domingo, 10 de julho de 2011

TEMPOESIA NAS CIDADES - ALICE RUIZ S

TEMPOESIA NAS CIDADES  
POSTAGENS DOMINICAIS DE POESIAS QUE EXIBAM  ALGUM DESTAQUE À  CIDADE


MINAS

Alice  Ruiz S

ANDAR
ANDOR
ARDOR
AR D'OURO
PRETO

há muito para subir em Ouro Preto
mesmo que o tempo tarde
andar devagar, bem devagar
escalar ruas
passo a passo
olhar para o chão
enquanto as montanhas
impassíveis
disputam nosso olhar
é no passar
que se põe o ardor
acima e abaixo
aos pés, ao céu
rochas para caminhar
mar de rochas
montanhas de pedra

há muito para descer em Ouro Preto
o frio das alturas
impregnado desse spleen
que não se explica
e a cada passo
uma lição de paciência
e a cada olhar
uma lição de silêncio
e a cada casa, porta, beiral
uma lição de história
que aqui perdura
dura, dura rocha
pedra sobre pedra
tudo que aqui se passou
também ficou
e fica em nosso passo
nessa rua
a ressoar
que a história
é a pré-história
de nós mesmos

               que passamos              

sábado, 9 de julho de 2011

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (7)

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRADIÇÃO  E RUPTURA (7)

"Deixaste de ser mãe para ser mulher da rua"
("Amor Fingido" - Silvinho)
Vicente Deocleciano Moreira
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Nota do Blogue
Hoje além segunda e terça próximas estarermos postando,  dentro da série RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRADIÇÃO . E RUPTURA,  textos da minha autoria que farão uso reflexivo do imaginário transitado por três obras primas da MPB (Música Popular Brasileira). Nestas composições, a mulher rompe com a tradição da rua como espaço masculino ... mas paga um preço por tamnha ousadia: ser qualifiicada como prostituta, vadia, pecadora, doidivana, mulher afeita aos prazeres da orgia  - prazeres considerados marcada e tradiconalmente masculinos, acrescente-se.

Hoje, "Amor Fingido", de Silvinho (nascido na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro - Brasil, em 1930 ou 1931).

Segunda-feira, dia dia 11, "Oh! Seu Oscar", de Wilson Batista  (nasceu em Campos - Rio de Janeiro, em 1913) e Ataulfo Alves (nasceu em Miraí, Minas Gerais - Brasil - 1909; faleceu no Rio de Jasneiro em 1969)

Terça-feira, "Sob medida" de Chico Buarque de Hollanda, nascido no Rio de Janeiro em 1944.

Vamos juntos,

Vicente

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AMOR FINGIDO
Silvinho
Fingi, você não sabe porque
A dor que estais sentindo sei que preferes morrer
Falaram mal de mim quisera acreditar
Agora pede clemência arrependida quer voltar
Agora é tarde, há de pagar o seu pecado
Pois um amor fingido nunca deve ser perdoado
Fingindo, fosse cumprir o seu destino
Esnobando seu amor por cabarés e cassinos
Fingida está para sempre mas a culpa foi sua
Deixaste de ser mãe para ser mulher da rua
Mas se um dia voltares não te darei o meu carinho
As mulheres são falsas prefiro viver sozinho

Já no título, "Amor Fingido", a conta da mulher como o ser feminino. Feminino, em seu significado original, quer dizer Fé de menos, menos merecedor de fé. 'Fingida'. A mulher faz enigma para o mundo, para o homem. Faz enigma para a outra mulher.

