sexta-feira, 1 de março de 2013

EUGENIO DE ANDRADE - POESIA.NET

Número 286 - Ano 11
São Paulo, quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


«De repente, o silêncio deixara de respirar.» (Bernardo Soares: Fernando Pessoa) *


Eugénio de Andrade


Caros,
Já faz algum tempo que um autor português não aparece nas páginas deste boletim. É hora, portanto, de reparar esse lapso. Este número é dedicado ao poeta Eugénio de Andrade (1923-2005), um dos grandes nomes da poesia em seu país. Nascido em Póvoa de Atalaia, na região central de Portugal, Andrade fixou-se em Lisboa desde os 10 anos de idade. Em 1950, mudou-se para a cidade do Porto, em cuja região permaneceu até o fim da vida.
Eugênio de Andrade, nome literário de José Fontinhas, estreou em 1939 com a plaquete Narciso e, três anos depois, publicou o livroAdolescente. (Esses dois primeiros títulos foram posteriormente renegados pelo autor.) A consagração só lhe veio mais tarde, com a obra As Mãos e os Frutos, de 1948. Poeta essencialmente lírico, publicou quase trinta coletâneas de poemas originais, além de antologias, traduções, obras em prosa e escritos para crianças.
Os poemas transcritos ao lado foram extraídos da antologiaPoemas de Eugénio de Andrade, publicada no Brasil em 1999 pela Nova Fronteira, com seleção, estudo e notas do também poeta e crítico literário português Arnaldo Saraiva. Na seleção deste boletim, os poemas originalmente sem título são transcritos com o primeiro verso entre colchetes usado como título.
A lírica de Eugénio Andrade lastreia-se em coisas essenciais. Se você, antes mesmo de ler os poemas ao lado, passear os olhos por todos eles, vai notar uma sequência de substantivos marcados pelo dia a dia e pela experiência do mundo: fogo, trigo, pássaro, caminho; rosto, água, ouro, silêncio, espaço; verão, praça, muro, mar; navios, rios, hospitais, cidades; pedra, casa, barco, bosque; pele, boca, areias, palavras.
Supõe-se, portanto, que estamos com os pés firmes num universo conhecido. Não é bem assim. A poesia de Eugénio de Andrade sabe extrair desse mundo pedestre e prosaico a centelha mágica. Uma coisa é o mundo cru. Outra, bem transcendente, é o ambiente que se delineia com os versos: "Nem o branco fogo do trigo / nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros / te dirão a palavra."
Essas três linhas singelas não contêm a resposta a nenhuma pergunta. Não curam, não ferem, nem oscilam conforme as flutuações da Bolsa de Nova York. Apenas incomodam esteticamente o leitor atento, aquele que entra de peito aberto na aventura da poesia. E esse incômodo é tudo.


Carlos Machado
                      •o•



 
O branco fogo do trigo
Eugénio de Andrade


SOBRE O CAMINHO

Nada.

Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.
          De Véspera da Água (1973)



"Um pássaro nascia de seus dedos"

OS AMANTES SEM DINHEIRO
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
          De Os Amantes sem Dinheiro (1950)


SUL
Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.
          De O Outro Nome da Terra (1988)


"Na areia branca, onde o tempo começa"
AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
          De As Palavras Interditas (1951)

METAMORFOSES DA CASA

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

EPITÁFIO

Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.
DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.
          De Ostinato Rigore (1964)

DESDE O CHÃO

A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Palavras... Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras —
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.
          De Obscuro Domínio (1971)

A CASAIS MONTEIRO, PODENDO SERVIR DE EPITÁFIO
O que dói não é um álamo.
Não é a neve nem a raiz
da alegria apodrecendo nas colinas.
O que dói

não é sequer o brilho de um pulso
ter cessado,
e a música, que trazia
às vezes um suspiro, outras um barco.

O que dói é saber.
O que dói
é a pátria, que nos divide e mata
antes de se morrer.
Setembro, 72
          De Homenagens e Outros Epitáfios (1974)


"Até que uma pedra irrompa / e floresça"

ESPERA

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
          De As Mãos e os Frutos (1935)

[FAZ UMA CHAVE, MESMO PEQUENA]
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas
 pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz
 homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer:
 homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

[ESTOU CONTENTE, NÃO DEVO NADA À VIDA]
Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, ha muitos anos:
pertenço à mesma raça.
          De Branco no Branco (1984)
·          
 
Textos extraídos de:
  Poemas de Eugénio de Andrade
 
   
 Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva
   
 Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999
______________
* Bernardo Soares (Fernando Pessoa),
 
  in
 O Livro do Desassossego
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