quinta-feira, 20 de março de 2014

POESIA. NET - IZACYL FERREIRA

S.Paulo,

 quarta-

feira, 19 

de 

março 

de 2014

n. 305, 

ano 12

«Uma rosa
 é uma
 rosa 
é uma 
rosa.» 
 Stein) *





poesia.net header


Esperança e 
penúria


Izacyl Guimarães 
Ferreira

TERAPIA

Esse passado é meu. Posso mudá-lo.
Posso esconder um corpo e duas lágrimas,
posso fechar os olhos e esperar de novo.
Posso até mudar de nome.
Posso deixar no escuro uma cidade,
secar o mar em meu lenço,
apagar palavras do pensamento.

(Ia escrevendo a seguir:

Este presente hoje ainda, amanhã ontem,
posso inventá-lo.
O que me aflige é que é só isso o que eu
posso fazer.

Mas não era isto o que eu queria dizer.)

Esse passado é meu. Posso salvar
um sonho ou dois
enquanto a amiga enxuga os olhos.
Posso gravar meu nome numa pedra,
posso dizer perdão, amor,
posso deixar
que um tempo morra sem morrer por ele.

Esse passado é meu. Posso adiá-lo.


         De Declaração de Bens (1980)



Sonia Delaunay - Echarpe Rhythmes
Sonia Delaunay (1885-1979), artista ucraniano-francesa, Ritmos Cachecol (1976)


SERRA DA ESTRELA


Trouxe comigo rios pacientes,
macieiras molhadas de verão
e a disciplina de seguir a terra.

Trouxe comigo muros empedrados,
uma sabedoria de intervalos
pequenos e de invernos sempre longos.

Trouxe comigo vinhas de sol posto,
quando ruídos muito leves chegam
à hora e à luz antiga do jantar.

Trouxe comigo uns avós que partiram
meninos na aventura, sem saudade
descendo impacientes pelos rios.

         De Escalas (1980)

Sonia Delaunay - Sem Título (1972)
Sonia Delaunay, Sem Título (1972)




CORPO


Senhor e servidor
no contorno visível
que define e limita,
inteiriço aparelho
de esperança e penúria.
A espreita em cada espelho
explorando o possível,
animal natural
de aceitação e fúria.
Amando, mas mortal.




ILHA

Ínsula. Flor do mar,
mera estilha de terra,
lua solta nas águas,
satélite e só. Única:
se uma rosa é uma rosa
é uma rosa uma ilha
é uma ilha é uma ilha.


          De Na Duração da Matéria (2010)



Sonia Delaunay - Mural
Sonia Delaunay, Mural



REGISTRO DE IMÓVEIS


o bairro não tem mapa
a rua não tem nome
a casa não tem número
a porta não tem chave

a mesa não tem pratos
a cama não tem pés
o teto não tem luz
o tanque não tem água

o pai não tem trabalho
o filho não tem vaga
a mãe não tem mais nada

a morte não tem hora
a vida não tem volta
a lista não tem fim



Sonia Delaunay - Mercado do Minho 1915
Sonia Delaunay, Mercado do Minho (1915)


TERCEIROS

Eles são os que descem e
desaparecem
os que já não contam
já não sabem ou
jamais contaram nem
souberam

Entre as paredes do palco
os arames da cerca
os abismos
são os que não atravessam

Eles são os de fora
os de baixo
de ontem
são os que nunca ou
não mais

Estão à margem
nas sombras
Estão nas sobras
nos guetos

Aí na terceira classe
na terceira idade
no terceiro mundo inumerável

Eles são os de segunda mão e
nenhuma chance

Aqui ao lado
em primeiro plano


          De Entre os Meus Semelhan
tes 

(1991-1994)



Sonia Delaunay - La Ville de Paris (1912)
Sonia Delaunay, A Cidade de Paris (1912)


CENTRAL PARK, DIÁLOGO


— Tantos bichos amansados
e esse crépito de asas.

— Corta o gelo um outro vento
sobre o risco dos patins.

— Brancos de frio os caminhos
e esse fogo pelo rosto.

— Enche a tarde um outro som
varrendo as horas do parque.

— Há uma escrita azul e leve
no sulco ausente dos barcos.

— Há uma lembrança de passos
nessa corrente espelhada.