Da mulher, quanto mais se fala menos se diz. "Fica louco quem quer entender a mulher" ... um dito popular brasileiro,

"O que quer uma mulher?" - indagou Freud e os pós-freudianos. Em uma conferência, na década de  30 (século XX), alguém da platéia pediu: "Doutor Freud, fale-nos sobre a mulher!". Ele respondeu: "Sobre a mulher, perguntem aos poetas".
Na composição de Silvinho, o  sujeito lírico é (em princípio) masculino; é o  'juiz' e o 'senhor  das ruas' que não perdoa - ao contrário, condena! -  a companheira arrependida por ter "deixado de ser mãe para ser mulher da rua". O antagonismo mãe X mulher da rua, lavrado como inconciliável, minera a dicotomia  santa (a mãe, a noiva, a esposa, a 'rainha do  lar') X puta (a mulher da vida, a mulher da rua, a vagabunda ... a prostituta).
Na cabeça da maioria dos homens, a esposa é a 'mãe', a 'santa' ... é aquela com quem se faz amor convencional ("papai/mamãe") em  que nem tudo pode ser feito ... como por exemplo felação e sexo anal. A amante, eventual ou contumaz, é a 'puta' ... aquela que faz tudo: geme e grita, faz sexo anal, sexo oral, poses acrobáticas e 'kamasútricas'.
Na medida em que  a rua urbana é espaço tradicionalmente masculino, quando  ela vai  para a rua (expulsa do lar ou  por vontade própria), quando ela  querer  de modo "ilegítimo" ocupar esse espaço DO homem ai (!) dessa 'louca' que se atreve a   falar desse lugar, a viver nesse lugar ... a rua urbana.
Outro brasileiro  dito  popular nos ajuda: "CABEÇA QUE NÃO TEM JUÍZO  O   CORPO PAGA"

sexta-feira, 8 de julho de 2011

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (6)

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (6)

Revista
Estudos Feministas
Print version ISSN 0104-026X
Rev. Estud. Fem. vol.15 no.2 Florianópolis May/Aug. 2007
doi: 10.1590/S0104-026X2007000200018 

RESENHAS
Mulheres públicas, políticas de mulheres
Claudia Regina Nichnig
Universidade Federal de Santa Catarina

Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas políticas.


(CONCLUSÃO)


