segunda-feira, 16 de junho de 2014

A POESIA URBANA DE FERREIRA GULLAR (1) - "PELA RUA"

PELA  

 RUA


Ferreira Gullar 

Sem qualquer esperança
Detenho-me diante de uma 

vitrina de bolsas
Na avenida nossa senhora de 

copacabana, domingo,
Enquanto o crepúsculo se 

desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
Te espero.
Na multidão que vai e vem
Entra e sai dos bares e cinemas
Surge teu rosto e some
Num vislumbre
E o coração dispara.
Te vejo no restaurante
Na fila do cinema, de azul
Diriges um automóvel, a pé
Cruzas a rua
Miragem
Que finalmente se desintegra com

 a tarde acima dos edifícios
E se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
Tem quatro milhões de habitantes

 e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, 

parada ou andando,
Talvez na rua ao lado, talvez na praia
Talvez converses num bar distante
Ou no terraço desse edifício em frente,
Talvez estejas vindo ao meu encontro, 

sem o saberes,
Misturada às pessoas que vejo ao longo 

da avenida.
Mas que esperança! tenho
Uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
Disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
Nas constelações da avenida.
Sem qualquer esperança
Continuo
E meu coração vai repetindo teu nome
Abafado pelo barulho dos motores
Solto ao fumo da gasolina queimada.

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