segunda-feira, 2 de maio de 2011

O MASSACRE EM SEU TEMPO DE SATÉLITES EFÊMEROS

FORUM COMUNITÁRIO DE COMBATE À VIOLÊNCIA  (FCCV)

Salvador - Bahia - Brasil

 

O MASSACRE EM SEU TEMPO DE SATÉLITES EFÊMEROS


Leitura de fatos violentos publicados na mídia

Ano 11, nº 15, 02/05/11 


Incorporado, midiaticamente, sob o rótulo de massacre, o dramático acontecimento de Realengo desencadeou um conjunto de ocorrências-satélites, entre as quais aquelas marcadas pelas homenagens. Elas foram tantas e de tipos tão diversos que suscitam reflexão. Sem pretender esgotar o assunto, essa leitura toma alguns exemplos do gênero para análise.

Fazendo-se uma apuração singela é possível identificar três tipos de ocorrências-satélite. A primeira pode ser considerada de base e se refere às cenas dos moradores da vizinhança que agiram imediatamente à tragédia. Preenchida por pessoas que estavam no local do acontecimento, se distingue pela exposição de vozes que se alternaram entre a descrição dos atos bárbaros no interior da escola e a disposição imediata de solidariedade combinada com o desespero. Nestas circunstâncias foram exibidas imagens relativas aos apoios emergenciais, improvisados e espontâneos. Este gênero perdurou por dias, tendo como cenário principal as imediações da escola e ações de caráter comunitário. Este satélite pode ser confundido como parte do núcleo do acontecimento. Ao lado das imagens das câmaras instaladas no corredor da escola e daquelas dos celulares, as falas, semblantes e toda a gestualidade deste contingente insere seus componentes em posição de pertencimento ao drama.  Simbolicamente fazem parte do corpo social ferido, pois, qualquer um de seus membros poderia estar ali. Deste conjunto de imagens, é construída a primeira base para a obra de merecimento de atenção pública e da sociedade em geral. 
           
À medida que a mídia tem acesso e dá acesso às primeiras informações sobre o caso se verificam sinais de prioridade ao mesmo – traço evidente na programação televisiva através dos constantes boletins extraordinários. Esta tomada de posição contribui para o reconhecimento da ocorrência como algo digno de atenção pública. Imediatamente foi transmitida a idéia de que se trata de caso excepcional em nosso País e, diante desta rara raridade no que tange a episódios violentos, os meios de comunicação se instalaram como parte do cenário, em seu papel de tradutor do desconhecido para o público carente de explicação. Tem-se, assim, um cenário propício à visibilidade e à conseqüente extrapolação do caso para além de seus domínios de referência.
             
Incluída na trama como coletora e difusora de imagens, a mídia passa a captar as cenas “internas”, relativas ao espaço físico e social do acontecimento, e as externas que devem ser percebidas como imagens satélites que comportam distâncias físicas e simbólicas de grande monta. Na sua representação midiática, a ocorrência adquire, então, o formato de vários espaços, deixando ao seu território nuclear a função de campo-testemunha (nosso primeiro satélite).  Com esta disposição espacial associada à ampla aceitação pública, o caso assume a condição de produto midiático em escala nacional e com repercussões internacionais.
           
É com este grau de visibilidade que algumas ocorrências-satélites foram construídas, entre as quais aquela relativa às condecorações dos três policiais que atuaram no caso, os quais foram promovidos por bravura em celebração que contou com as presenças do governador e vice-governador do Rio de Janeiro e, também, do presidente em exercício, Michel Temer. As homenagens aos policiais exaltam um deles de modo especial em razão de ser aquele que teria impedido a continuidade da matança, através de um tiro certeiro contra o abdome do atirador insano. Este capítulo permitiu uma apreciação positiva do satélite institucional, representado pela segurança pública, e conferiu ao policial o conceito de herói aclamado pelo povo, atingindo, desse modo, um efeito raro quando se trata de tramas violentas noticiadas cotidianamente. A circunstância fez brilhar aquele satélite institucional e dar ao seu sargento um lugar de exemplo relativo ao corpo da instituição.  Neste sentido, a dor de Realengo promove um feito simbólico regenerador da imagem da instituição policial e, repercute positivamente por todo o corpo do Estado.   
           