Heloisa Buarque de Hollanda, Margareth Rago e Maria Bernadete Ramos Flores reescrevem a história de escritoras brasileiras excluídas pela historiografia. "O ethos Rachel" aponta a pouca importância dada à obra da romancista Rachel de Queiroz. Considerada um fenômeno literário dos anos 30 e 40, Rachel de Queiroz aborda questões como o matriarcado presente no Nordeste brasileiro, família, personagens femininos radicais, etc. Mesmo tendo assumido uma postura anti-feminista, compatível com o engajamento ao Partido Comunista na década de 1930, Rachel assume posturas favoráveis ao movimento.
Margareth Rago percebe a importância da escrita literária de mulheres do período 19001932, principalmente por trazerem a público questões anteriormente consideradas do campo privado, como sexualidade, amor, prazer, casamento, prostituição, etc.
As escritoras brasileiras Elisa Teixeira de Abreu, Carmem Dolores e Lola de Oliveira trazem à baila questões que fizeram parte da formação da subjetividade feminina moderna. Elas se aproximam por questionar a passividade e a submissão feminina, exaltando mulheres independentes e determinadas. Dentre outras questões, as autoras estudadas afirmam que o casamento por amor traduz uma visão conservadora, que não se alinha com os "tempos modernos", regidos principalmente pelo interesse econômico. Na crítica à modernidade, nos textos estudados por Margareth Rago, seus escritos se contrapõem ao controle da vida pública pelos homens, apontando como saída a sobreposição dos valores femininos sobre os masculinos.
A escritora modernista Aldazira Bittencourt é a personagem trazida pela historiadora Maria Bernadete Ramos Flores. Com o texto "Ao Brasil dos meus sonhos: feminismo e modernismo na utopia de Aldazira Bittencourt", a historiadora apresenta o romance utópico da autora Sua Excia: a presidente da República no ano de 2500, que retrata o Brasil no ano de 2500, presidido por uma mulher. O imaginário social das décadas de 1920 e 1930 é representado no romance que, apesar da visibilidade do feminismo, é marcado por práticas eugênicas, racistas e pela necessidade de criação de uma identidade nacional. O saneamento, a higiene e a eugenia eram fatores relevantes para a construção de um país rumo ao progresso. Aldazira Bittencourt, como feminista da primeira onda do movimento no Brasil (décadas de 1920 e 1930), centra seus discursos na necessidade de educação para as mulheres. Aduz que a igualdade pretendida pelas mulheres somente seria possível através da maternidade, considerada para a escritora como "a grande responsabilidade das mulheres perante a nação". A maternidade como campo discursivo é imposta ao corpo feminino pelo determinismo biológico. Para Aldazira, a sociedade perfeita seria aquela em que "as mulheres uniriam o seu papel tradicional a uma carreira profissional" (p. 238).
Joelma Rodrigues aborda a temática da santidade feminina diante da questão da violência sexual. Rodrigues percebe, a partir da biografia da santa italiana Maria Gorretti, a construção de enunciados já cristalizados no imaginário social. Atributos como a santidade e a virtude ligadas ao pai/masculino, a honestidade e a submissão ligada ao feminino/mãe, e os ideais de virgindade, pobreza cristã, religiosidade, beleza, honradez e pureza estão presentes na santa que morreu vítima de violência sexual. O estupro não é apontado como problema, mas sim o comportamento da mulher diante da violência é que está em discussão. A autora apresenta modelos de santidade feminina, marcados pela manutenção da virgindade e da honra a qualquer custo, que se purificam pela morte.
Lourdes Bandeira e Fernanda Bittencourt discutem a incorporação de políticas públicas que visem a incorporar as temáticas de gênero. Apontam as desigualdades de gênero como profundamente institucionalizadas. A necessidade de alterações nas legislações dos países para a melhoria nas condições de vida das mulheres no mundo está presente desde a primeira Conferência Mundial de Mulheres, realizada no México no ano de 1975. A partir de então, vários países comprometeram-se em incorporar medidas que visem à igualdade entre os gêneros em suas legislações, o que foi reiterado na Conferência Mundial realizada em Beijing, nos anos de 1995 e 2000. A relação entre o gênero e a pobreza aponta as mulheres em total desvantagem, e as mulheres negras em ainda pior situação.
As autoras afirmam a necessidade da criação de políticas públicas para a retirada das mulheres dessa situação de inferioridade, apresentando o caso brasileiro, as desigualdades percebidas na vulnerabilidade à violência, menor taxa de escolaridade, perdas de cobertura previdenciária, ínfima participação feminina na vida pública, precário atendimento na rede pública de saúde, destacando o aborto como principal causa de mortalidade materna, entre outros fatores. Como medida política para atender à transversalidade de gênero no Brasil, Bandeira e Bittencourt apresentam o Plano Plurianual proposto por organizações sociais para o governo Lula 2004/2007.
O corpo feminino como locus de violência sexual e simbólica é o tema de Rachel Soihet. A partir de processos judiciais, jornais e escritos literários do início do século XX, a autora observa a violência sofrida por mulheres das classes populares e suas formas de resistência. Mostra a resistência não somente de forma isolada, mas também através dos movimentos feministas, em busca de direitos iguais, inclusive sexuais. Apresenta a ridicularização de que foram vítimas as feministas da primeira e da segunda onda do movimento no país, consideradas feias, masculinizadas e amorais. O feminismo procurou desconstruir imagens reificadas na imprensa, entendendo esta como local de permanências e resistências, em busca da cidadania plena para as mulheres
Na mesma esteira, Tania Navarro Swain mostra o feminismo como condutor da desconstrução de um sujeito universal masculino, apontando para a necessidade de afastarmos as determinantes biológicas, essencializadas, que atribuem ao feminino a inferioridade. Apresenta as ações afirmativas como necessárias para a incorporação de uma igualdade de gênero.
O título da obra sugere práticas políticas de mulheres que resistiram a modelos preconcebidos; entretanto, alguns dos textos, mesmo que tratando de discussões dentro de uma perspectiva de gênero ou da história das mulheres, não se enquadram nessa temática.
Ademais, muitos dos textos que compõem o livro não são inéditos, já tendo sido publicados em outros periódicos; no entanto, em conjunto e correlacionados, resultam nessa obra de suma importância, que permite dar visibilidade às mulheres que, sozinhas ou mobilizadas, construíram novos paradigmas para relações sociais.

