sexta-feira, 5 de março de 2010

FEIRA DE SÃO JOAQUIM - CONTINUAÇÃO

MOREIRA, Vicente Deocleciano – LAUDO ANTROPOLÓGICO DA FEIRA DE SÃO JOAQUIM – SALVADOR – BAHIA. Brasília – DF, República Federativa do Brasil, Ministério da Cultura, Fundação Cultural Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, janeiro de 2005.

TÁ GOSTOSO, MEU FIO?


Opiniões de estrangeiros, no século XIX, desenham uma Salvador suja. Suja para os padrões europeus de higiene, da época.

Assim, por volta de 1820, Maria Graham declarava que a cidade comercial era “sem nenhuma dúvida o lugar mais sujo em que eu tenha estado”, declaração com a qual concordava F. Denis considerando que esta parte da cidade era “o lugar mais feio da terra”. Anos mais tarde o inglês Kidder dizia que “a cidade baixa não oferece atrativos para o estrangeiro”, “a sarjeta fica mesmo no meio, de modo que a rua se torna asqueirosamente imunda”. Mas é o cônsul inglês Wetherell que viveu na Bahia entre 1843 e 1857 que nos deixou uma imagem bem mais forte: “De manhã ao se passar peãs ruas da cidade baixa, o nariz do transeunte é assaltado por uma profusão de cheiros” e isso devido sobretudo às diferentes frituras que se fazem ali exalando todas “um cheiro horrível” de tal modo que “não se pode agradar a ninguém permanecer ai a não ser a título de pura curiosidade” (345). (MATTOSO, 1969 : 174)


Ainda Mattoso (1969 : 175), ela mesma:

Cidade suja, mas cidade viva onde os gritos do vendedor ambulante, gabando duas mercadorias, era acompanhado pelo canto ritmado dos carregadores negros que iam levando pesados volumes de um canto para outro; cidade suja, mas cidade colorida, cidade alegre pelas vestes de seus habitantes, pela cor de suas peles.


Não existe o sujo ou o limpo como realidades absolutas; regras de higiene são transmitidas como regras culturais gerais (BOLTANSKI, 1969), daí que o que é sujo ou o que é limpo tem sempre valor referencial, normativo, para uma determinada cultura ... não necessariamente para todas as culturas. Douglas (1991) mostra como estes conceitos que remetem ao que é puro ou impuro guarda vínculos com preceitos religiosos, como é o caso do Judaísmo e do Cristianismo, no que diz respeito às prescrições do livro bíblico Levítico. O ar pode purificar como trazer doenças.

A leitura (que, espero, não cansativa) de citações referentes à Salvador do século XIX, pode servir de alerta para defender o Tombamento da Feira de São Joaquim e situa-lo como peça importante dentro do Projeto de Revitalização do bairro do Comércio. Pode servir de alerta, também, contra interesses alheios às demandas populares e à preservação de suas conquistas. Nas CONSIDERAÇÕES FINAIS deste Laudo, retomaremos esta reflexão. Retornando às críticas condenatórias tecidas, pelo dono da Empresa Edificadora contra a Feirinha do Peixe (suja, aldeia, etc.), são cabíveis algumas considerações:

1- Come-se peixe mesmo em lugares os mais distantes do mar ou de algum rio piscoso; mas não surpreende que, em aglomerados populacionais a beira mar, coma-se pouca carne de boi, carne vermelha;
2- Há pessoas que não suportam o odor de peixes, estejam eles frescos ou deteriorados;
3- O peixe, tão recomendado pelos médicos, não resiste fora da refrigeração; quando esta não existe nas condições minimamente desejáveis sua venda tem que ser realizada o mais rápido possível. Daí que os móveis sobre os quais o peixe é vendido, nas feiras, são precários porque compatíveis com a própria fragilidade da sua carne após a pesca. O mobiliário de apoio à venda de frutas, legumes, cereais é menos precário, menos provisório, porque tais produtos são mais duradouros que os peixes. Por tudo isto, as barracas da Feirinha do Peixe apareceram tão toscas - parece mais uma aldeia do que uma das Cidades mais civilizadas e mais importante do Brasil - aos olhos do proprietário da Empresa Edificadora. A estes mesmos olhos de século XIX (mas igualmente sob o olhar de tantos outros séculos – inclusive o atual, XXI) a feira era indesejável também possivelmente porque era lugar de pobres e negros. Pobres e negros “fediam”. Pobres e negros vendendo peixe “fediam” muito mais.



