quarta-feira, 25 de setembro de 2013

AS CIDADES QUE NOS HABITAM - LUIZ GONZAGA NETO -

Número 294 - Ano 11 - São Paulo - Brasil
São Paulo, quarta-feira, 25 de setembro de 2013
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«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!» (Álvaro de Campos) *
Luiz Gonzaga Neto (1960-)
Luiz Gonzaga Neto


Caros,




Nascido em Quebrangulo, AL — atenção: Quebrangúlo, a mesma cidade natal do mestre Graciliano Ramos —, o jornalista e poeta Luiz Gonzaga Silva Neto (1960-) radicou-se desde criança na capital paulista. Como poeta, participou de várias antologias e publicou até agora dois livros-solo:Gaveta dos Corais (1998) e Céu sem Dono (2011).

Quem lê os poemas de Luiz Gonzaga Neto logo identifica a presença de um poeta preocupado em desvendar o que há por trás de coisas aparentemente sem mistério. É assim que vejo momentos como a troca de olhar entre o visitante do parque Ibirapuera e o sabiá-laranjeira, no poema “Mutações”. Para estabelecer um diálogo, o homem atribui ao pássaro uma “natureza humana” e assume para si mesmo a capacidade de voar.

Outro exemplo dessa tentativa de desvendamento de coisas simples está no poema “Contemplação do Abismo”. Ao olhar o precipício, o sujeito poético pensa na possibilidade de cair e recusa, decidido, aquele sinistro mas belo chamado da morte.

Já em “Evocação do Não-Lugar”, a viagem do poeta se faz por dentro, e trafega por “cidades não nomeadas / construídas no corpo, na alma”. Um poema denso, cheio de “rosas e abismos”.

Todos os poemas da miniantologia mostrada ao lado fazem parte da coletân ea Céu sem Dono, de Luiz Gonzaga Neto, um poeta que reflete com fina sensibilidade as inquietações da vida nas cidades em que habitamos e das cidades que nos habitam.
Um abraço, e até a próxima,





                    

                      •o•


               



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Carlos Machado, 2013



As cidades que nos habitam
Luiz Gonzaga Neto



MUTAÇÕES

Um sabiá-laranjeira
cerca-me no Ibirapuera
em urbana asa.

Cerca-me íntimo comigo,
com a grama, o vento rasteiro
e com árvores plantadas
como homens em cidades.

O pássaro me cerca como
se tivesse natureza humana.
Eu o olho como se voasse.
Leonid Afremov - Where I Grew Up
Leonid Afremov, russo-israelense, Onde Eu Cresci



EVOCAÇÃO DO NÃO-LUGAR


Existem cidades não nomeadas
construídas no corpo, na alma.
Horizontes verticais aninhados
nas lágrimas e êxtases do insepulto.

Sinos silentes, rios dardejantes,
sementes vivas e sem território,
aroma vivo de nuvem desfeita:
dessa flor, só o vento sabe a voz.

Assim nos habita o esquecimento,
com suas manhãs abandonadas,
tardes-síndromes do pôr-do-sol,
uma pátria de noites e silhuetas.

Terra sem nome, mãe sem rosto,
onde crianças nunca crescem,
onde atroz é teu silêncio adulto,
onde o sol tece adeuses e destinos.

Nessas aldeias sem nome, sem rei,
em cada uma de suas surdas ruas,
inscrevem-se os gritos postergados,
as rosas e os abismos da manhã.
Manou Marzban - Bankers Make Do
Manou Marzban, suíço-iraniano, Os Banqueiros se Viram





PRESENÇA

que cabeça te pensa neste instante
se não sabes que vento de presença
faz-te sentido no corpo que partiu.

que coração percute agora em ti,
quando sabes que a dor é soberana,
já não sentes a chama da partilha.

do tempo vivo do outro que te ocupa,
só tu vês a neblina em que transita
e a clara asa que se abre na cortina.

mas um tempo teu habita o outro,
matéria indelével ou adormecida,
o eco do não dito e o raio do absinto.

talvez a poeira te cubra na esquina,
quem sabe, num sopro, te adivinhem.



CONTEMPLAÇÃO DO ABISMO

Os olhos da ternura
ouviam sobre o penhasco
a voz da natureza viva:

— Olho terno tua boca,
teu mar, tua sedução.
Recuso-te, morte.

— Que é bela tua altura,
as ondas batendo na rocha,
o marulhar de teu silvo.

— Deixo-te
e caminho sentindo
mais doce o chão.

Leonid Afremov - Rainy Day
Leonid Afremov, 
 
Dia Chuvoso




CERTAS MANHÃS
               

Para Rosa Mattos

Em certas manhãs,
o futuro não chega.
Nem com a vaidade
do olho em sua glória vã.

Nem a fuga do pesadelo
nem o calor do sonho
falam ante o muro de hera
que se ergue com o sol.

Em certas manhãs,
a chuva não semeia
senão o pânico silencioso
das mortes esquecidas.

Em certas manhãs,
a hora alva nos aniquila
se não criamos outro tempo
além do assalto do sono.

Nessa outra manhã, rara,
não há tempo nem flor
nem ouro nem o nada.
Nessa, tudo é presente.


  Luiz Gonzaga Neto    in Céu sem Dono
    Dobra Editorial, São


Paulo, 2011
______________
* Álvaro de Campos,
 "Ode Marítima",


in Fernando Pessoa, Poesia Completa
______________
- Imagens 1 e 3: Leonid AfremovOnde Eu Cresci e Dia Chuvoso
- Imagem 2: Manou MarzbanOs Banqueiros se Viram





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