Notas
1 O gênero como categoria de análise é pensando por Joan Scott como forma primeira de significar as relações de poder. Para a autora, o gênero é pensado no sentido de teorizar a questão da diferença entre os sexos, considerado como um elemento constitutivo das relações sociais, que possibilita perceber essas diferenças (SCOTT, 1992, p. 71).
2 Obras como Uma história do feminismo no Brasil (Céli Regina PINTO, 2003) e Breve história do feminismo no Brasil (Maria Amélia TELES, 1999) refazem o caminho do feminismo brasileiro. A pesquisa intitulada Movimento de mulheres e feminismos em tempos de ditadura militar no Cone Sul (19641989), coordenada por Joana Maria Pedro e integrada pelas professoras Cristina Scheibe Wolff, Roselane Neckel e Marcos Fábio Freire Montysuma, pretende investigar a maneira como os vários feminismos e movimentos de mulheres se constituíram no Cone Sul, no período de 1964 a 1989, observando a forma como as pessoas narram identificação com o feminismo, a maneira como se organizaram e atuaram, comparando com o que ocorreu no Brasil.
3 Obras como História das mulheres no Brasil (Mary DEL PRIORE, 2001) e periódicos como Revista Estudos Feministas e Cadernos Pagu publicados no país preencheram o vazio diante da invisibilidade feminina na história.

Referências bibliográficas
ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jaqueline. O que é feminismo. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2001.
PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.
SCOTT, Joan. "História das mulheres". In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Ed. da UNESP, 1992. p. 63-95 .
TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (5)


·  RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRADIÇAO E RUPTURA  (5)

Revista
Estudos Feministas
Print version ISSN 0104-026X
Rev. Estud. Fem. vol.15 no.2 Florianópolis May/Aug. 2007
doi: 10.1590/S0104-026X2007000200018 

RESENHAS
Mulheres públicas, políticas de mulheres
Claudia Regina Nichnig
Universidade Federal de Santa Catarina

Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas políticas.