(New York)


          De A Curto Prazo (1971)
 
 

Izacyl Guimarães Ferreira


Izacyl Guimarães Ferreira


Caros,


Poeta de longo curso e largo fôlego, Izacyl Guimarães Ferreira (Rio de Janeiro, 1930) escreve e publica poesia há mais de sessenta anos. Esta é a terceira vez que ele comparece ao poesia.net. Nos dois boletins anteriores, o foco eram trabalhos seus que atendem a um projeto.
No primeiro (poesia.net n. 104), o foco estava no livroMemória da Guerra, publicado em 1991 e ampliado em 2002. O livro, escrevi em 2005, “reflete sobre a insanidade dos conflitos armados — os atuais e os de sempre”.


O segundo boletim (poesia.net n. 254) concentra-se no volume Discurso Urbano, de 2007. Também concebido como projeto poético, esse discurso representa um passeio histórico por cidades do mundo, desde aglomerações humanas do Mundo Antigo, como Constantinopla e Cartago, até metrópoles atuais, a exemplo de Berlim, Chicago e Rio de Janeiro.



O trabalho mais recente do poeta é Altamira e Alexandria (2013), seu 21º livro. Trata-se, mais uma vez, de um projeto que celebra a memória do homem e sua ânsia de permanecer além da morte pessoal. O poeta assume como índices dessa necessidade de permanência as pinturas da caverna de Altamira, na Espanha, e o resgate da destruída biblioteca de Alexandria, no Egito.

Mas desta vez o boletim segue um caminho diferente. Em vez de enfocar um projeto de Izacyl, faz um sobrevoo sobre seu trabalho, pinçando textos de várias fases de sua trajetória poética.


                      •o•

Em “Terapia”, do livro Declaração de Bens (1980), alguém faz uma espécie de acerto de contas com o próprio passado. Retomo aqui uma das ideias muito caras ao poeta Jorge Luis Borges: nosso único patrimônio é a vida que passou. Desse modo, ao organizar sua “declaração de bens”, a voz do poema conclui: “Esse passado é meu. Posso mudá-lo. / (...) secar o mar em meu lenço / apagar palavras do pensamento”.

Em “Serra da Estrela”, quem fala é, aparentemente, um descendente de portugueses que traça o itinerário sentimental desde aquela serra, em Portugal, até talvez o Brasil ou outros destinos: “avós que partiram / meninos na aventura, sem saudade / descendo impacientes pelos rios”.

Esse poema pertence ao livro Escalas, que é de 1980, assim como Declaração de Bens. Mas aqui vale uma explicação. Esses dois títulos não circularam de forma independente. São livros que o poeta tinha prontos e inéditos ao reunir sua poesia no volume Os Fatos Fictícios – Poesia (1950-1980).

Nos poemas de Na Duração da Matéria (2010), Izacyl Guimarães Ferreira dedica-se ao minucioso exercício de criar definições. Transcrevo aqui duas dessas curiosas criações: “Corpo” e “Ilha”. O corpo é “inteiriço aparelho / de esperança e penúria”. Para definir a ilha, essa “flor do mar”, ele recorre a Gertrude Stein para concluir: “uma ilha / é uma ilha é uma ilha”.

“Registro de Imóveis” e “Terceiros” são poemas nos quais o poeta exercita um lirismo marcado pela preocupação social. Nos dois textos, aparecem os que não têm nada. “Eles são os de fora / os de baixo / de ontem / são os que nunca ou / não mais”. Por fim, um diálogo lírico escrito em Nova York, extraído do livro A Curto Prazo (1971).

                      •o•

Izacyl Guimarães Ferreira estreou na poesia em 1950. Em 1980, reuniu no volume Os Fatos Fictícios toda a obra anterior e alguns títulos inéditos. Depois disso já publicou cerca de uma dezena de livros, entre os quais os citados Memória da Guerra (2002), Discurso Urbano (2007), Na Duração da Matéria (2010) e Altamira e Alexandria
 (2013). Ensaísta e divulgador de poesia, o autor publica com frequência artigos em jornais, revistas e sites especializados.


Um abraço, e até a próxima. 

Izacyl Guimarães Ferreira
•  "Terapia""Central Park, Diálogo"
    Os Fatos Fictícios - Poesia (1950-1980)

    LR Editores, São Paulo, 1980
• "Registro de Imóveis"; "Terceiros"
   Antologia Poética

   Topbooks, Rio de Janeiro, 2009
•  "Ilha", "Corpo"
    Na Duração da Matéria

    Scortecci, São Paulo, 2010
______________
* Gertrude Stein, poeta americana, 1874-1946, em "Sacred Emily", 1913
______________
- Todas as imagens: Sonia Delaunay (1893-1983), francesa nascida na Ucrânia,
   artista plástica e desenhista de moda.