Ao mesmo tempo em que a má notícia dá margem a uma alvissareira novidade no que tange à atuação dos policiais, são revelados, pela mídia, perfis das vítimas sobreviventes enquanto as mesmas se encontravam em hospitais. E, entre as descobertas, está gosto pelo futebol, conferindo aos feridos a identidade de apaixonados torcedores.    Essas revelações deram margem para a constituição desse esporte enquanto satélite da ocorrência, expressado sob forma coletiva e individual. Em nível coletivo, basta lembrar a determinação de um minuto de silêncio em todos os estádios do País onde se realizavam jogos dos campeonatos estaduais, fazendo-se notar uma “opção” feita pelas entidades organizadoras das competições.

Em âmbito individual, com registro midiático, foram prestadas homenagens, especialmente por meio de visitas a determinadas vítimas. Esses eventos foram marcados pela singularidade do visitante e do visitado, a exemplo da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, que visitou o garoto que mesmo ferido, buscou o apoio policial, considerado fundamental para a interrupção da matança. O mesmo gesto foi repetido pelo jogador Ronaldinho a outra vítima.
           
Cabe recordar um outro satélite que realçou elementos atinentes ao merecimento de atenção e diz respeito à presença, na celebração religiosa de sétimo dia da tragédia, de pais de vítimas de violência cujas histórias se notabilizaram através do tratamento midiático conferido aos seus dramas. Este satélite foi encabeçado pela mãe de Isabella Nardoni, Ana Carolina de Oliveira, seguida de João Roberto que é pai do garoto Paulo Roberto Soares e, também, de Cristiane Marcenal, mãe da menina Joanna. Estes genitores são vítimas indiretas que tiveram esta condição reconhecida de tal modo que passaram a ter as suas identidades redefinidas, incorporando-se aos seus perfis traços indefectíveis de vítimas consagradas e, desta forma, foram identificados pelos órgãos de mídia que os registraram na celebração em Realengo que contou com mais de dois mil participan.

As diferentes formas indicadas nesta leitura permitem observar potencialidades da ocorrência-matriz no que concerne à produção de micro-ocorrências a ela associadas. Esta multiplicação, por sua vez, indica um valor atribuído ao evento, capaz de torná-lo lastro para outros acontecimentos. Esta circunstância ratifica uma hierarquia na apreciação dos feitos violentos. Há aqueles que nem atingem o status de acontecimento midiático e ficam restritos à própria contingência de fato bruto de onde nada se extrai para lapidar, enquanto na outra extremidade outros eventos suscitam homenagens, deferências, reverências de tal modo que a sua essência exala por todos os lados, ganhando em sua forma lapidar o status de acontecimento de todos e, portanto, todos podem dele se ocupar.

Contudo, os superacontecimentos tendem a perder força com o tempo e muitos de seus signatários-satélites desistem, silenciosamente, ante àquela reclassificação desclassificante. Isto porque, é na vigência da superioridade hierárquica, que o tema adquire prestígio o bastante para fascinar e suscitar adesões apaixonadas. Com o declínio do evento na hierarquia, o assunto é morto, é passado, é fosso e dele restam as dores do primeiro satélite, machucado, esquecido e ofendido pelas outras violências que sobre ele se impõem como se fossem seus satélites naturais.    

DIMENSTEIN - Um bairro redesenha o futuro

[jornal Folha de São Paulo . (São Paulo - SP - Brasil), 1º de maio de 2011, p.  C7] 



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Criaram-se programas para cuidar de problemas de saúde dos estudantes: de cárie a doenças mentais

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NA LISTA DAS cem pessoas mais influentes do mundo elaborada pela revista "Times", em que aparece a presidente Dilma Rousseff, há um personagem internacionalmente desconhecido. Chama-se Geoffrey Canada e é o criador de uma experiência num bairro de Nova York (Harlem) que está moldando o jeito de combater a pobreza e melhorar a educação nos Estados Unidos.


O jornal "The New York Times" considera o projeto um dos mais ousados experimentos sociais do nosso tempo. O caso é estudado nas melhores escolas de negócios americanas como um exemplo de gestão inovadora. Nas palestras sobre inovação educacional a que tenho comparecido, o nome de Canada quase sempre é lembrado.

Por ter encantado políticos e milionários que moram em Nova York -a começar do prefeito da cidade, o bilionário Michael Bloomberg-, ele tem recebido dinheiro para suas experimentações.

Intitulado Harlem Children's Zone, o projeto ganhou notoriedade quando Barack Obama decidiu criar um fundo para replicá-lo em todo o país. Suas lições certamente são úteis para o Brasil.