SWAIN, Tania Navarro; MUNIZ, Diva do Couto Gontijo (Orgs.). Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: Ed. da PUC Minas, 2005. 360 p.
Tania Navarro Swain e Diva do Couto Gontijo Muniz organizam a obra Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas políticas. Professoras do Programa de Pós-Graduação da Universidade de Brasília, as historiadoras estão à frente desse trabalho interdiscisplinar, composto por 13 textos de pesquisadoras de áreas diversas, em sua maioria historiadoras, que concentram seus trabalhos nas temáticas de gênero e estudos feministas.
Permeada por temas variados, a obra aborda como as diferenças culturais entre homens e mulheres impõem lugares e práticas diversas para os gêneros, determinando e modelando os sujeitos de acordo com o seu gênero.1 Pela forma de abordagem, a obra encontra-se dentro dos estudos da História Cultural.
Contrapondo-se às normas, costumes e práticas sociais impostas, os movimentos feministas do século XX repercutem os anseios de mulheres confinadas no espaço privado, também entendido no trabalho como uma construção discursiva; seguem para o espaço público e transformam o social, lutando em face de aparelhos reguladores como a legislação, a escola, a escrita literária, as revistas femininas, entre outros.2 As autoras de Mulheres em ação contam, a partir de uma perspectiva de gênero, a história de mulheres relegadas à invisibilidade, suas práticas e suas demandas.3
A socióloga Almira Rodrigues, em "Lugar de mulher é na política: um desafio para o século XXI", trata de questões relacionadas às práticas políticas de mulheres. Considera que "todas as relações sociais são relações de poder, e as relações interpessoais são também relações sociais" (p. 16), entendidas como campos políticos, pois reguladas pela legislação e políticas públicas.44 Ao afirmar que o sexo é político, pois contém também relações de poder, o feminismo rompe com os modelos políticos tradicionais, que atribuem uma neutralidade ao espaço individual e que definem como política unicamente a esfera pública, 'objetiva'. Dessa forma, o discurso feminista, ao apontar para o caráter também subjetivo da opressão, e para os aspectos emocionais da consciência, revela os laços existentes entre as relações interpessoais e a organização política pública (Branca Moreira ALVES e Jaqueline PITANGUY, 1991, p. 8).
Assim, Almira Rodrigues analisa a participação ínfima das mulheres na política brasileira e mundial e argumenta a necessidade de implantação de ações afirmativas para mudanças nesse cenário político. Analisa a incorporação das reivindicações dos movimentos feministas por partidos políticos e políticas públicas, acreditando na possibilidade real de mudança com as mulheres no poder, contribuindo para a construção de uma igualdade entre os gêneros e "para rupturas com visões fundamentalistas, sexistas, racistas, preconceituosas e discriminatórias" (p. 33). Apesar da importância da discussão trazida por Rodrigues, ela não apresenta com clareza as fontes utilizadas em sua pesquisa.
A maternidade como essência do feminino é debatida por Cristina Maria Teixeira Stevens em "Maternidade e literatura: descontruindo mitos". A autora analisa o discurso presente em obras, principalmente da literatura inglesa, algumas delas dialogando com o discurso da psicanálise, que consideram a maternidade como local de poder e opressão. Longe de ser um tema pacífico, até nos movimentos feministas, a maternidade é pensada não como um acontecimento biológico, mas como uma construção social, a partir das obras analisadas pela autora.
A problemática do corpo também está presente, com o texto "O campo da saúde coletiva à luz das relações de gênero: um diálogo difícil e conflituoso". A partir de recortes de gênero, Eleonora Menicucci de Oliveira e Wilza Vilela, dialogando com teóricos como Michel Foucault e Félix Guattari, tratam de desconstruir o binômio corpo feminino/corpo doente, em que o corpo feminino é desqualificado, pois o patológico o que não é normal é aquele que precisa ser regulado, medicalizado, controlado. A categoria "gênero" é útil para a análise dos processos de adoecimento, que se apresenta de forma diferente para homens e mulheres. O crescente número de mulheres vítimas de enfermidades mentais, de lesões por esforços repetitivos (LER), AIDS, entre outras, aponta uma maior exposição a fatores de risco e vulnerabilidade, o que demonstra a presença de discriminações de gênero no interior do discurso médico e das práticas de saúde.
As escolas como locais que reforçam as desigualdades de gênero é o tema apresentado nos textos de Diva do Couto Gontijo Muniz e Marie Jane Carvalho. "Mulheres, trabalho e educação: marcas de uma prática política", texto de Diva Muniz, mostra, a partir de uma pesquisa histórica realizada com professoras de Minas Gerais dos séculos XIX e XX, como o alcance das mulheres tanto aos bancos escolares como ao exercício do magistério foi marcado por questões de gênero. A autora percebe como os corpos das professoras foram moldados por redes de poder, presentes nos discursos, práticas e códigos das instituições escolares. Mostra também como as professoras mineiras apresentaram resistência aos processos de construção de subjetividades.

(AMANHÃ, A SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE DESTE ARTIGO)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (4)

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRADIÇÃO  E RUPTURA (4)



Vicente D. Moreira

A chamada "guerra dos sexos" tem tido como cenário privilegiado o trânsito de veículos  nas ruas urbanas. Essa guerra não é tão 'sangrenta' e devastadora a ponto de  não haver lugar sequer  para, como diria segundo   Durkheim,  a solidariedade  mecânica. Mas, devemos reconhecer que a solidariedade orgânica (ainda Durkheim) é mais vigorosa na ecologia humana das ruas rurais.

Homens e mulheres dirigindo, livremente (e coflituosamente), nas cidades têm elaborado - ao menos nas ruas das grandes e médias cidades brasileiras - uma socialidade mais propensa à disputa que à concórdia. O trânsito urbano, para além das estatísticas dos acidentes e respectivos óbitos e mutilações, supera os demais cenários e frontes da "guerra dos sexos" ... uma 'guerra' que não precisa de clangores e gritos para causar lesões de toda a ordem. Interessa-nos, aqui, as lesões de ordem simbólica.