Carlos Machado




                    




                      •o•



 

quarta-feira, 19 de março de 2014

HOJE FIM DE VERÃO E DIA DE SÃO JOSÉ

19 DE MARÇO

HOJE DIA DE SÃO JOSÉ 

 HOJE FIM DO VERÃO

SÃO JOÃO DO CARNEIRINHO

Luiz Gonzaga

Eu plantei meu milho todo
No dia de São José
Se me ajuda a Providência
Vamos ter milho a 'grané'
Vou 'coiê' pelos meus 'caco'
20 espiga em cada pé
Pelos 'caco' vou 'coiê' 
20 espiga em cada pé

Ai São João

São João do  carneirinho
Você é tão bonzinho
Fale com São José vale lá com São José
Peça pra ele me ajudar
Peça pra meu  milho dá  
20 espiga em cada pé


Hoje, 19 de março, termina oficialmente o  verão no Hemisfério Sul.


Também hoje em todo o Brasil, católicos celebram missas em louvor a São José - homenageado, por eles, como patrono dos trabalhadores e da família. No Nordeste brasileiro, é feriado  e em algumas cidades - principalmente aquelas que tê o nome SÃO JOSÉ. Agricultores correm para plantar milho, feijão ... já com vistas à culinária dos festejos juninos (São João, São Pedro ...).

Também as cidades, consumidoras potenciais doa produtos juninos (milho, laranja ...) torcem para que  chova na medida suficiente e assim, no dia de São João - 24 de junho - haja fartura e preços baixos em feiras e mercados









segunda-feira, 17 de março de 2014

MENINAS DE 11 A 13 ANOS, VACINAR CONTRA O HPV

ATENÇÃO MENINAS 

ENTRE 11 E 13 ANOS

VACINAR CONTRA O HPV 

É URGENTE E NECESSÁRIO

domingo, 16 de março de 2014

NOSSO BLOGUE VISTO NO BRASIL E NO MUNDO

NOSSO BLOGUE VISTO NO BRASIL 
E NO MUNDO

SEMANA DE 8 DE MARÇO DE 2014, 19h
 A 15 DE MARÇO DE 2014, 18h

Visualizações de páginas por país


Gráfico dos países mais populares entre os visitantes do blogue

EntradaVisualizações de páginas
Brasil
762
China
371
Alemanha
266
Estados Unidos
163
Canadá
9
Índia
9
Portugal
9
França
6
Reino Unido
4
México
4

BAIRRO AMAZONAS - BH - MINAS GERAIS - MAPA

BAIRRO AMAZONAS - BH - MINAS GERAIS - MAPA

https://www.google.com.br/maps/search/bairro+amazonas+bh/@-19.9026958,-43.9640349,11z/data=!3m1!4b1

TEMPOESIA ... TIRADENTES - MINAS GERAIS


TEMPOESIA  NAS CIDADES  

      POSTAGENS 

DE POESIAS QUE EXIBAM  

ALGUM  DESTAQUE À  CIDADE

POESIAS DO QUINTO ANOS

SOBRE A CIDADE DE TIRADENTES 

MINAS GERAIS - BRASIL



Tiradentes

Cidade querida cheia de história e encanto
Cidade formosa  onde se encontra uma boa prosa
Cidade histórica onde vivo a minha história
Cidade de riquezas e alegrias!
Minha cidade queria, esse é o meu lugar!
Tiradentes querida jamais deixarei de te amar.

Leonardo Henrique



Terra preciosa

Por suas ruas  de pedras um pouco da história
História que marcou o Brasil
Palco da Inconfidência Mineira ela é uma riqueza brasileira
Gente simples  porém hospedeira.
Talentos aqui por todo lado têm.
Tiradentes terra preciosa
 Tiradentes, história viva de Minas gerais.

Stéfany Cristina



Nossa cidade

Tiradentes, cidade rica
Em ouro, esculturas, e cultura
Cidade, onde a vida é uma alegria
Onde existe a amizade e irmandade

Tiradentes, cidade histórica
Feita do passado que se faz presente
Cidade conhecida e amada pelo país
Seus visitantes vêm do norte ao sul

Tiradentes, palco de muitos talentos
Onde a arte é o sustento
Cidades de ruas de pedras e casarões
Seu entardecer enche os corações

Cidade, conhecida e encantadora
Cidade mineira onde todos são bem – vindos
Onde o sorriso dos moradores é porta de entrada da cidade.

Luana Michaela 

SÁBADO, DOMINGO ... E CONTROVÉRSIAS

SÁBADO, DOMINGO ... 

E CONTROVÉRSIAS (1)


SÁBADO É MESMO DIA DE FEIRA?


