JORGE AMADO HOJE
100 ANOS
Blogue CIDADE, sábado, 6 de agosto de 2011
EMCONTO ... ESPECIAL - DEZ ANOS SEM JORGE AMADO
EMCONTO COM AS CIDADES
POSTAGENS DOMINICAIS DE CONTOS
POSTAGENS DOMINICAIS DE CONTOS
QUE EXIBAM ALGUM DESTAQUE À CIDADE
ESPECIAL HOJE - 10 ANOS SEM JORGE AMADO
NEM A ROSA NEM O CRAVO ...
Jorge Amado
ESPECIAL HOJE - 10 ANOS SEM JORGE AMADO
NEM A ROSA NEM O CRAVO ...
Jorge Amado
19 05 2008
As
frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação
costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do
mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as
crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da
gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no
mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já
viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do
mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os
povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza
simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do
teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias,
dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando,
todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu
rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se
levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino.
Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das
rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e
mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a
bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas.
Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a
tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre
todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao
canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos
campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns
fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os
trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que
alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a
sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e
límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras
cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras,
destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas
sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal.
Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente
dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e
essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens
nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de
construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e
esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos
fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as
frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus
olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e
vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de
escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas
eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste
momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os
mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode
fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas
um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que
nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos
impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da
amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais
as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança.
Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso
de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a
pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria
a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o
mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã
saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras
de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma
flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil,
encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que
amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de
podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
Jorge Amado
Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã, 1945.
Extraído do Projeto Releituras
Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã, 1945.
Extraído do Projeto Releituras