Não somente os homens são agressivos; mulheres tambem o são. Tal reciprocidade belicista não é estranha a nenhum tipo de guerra: da militar  à conjugal (mais privativa, talvez), passando pelas ruas das cidades. Sabemos que esses três tipos (militar, conjugal, guerra das ruas) podem acontercer - sim - a céu aberto, nos domínios das ruas.  Essa reciprocidade porém, não consegue camuflar o exercício do poder  masculino na rua urbana.


Guerra verbal, homens ao volante acusam mulheres motoristas de "não saber dirigir nem estacionar", "lentidão", "insegurança" daí não darem passagem, 'não usam seteiras, 'não facilitam', 'são medrosas ... E mulheres os consideram "machões", "irresponsáveis", "preconceituosos e arrogantes", "destemidos e autoconfiantes em excesso" ...


A primeira instância de  divisão econômica ou socioeconômica de que se tem notícia foi a sexual. Ela marca as primeiros modos produtivos e o formato inicial da divisão do trabalho. Homens e mulheres faziam atividades diferentes e produziam bens diferentemente iniclamente tendo como base a maior força fíisica e massa muscular de um (o homem) e a menor (a mulher). Estamos falando da divisão sexual do trabalho. Os homens estavam fisicamente destinados à guerra, à caça de grandes animais, enfim aos trabalhos que exigiam maior força física. Às mulheres, quase sempre grávidas  desde  após a primeira menstruação,  a criação de aves e de pequenos animais domésticos, a horticultura, as tarefas culinárias, a presença pontual e assídua no nascimento de crianças e no velório de idosoos ou de jovens vitimados pelas gueras e pela caça floresta a dentro.

Enquanto os homens, de então, dispunham da RUA (territórios de guerra, de conquistas e de caça ... sempre longe de casa, do domicílio), as mulheres se dedicavam a afazeres que não as afastavam da casa e dos filhos. Quando, mais tarde, a força física natural do homem foi transformada em superioridade ideológica  e justificativa para o exercício autoritário do poder sobre elas e toda a comubnidade, os homens elaboraram  discursos que os colocavam, eles mesmos, como 'senhor e rei da rua', 'senhor de liberdade', 'senhor do azul do céu como se fora um pássaro sempre livre a voar.

Para as mulheres, o título de 'rainha do lar', 'mãe amantíssima' e sempre disposta,  com alegria, a sacrificar-se pelo marido, pelos filhos. A elas, a cor rosa da 'eterna inocência', da cor da alvorada que tinge as primeiras horas do árduo trabalho doméstico. A cor rosa do crepúsculo ... da espera da noite e da volta do marido, do companheiro.

Quando a ultrassonografia revela o sexo do bebê, o enxoval  é logo comprado, chovem presentes. Se for menino, enxoval azul; se for menina, enxoval rosa .






terça-feira, 5 de julho de 2011

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRAD. E RUPTURA (3)

RUA URBANA, ESPAÇO MASCULINO: TRADIÇÃO  E RUPTURA (3)


Vicente Deocleciano Moreira


Embora, ocidentais que somos,  façamos parte de culturas diferentes daquela (s) que identifica(m) a Arábia Saudita - onde reside Ranyia (ver postagem de ontem, segunda-feira) - e, apesar de  não serem proibidas de dirigir, por aqui,  as mulheres no Ocidente - no Brasil em particular -consigo imaginar que se sintam um tanto Ranya e, mutatis mutandi,  se identifiquem com ela, de algum modo. Refiro-me ao dia-adia estressante e conflituoso do trânsito no Ocidente e, mais especificamente, no Brasil.

É no 'palco' do trânsito nas ruas urbanas que muitos motoristas masculinos exercem seu imaginário poder sobre tudo, todos e TODAS - através de seus automóveis. Muitos são os homens que, se julgando donos da rua (urbana), não aceitam ser ultrapassados por mulheres ao volante, não aceitam que elas possam dirigir mais rápido, mais competente e com  maior destreza que eles.  E também se aborrecem, buzibam alto e repetidas vezes, além de xingar e desqualificar  mulheres que dirigem com lentidão à sua frente , "atrasando", "emperrando"  o trânsito.