CORTE ESSE PEDAÇO DAQUI, FREGUÊS!

O que choca, provoca repulsa e, a um só tempo, fascina o espírito burguês da ordem e do bom senso não é apenas a decantada e generalizada “sujeira” da Feira de São Joaquim, mas também as atitudes “suspeitas” de algumas pessoas e vendedores suarentos, “fedorentos” a nos encarar, roçar e quase nos abraçar e beijar nas passagens mais estreitas, nos labirintos de onde a qualquer momento pode aparecer um minotauro.

Referindo-se à Paris do mesmo século (século XIX), Corbin (1987 185 e 193) faz a seguinte apreciação:

O burguês projeta sobre o pobre aquilo que ele tenta recalcar. A visão que ele tem do povo se estrutura em função da imundície. A fetidez do animal deitado sobre seu próprio excremento, em sua toca, constitui-se num modelo.

Choca aos espíritos obcecados pela limpeza (e pela ordem-e-progresso que a limpeza pode sugerir) os feirantes sem camisa, os pedintes, a “feiúra” das barracas da Feira de São Joaquim, a “desorganização” de seu traçado urbano (parecido com o da velha e bela Salvador) e de suas nove quadras, três ruas principais, as vinte e três transversais da sétima quadra, as nove da quinta quadra e as seis da nona quadra.

Para essas pessoas, especialmente nas classes médias, (...) esses lugares de desordem cultural, como as feiras, a cidade, o cortiço e a praia, tornam-se fontes de fascínio, desejo, nostalgia. (MERCER e SHELD citados por TELES, 2003 : 23)


(ATÉ AMANHÃ, SE DEUS PERMITIR, MEU FREGUÊS!)

quinta-feira, 4 de março de 2010

FEIRA DE SÃO JOAQUIM (CONTINUAÇÃO)


MOREIRA, Vicente Deocleciano – LAUDO ANTROPOLÓGICO DA FEIRA DE SÃO JOAQUIM – SALVADOR – BAHIA. Brasília – DF, República Federativa do Brasil, Ministério da Cultura, Fundação Cultural Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, janeiro de 2005.



SALVAR OS SAVEIROS


Quando o “mau aspecto” das barracas e os odores “ indesejáveis” de peixe e outros produtos, apesar dos esforços da Câmara para organizar a feira e “melhorar” a situação, começam a incomodar os moradores das Portas do Carmo (Terreiro de Jesus) - área residencial de famílias “finas” e ricas – a feira ali situada é extinta. Como o peixe tem o “poder” de atrair outros produtos, a população passa a contar com a chamada “Feirinha do Peixe” ... exatamente nas imediações da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, onde os pescadores moravam, ancoravam seus barcos, salgavam os peixes ... enfim trabalhavam ...já a algum tempo.

A localização das mais importantes feiras populares de Salvador - “Feirinha do Peixe”, Feira do Sete, Água de Meninos ... São Joaquim sempre ocorreu à linha do mar e em terras a ele conquistadas.


O ABACAXI TÁ DOCINHO, MOÇA. FAÇO DOIS POR TRÊS REAIS.


A Feira das Sete Portas, distante do mar, é sem dúvida importante, mas não se constitui exceção, porque não nasceu como feira, propriamente, e sim a partir de um mercado (por volta de 1930) cujas portas (versão original), imitando a arquitetura dos mercados antigos europeus, eram numeradas de um a sete.


VAI QUERER ALHO AÍ, MEU TIO?


A Feira do Japão, existe desde 1965, é abastecida em grande monta pela Feira de São Joaquim e tem especial importância para o bairro em que está situada, a Liberdade – considerado o de maior população negra de Salvador. Localizado a dezenas de metros acima do nível do mar, de alguns trechos deste bairro, (como por exemplo do Shopping Liberdade) vê-se o mar, a Baía de Todos os Santos e, num quadrante panorâmico, a própria Feira de São Joaquim

O mar,
Quando quebra na praia,
É bonito,
É bonito
.
(Dorival Caimmy,compositor baiano)


Ter o mar quebrando na praia representou não apenas um privilégio estético ou da natureza (o habitat do peixe, por exemplo), mas também um condicionante histórico e econômico em última instância: A localização debruçada sobre o mar se deveu, porém, não só à proximidade do habitat do peixe, mas também à comodidade do desembarque de mercadorias – produzidas ou escoadas desde Itaparica e outras ilhas, e de diversas localidades do Recôncavo – dos saveiros (e outros tipos de embarcações) diretamente na veia e nas artérias da própria feira.