Canada tem uma daquelas biografias notáveis. Negro, de família pobre, nasceu no South Bronx, bairro nova-iorquino que era considerado símbolo da degradação urbana. Decidiu estudar educação e conseguiu se formar nas melhores universidades americanas. Seu gosto pelas lutas marciais deu-lhe habilidade para intermediar conflitos nas comunidades dominadas por gangues. Virou professor de tae kwon do para ajudar os jovens a controlar seus impulsos violentos.

Quando iniciou o projeto, há 14 anos, o educador Canada estava interessado especialmente em melhorar o desempenho dos estudantes. "Percebi que não iria muito longe se quisesse melhorar apenas a escola", diz ele. Era necessário mudar muitos outros fatores que influenciam no aprendizado. Traçou como meta dar às crianças do bairro a mesma rede de proteção oferecida a um estudante de classe média. "Para mudar a escola, precisávamos mudar toda a comunidade, começando pelos pais."

Daí iniciou uma operação quadra por quadra para criar essa rede de proteção e justamente aí surgiu a solução inovadora.

Por uma dessas coincidências da vida, meus dois filhos estudavam numa escola experimental pública localizada nas proximidades do Harlem, onde havia efervescência de experimentações comunitárias, entre as quais a de Geoffrey Canada. Essa efervescência no fim da década de 1990 era chamada de "Harlem Renascença", numa referência ao tempo dos artistas que viviam no bairro. Foi ali que Martin Luther King articulou seu movimento por direitos civis.
*
Para Canada, tratava-se de educar não apenas os estudantes mas toda a comunidade a fim de criar redes de proteção.

Criaram-se programas para cuidar dos mais diversos tipos de problema de saúde dos estudantes: de cárie a doenças mentais, passando por asma e bronquite.

Lançaram projetos para lidar com álcool, drogas e violência doméstica. Futuros pais passaram a receber aulas sobre como cuidar de seus filhos.

Mutirões ajudaram a recuperar áreas degradadas. Montaram-se programas de orientação vocacional. Em suma, surgiu uma articulação de quase tudo o que é necessário para alguém prosperar.
*
 Canada articulou uma rede educativa que abrangia da creche ao fim do ensino médio, com uma preparação para a faculdade.Não é um projeto que possa ser aplicado facilmente no Brasil. Canada tem uma fila de doadores e gasta, por ano, quase R$ 100 milhões. Mas o poder público, em qualquer lugar, tem a capacidade de induzir a organização e a articulação de diversos serviços da comunidade.

Surgiram escolas públicas independentes para que a comunidade pudesse escolher (e demitir) seus diretores e professores, além de estabelecer o próprio currículo.

O tempo de aula foi ampliado e foram criadas atividades extracurriculares para descobrir habilidades de crianças e adolescentes.
    *
 Como estamos discutindo no Brasil as portas de saída para nossos programas de distribuição de renda, vemos como a melhor solução começa numa ofensiva "hiperlocal", integrando todos os recursos.
 
Há nessa experiência uma mensagem transgressora: a de que é muito pouco tentar melhorar apenas a escola, esquecendo o cuidado com toda a comunidade.
  *


PS- Se todo esse estímulo ao ensino médio anunciado na semana passada pelo governo federal sair do papel e for razoavelmente implementado, fomentando mais iniciativas estaduais e privadas, o Brasil vai entrar numa nova era em sua educação. A ampliação do ensino médio profissionalizante será capaz de pôr o jovem de baixa renda no mercado de trabalho e de garantir o crescimento da economia. É um dos melhores avanços na agenda do país.




domingo, 1 de maio de 2011

NOSSO BLOG VISTO NO BRASILE NO MUNDO

SEMANA DE 24/04/2011, 16:00h,  A   01/05/2011 15:00h
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MUNDO VASTO MUNDO - MANAUS CHUVOSA

MUNDO VASTO MUNDO - MANAUS  (BRASIL) CHUVOSA
Amazônia

Volume de chuva em abril de 2011 em Manaus é quase o dobro da média histórica para o mês


Intensidade de chuvas na capital do Amazonas aumentou, enquanto que o número de dias chuvosos diminuiu


Manaus, 29 de Abril de 2011

Elaíze Farias

Chuva recorde registrada nesta sexta-feira em Manaus provocou alagações em vários bairros da capital (Antônio Menezes)


O volume de chuvas no mês de abril em 2011 é quase o dobro da média histórica para o mês.

