem a se complexi­ficar ainda mais no momento em que as de­sigualdades sociais e a violência urbana pas­sam a ocupar o centro das preocupações. Nesse momento, algumas organizações, em especial aquelas que se valem da cultura como recurso, passam a investir fortemente na criação de modos de aproximação entre os espaços sociais antagonizados por ques­tões sociais, raciais/étnicas ou geográficas.
Por outro lado, uma parte significativa dos grupos atuantes nas periferias, notada­mente os que se valem da cultura para de­senvolver as suas ideias, atuam na direção contrária: no questionamento e constante enfrentamento das “fronteiras”. A impres­são inicial é a de que identificaram os fossos que dividem e separam as pessoas – os quais passam por questões sociais, raciais, econô­micas, geográficas, de gênero – e decidiram “construir pontes” sobre esses abismos.
Seu desafio é justamente o de criar pontes capazes de abrir ao menos uma via de acesso
5 YÚDICE, George. A conveniência da cultura: usos da cultura na era global. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
6 SODRÉ, 2006, p. 221.
7 PELBART, Peter Pál. Texto inédito, produzido para o Programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural. 8
de um lado a outro. Mas aqui essa “ligação” não teria nenhum conteúdo transcendente. Na prática, além de se investir na produção de redes em seu próprio campo de atuação, trata-se de ligar pontos dissociados na expe­riência social: favela e asfalto, elite e popu­lar, ONGs e empresas. Eles não solucionam os problemas do mundo, não erradicam as desigualdades ou os conflitos, até porque são ainda poucos e detentores de escassos recursos para isso. No entanto, promovem as articulações – constroem as pontes – que tornarão viáveis as perspectivas de traves­sia, de contato, de diálogo. Um diálogo que terá de ser qualificado no percurso, porque, ao mesmo tempo em que se dialoga, tam­bém se medem forças. No final, apesar das contradições, ele traz à luz do dia sinais “de um discurso que é diferente – outras formas de vida, outras tradições de representação”8.Se essa diferença será capaz de mudar o mundo é difícil dizer, mas, desde já, compõe uma força constituinte de um novo tempo, atuante e imprevisível.

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