DOMINGO É MESMO DIA DE PESCARIA?






Seria sábado a primeira feira - ou domingo, então, não será a segunda feira?

Domingo é dia de pescaria oi
Lá vou eu de caniço e samburá ...
(Marcha de Carnaval -  Brasil) 

Seria domingo a primeira feira - e nesse caso a segunda feira será a segunda feira?



Judeus e cristãos influenciaram tanto, em tanto e por tantas coisas que de nada nos serviria ficar surpresos  ao saber que eles influenciaram na instituição da chamada  semana inglesa. Some-se a essa instituição - claro! -condicionantes econômicos e ideológicos, que ajudaram na proposição do sábado à tarde (a semana inglesa) como um dia de não-trabalho, de folga, de férias. De modo que sábado à tarde (a semana inglesa) passou a constituir-se, nos mundos judaicos, cristãos ... religiosos em geral ... e laicos, numa espécie de acordo conciliador e diplomático e de velas acesas para dois diferentes senhores. Quero dizer para duas diferentes e inconciliáveis opiniões: 

1) Dos sete dias de que Deus/Dus fez uso para construir o mundo, Ele descansou no sábado;há, portanto, homens e mulheres de muita fé, que guardar (não trabalhar, nada produzir nem fazer produzir) entre o crepúsculo da sexta feira e o crepúsculo do sábado ... sim, há variações e politonias ...

2) Dos sete dias de que Deus/Dus fez uso para construir o mundo, Ele descansou no domingo; há, portanto, homens e mulheres de muita fé, que guardar (não trabalhar, nada produzir nem fazer produzir) entre o crepúsculo do sábado e o crepúsculo do domingo ... sim, há variações e politonias ...

O sábado (manhã e tarde, manhã ou tarde) foi 'feito', junto com seus respectivos rituais e liminaridades a ele intrínsecas, para agradar os dois senhores e seus respectivos seguidores. O sábado não tem lá suas identidades mui definidas: não é mais sexta feira mas também não é lá esse domingo todo. Ele é essencialmente conciliador, "pelego"  pacifista; está "em cima do muro" entre as hostes dos dois bem armados (escudo-espada-capa) senhores. 

Entre um e outro senhor, ou melhor acima deles, Vinicius de Moraes não hesitou e 'atacou' ambos com sua pontuda verve poética:

+sábado&oq=porque+hoje+é+sábado&gs_l=hp.12..0l4j0i22i30l6.17397.33798.0.39285.24.16.1.7.7.0.334.2792.2j8j4j1.15.0....0...1c.1.37.hp..4.20.2343.22Iil88eQ5E

Não há grandes controvérsias quanto à segunda feira, à terça feira, à quarta feira, à quinta feira e à sexta feira. Tudo na paz crepuscular de um domingo, pois esses dias correspondem respectivamente aos segundo, terceiro, quarto, quinto e sexta dia da criação desse nosso mundo vasto mundo drummondiano:



Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Féria significa, para muitos trabalhadores, o pagamento pecuniário por uma determinada jornada de trabalho. Féria, para tantos outros, quer dizer descanso, repouso, diversão, viagem ... nada que signifique trabalho. Porém, quando estamos viajando, de férias, o piloto do avião, o garçon, a camareira, o gari ... estão trabalhando para sustentar e fazer acontecer nossas férias.

Assim sendo Deus/Dus trabalhou na construção do mundo de domingo - que, aliás significa 'dia do Senhor' - a sexta feira e descansou no sábado. Isto na opinião e na fé de alguns.


Para outros, com não menos opinião e não menos fé, Ele fez a importante obra de segunda a sábado, descansando no domingo.


Afinal, a certa altura até Deus/Dus tinha que estar cansado - concordaria Álvaro de Campos/Fernando Pessoa:




Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.


A cada semana, Deus/Dus destró/reconstrói o mundo e seus habitantes. 

A raça humana é

cada semana 
o trabalho de Deus.
(Gilberto Gil)

A cada finsl/início de ano, humanos destruímos (o ano velho) e construímos o ano novo.


Seja na mitologia judaica, cristã ou no politeista hinduismo as divindades - e só elas - podem destruir e construir a um só tempo. No plano lógico, histórico do humano seria impensável alguém destruir a casa que acabou de edificar para construí=la de novo.


Sábado é mesmo dia de feira? Domingo é mesmo dia de pescaria? Há controvérsia até porque além de todos os tudos, há quem pesque no domingo para garantir a sobrevivência da família. E o que seria de quem faz feira (e só pode fazer feira) aos sábados se não existissem feirantes vendendo-lhes suas mercadorias?


.