Até às 14h desta sexta-feira (29) já havia chovido 513 milímetros em Manaus em abril, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. A média para o mês é de 311 milímetros. Somente nesta sexta-feira, até às 14h, choveu 114 milímetros, superando a marca do último dia 27, quando choveu 96 milímetros. A próxima medição do Inmet acontece às 20h.

Como a previsão é de mais chuva para este sábado (30), é provável que a marca dos 513 milímetros seja superada.

A chefe do 1º Distrito do Inmet, Lúcia Gularte, disse que mais pancadas de chuva “sem trégua” estão previstas para a Manaus.

O tempo chuvoso não se limitará à capital amazonense e à região metropolitana.

Municípios amazonenses como São Gabriel da Cachoeira, Fonte Boa, Parintins, Tefé, Coari, Benjamim Constant, Itacoatiara, Manicoré, Eirunepé são alguns que estão chuva acima da média.

Uma situação climatológica que chama a atenção é que, embora as chuvas continuem intensas, o número de dias chuvosos está diminuindo. “A média de períodos com chuva em abril em Manaus é de 23 dias. Mas este mês o número de dias chuvosos diminuiu. Ou seja, aumentou a intensidade de chuvas. Isso são eventos extremos causados pela variedade climática e ilhas de calor provocadas pela urbanização da cidade”, disse Lúcia.

Segundo a chefe do Inmet, a grande intensidade de chuva ainda é reflexo do fenômeno La Niña, cuja intensidade começa a se enfraquecer mas persistirá até junho.


CRÔNICA DOMINICAL DE 1º DE MAIO/2011

CRÔNICA DOMINICAL DE 1º DE MAIO/2011
DOMINGO   DIA   SAUDÁVEL
Cavaleiro marginal lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical
(“Paisagem da janela” – Lô Borges e Fernando Brant)

Vicente D Moreira
Hoje é Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, Dia do Trabalhador – feriado, aqui e ali, que tem longo história a sustentá-lo e justificá-lo. Hoje também é domingo, mas trabalhadores e diversos outros interessando gostariam que esse importante feriado acontecesse em  qualquer outro dia da semana – menos domingo. Pois domingo  é o dia que a maioria  dos trabalhadores dedica, por direito,  ao decanso, ao lazer; tanto que para quem trabalha aos domingos é assegurado um dia de descanso, de folga, durante a semana.
O idioma inglês criou a palavra workaholic para tipificar alguém que não consegue parar de trabalhar nem mesmo aos domingos. Trata-se de uma composição entre work (trabalho) + aholic (alcoólico, alcoolista). Logo, o (a) workaholic é uma pessoa patologicamente viciada em trabalho que, por força desse vício, dessa - por assim dizer - 'doença', não quer descansdo nem dominical. Uma pessoa diagnosticada  como doente e, portanto,  necessitada  de terapia, cuidados e tratamento.
Primeiro de Maio de 2011, um domingo. Este é um dia, um sinal que nos chama à coerência com o que pensamos que talvez deva ser o domingo: leitura, diversão, lazer, recreação, ludicidade … e até mesmo dia de acordar (mais) tarde.  Esta (breve) crónica é a última de uma série de dezenas assim em homenagem a este belo e saudável dia da semana chamado Domingo.
Mas isto não quer dizer que cassamos o domingo (dia e assunto/tema) do nosso Blog. Ele poderá aparecer como tema urbano ... as cidades aos domingos, numa perspectiva menos literária.
Aos domingos, doravante, nosso blog postará apenas contos e poesias que girem em torno do tema cidade. É o nosso descanso dominical. Sim, prossegue MUNDO VASTO MUNDO com notícias atuais sobre cidades de qualquer tamanho e de qualquer lugar
Muito Obrigado.

Vicente


EMCONTO COM AS CIDADES - JÚLIO CORTAZAR



EMCONTO COM AS CIDADES - POSTAGENS DOMINICAIS DE CONTOS QUE EXIBAM ALGUM DESTAQUE À CIDADE


CASA TOMADA

Júlio Cortázar

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.— Tem certeza?Assenti.— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado. Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza. — Não está aqui.E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa. Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava: — Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.) É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.— Não, nada.Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.
Posted by Luiz Fernando Riesemberg at 9:13 PM

TEMPOESIA NAS CIDADES - DRUMMOND



TEMPOESIA NAS CIDADES - POSTAGENS DOMINICAIS DE POESIAS QUE EXIBAM  ALGUM DESTAQUE À CIDADE


CIDADE PREVISTA
Carlos Drummond de Andrade



Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia 

o país de todo homem.

(Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo, em
Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p.158-159.)