Em meados de junho/2011, o protesto de 40 mulheres da Arábia Saudita que saíram às ruas dirigindo e, assim, desafiando autoridades masculinas  e preceitos de toda a ordem e, também, a  atitude de Ranyia dirigindo e, além disso, filmando em vídeo seu próprio ato desobediente atraiu a atenção de outras mulheres, a exemplo de Hillary Clinton. (in Folha de S. Paulo, 22/6/2011, p. A15):

"O que essas mulheres estão fazendo é corajoso e o que buscam é direito, mas os esforços pert5encem a elas" 


"Estou comovida com a inicativa e apoio as mulheres, mas quero enfatizar o ffato de que isso não está vindo de fora do país delas. Isso são as mulheres, elas próprias, buscando ser reconhecidas"

Mas o que nos interessa de perto não é procurar as justificativas religiosas para a proibição, até porque há países mulçumanos que não proibem mulheres de dirigir veículos e, por outro lado, há inúmeras interpretações de um mesmo livbro sagrado: O Corão. Ajuda-nos melhor a  reflexão sobre o rua urbana pensada como uma espécie de 'propriedade' masculina.


 (Mulheres dizem se sentir seguras, contra as agressões e perigos das ruas,  quando  usam burkas.)


O que essa rua representa e apresenta de tão 'perigoso', 'ameaçador' para as mulheres - seja quando usam burka ou quando usam mini saias? Não se trata apenas do perigo, da ameaça concreta das violências principalmente à noite; sem falar que ela (as violências) podem vitimar  mulheres, mas também homens.

Que antecedentes e fundamentos historicamente construídos vieram a contribuir para a construção da RUA, ESPAÇO MASCULINO, apesar das rupturas que vêm atacando  essa tradição?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FCCV - A INTERIORIZAÇÃO DO CRIME: FEITOS INAUGURAIS

FCCV - FORUM COMUNITÁRIO DE COMBATE À VIOLÊNCIA
Salvador - Bahia - Brasil

A manchete principal do jornal A Tarde de 14 de junho de 2011 é “89% dos roubos a banco na Bahia ocorrem no interior”. Antes de se chegar a essa “conta” este noticioso e outros órgãos de imprensa pautaram várias ocorrências envolvendo roubos a bancos situados em cidades pequenas do território baiano. Esta espécie de tendência tem se verificado nos últimos anos, indicando a necessidade de redefinição quanto às áreas simpáticas aos investimentos do crime organizado. A experiência baiana, a paulista e de outros estados vem indicando uma diversificação no que tange aos espaços de cometimento de delitos, deixando para trás a certeza de que estas são práticas típicas dos grandes centros urbanos.

Ao que parece há decisão por parte de grupos criminosos em investir em lugares pouco conhecidos, praças recônditas, não habituadas às páginas dos jornais de grande circulação, a exemplo da cidade de Boninal, que é sede de um município com aproximadamente 13.700 habitantes, ou Ibiassucê cujo município tem 13.500 moradores.
Sem pretensão de exaurir dados relativos a todas as cidades que já sofreram esta forma de lesão, e fazendo apenas com uma ligeira busca sobre 16 destes locais vitimados foi possível observar, pelo volume populacional, que os municípios pequenos são os destinos preferidos das quadrilhas nesta etapa de interiorização de assaltos a banco. Entre as 16 localidades, o município de Poções se destaca com maior número de habitantes, aproximadamente 48 mil moradores, seguido de Amargosa que tem em torno de 34 mil residentes e Barra da Estiva com 27 mil munícipes. Em posição intermediária está Boa Nova com 24 mil moradores, seguida de Oliveira dos Brejinhos com 23 mil residentes e Tancredo Neves com população de 20 mil pessoas. Com número inferior a 20 mil, têm-se Formosa do Rio Preto com 19.500 habitantes, Condeúba com 18 mil, Maracani e Piritiba com 17 mil moradores cada, Mirante com 16.500 e Aracatu com 15.500 habitantes. E os lugares que apresentam uma concentração ainda menor são Itagi com 14.700, Lagoa Real com 14 mil, Boninal com 13.700 e, finalmente, a menos populosa da série, Ibiassucê, que abriga 13.500 moradores.
É possível imaginar que a opção dos criminosos por ações em espaços tão diminutos e desconhecidos seja precedida de ponderações quanto às possibilidades de êxito, ou seja, as referidas praças devem apresentar vantagens para o mercado daquele crime que se vale de planejamento para a sua execução. Um dos possíveis pontos favoráveis ao empreendimento diz respeito a um elemento muito caro às práticas delituosas desta natureza e que tem sido denominado “fator surpresa”.
  O mundo do crime é representado por estereótipos que gozam de certa estabilidade junto ao imaginário coletivo. Há cristalizações que vão desde o tipo físico do criminoso, passando pela concepção de crime e pelos locais de ocorrência. É possível dizer da existência de expectativas nutridas pela ordem social quanto a uma relação estável entre certos tipos de espaços e o cometimento de ações delituosas. Neste mapa mental, às pequenas cidades tem sido reservada a incidência de crimes associados ao universo rural e, mais que isto, elas são vistas como espaços de uma paz in natura, pedaços de paraíso isolados da violência e da insegurança.  São lugares fora da onda de suspeição que vitima os espaços urbanos pauperizados das grandes cidades. 
  Provavelmente esta imagem bucólica, incompatível com a insegurança tenha sido tomada como um “natural disfarce” para a ação das quadrilhas que teriam como vantagem, justamente, o fato de realizarem os roubos em espaços incogitáveis a ponto de sobre eles não se ajustar a conhecida máxima que diz: “é de onde não se espera que sai”. É, também, provável que os criminosos tenham avaliado como positivas as limitações da segurança disponível nos locais escolhidos. Outro aspecto de provável consideração diz respeito às reduzidas dimensões e localização das cidades, de modo a poder proceder a uma espécie de seqüestro do lugar, interrompendo-se as suas vias de entrada e saída quando da execução do roubo, seguido da liberação de todo o grupo depois de cumprido o objetivo, através das estradas adjacentes.
As poucas questões aqui avançadas podem dar margem a uma compreensão mais abrangente quanto à centralidade do inusitado no mundo do crime e, com isto, evidenciar que a consolidação de estereótipos pode funcionar como armadilha capaz de impedir a argúcia necessária para se atinar a propósito do surgimento de estratégias de renovação dos feitos criminosos. Cabe reconhecer que o mundo do crime organizado estuda a forma como ele está sendo representado pelas instituições e pela imaginação coletiva, e faz isto com o intuito de fugir às expectativas que visam o seu encalce. Trata-se de um campo que precisa não corresponder à imagem que dele se tem, e para isto não se restringe aos óbvios disfarces como apela a camuflagens mais complexas, a exemplo de manobras suspensivas das atividades correntes e a inauguração de focos insólitos, capazes de confundir o modelo de perseguição que fora concebido a propósito de suas atividades interrompidas. Portanto, encontrar novos modos de agir é praxe neste domínio.
 No caso em questão, o emprego das novas estratégias de ação criminosa, ao superar o costumeiro padrão de violência e de insegurança das cidades afetadas pelos roubos a bancos, funciona como experiência traumática de inclusão do local em um peculiar mapa da violência que não tem limites ou preferências territoriais definitivas. Quem acreditou que assalto a banco fosse um tipo de ação criminosa exclusiva das grandes cidades agora deve refletir sobre o fato de que o crime organizado tem a seu favor a falta de lealdade aos modos e às praças clássicas e, à semelhança da volatilidade do capital financeiro, investe em ações mais promissoras e rentáveis, a cada ocasião e a cada cenário. Portanto, é possível dizer, no caso em tela, que a surpresa está restrita aos moradores das cidades contempladas pelos delitos, e não no fato de o negócio criminoso ter despertado interesse por panoramas recônditos e até modestos.


Por último, cabe lembrar que a incorporação de novos espaços pelo crime organizado não é comparável com o esgotamento definitivo dos velhos campos, a exemplo das minas de ouro exauridas. Enquanto a estrutura do crime se mantém em ação, a inclusão de novos territórios deve ser interpretada pelo prisma da expansão e não da substituição de áreas.