Como uma feira banhada pelo mar pode viver sem vender peixes?


BOTE TAMBÉM UNS GRAUDINHOS, CUMPADE!



Os saveiros têm forte presença na obra de Jorge Amado: eles estão por merecer estudos que o situem no interior da obra deste escritor baiano. É dentro de um saveiro, por exemplo, que Quincas Berro d’água faz ecoar por toda a baía e Salvador seu grito – águaaaaaa ! ! ! ... - sua revolta por ter bebido, enganado por outros, água em vez de cachaça.

A GRANDE noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. (Jorge Amado – Capitães da Areia)


A história e o apogeu dos saveiros, se confunde com a presença dos negros e dos momentos de apogeu das feiras soteropolitanas a beira mar: feiras decadentes, decadência dos saveiros. Estas naus praticamente desapareceram do cotidiano dos estaleiros e das águas da Baía de Todos os Santos; o espetáculo que eles oferecem, anualmente, na procissão do Senhor dos Navegantes sugere a exata medida do que poderá ser o retorno destas embarcações sob influência da requalificação ambiental e das melhorias gerais – ouvidos os feirantes – que poderão acontecer na Feira de São Joaquim. Evidentemente que o declínio dos saveiros no cotidiano da baía de Todos os Santos se deve a outras causas (a construção de estradas, a valorização do caminhão como alternativa de transporte de cargas, por exemplo), mas é preciso reconhecer que a nova Feira de São Joaquim - ouvidos os feirantes – poderá trazer de volta o saveiro, um dos marcos mais fortes da identidade cultural de Salvador.


VAMO VAMO, MINHA GENTE. COMPRÁ BARATO É AQUI.


O Tombamento como bem imaterial é um passo decisivo para esta nova Feira de São Joaquim na particularidade do retorno dos saveiros. Este retorno poderá contribuir para a redução dos custos de transporte das mercadorias e dos preços finais ao consumidor. Tradicionalmente, o vento é a energia que move os saveiros; mas, mesmo no caso do uso de combustíveis, o diesel, ainda assim as vantagens econômicas se mantêm. Basta comparar estas embarcações com meios de transportes movidos a gasolina, ou mesmo a diesel, que percorrem longas distâncias e sofrem elevada depreciação inclusive mecânica.

Outra vantagem do retorno dos saveiros é a continuidade – hoje ameaçada – da produção, reprodução e transmissão às gerações mais jovens dos saberes, artes e técnicas que singularizam a construção destas embarcações. Onde estão os velhos mestres construtores de saveiros?

Tombar a Feira de São Joaquim e reformulá-la ecologicamente – ouvidos os feirantes - é salvar os saveiros do naufrágio na nossa contumaz falta de memória.



O SUJO, O FEIO ... UMA CIDADE E UMA FEIRA PRA INGLÊS VER



Era de se esperar que a Feirinha do Peixe localizada numa área de aterro sobre o mar (portanto, de solo aparentemente pouco valorizado) não agredisse os padrões estéticos e higiênicos das elites políticas, empresariais, negocistas ... habitantes da parte elegante de Salvador, a Cidade Alta, e conduzidas em cadeirinhas de arruar carregadas por escravos. Mas não foi isto o que aconteceu. Apesar de a parte nobre da cidade ser a parte alta da cidade, ao menos na segunda metade do século XIX, o Governo e as Forças Armadas tinham prédios e as elites negócios no chamado Cais Dourado e adjacências, considerados incompatíveis com a vizinhança das “feias” barracas da “suja” feira da “Feirinha do Peixe”.


ESSA É COPIOBA VERDADEIRA, TORRADINHA. PODE PROVAR PATRÃO.


Apesar de os edifícios públicos mais imponentes se situarem na parte alta de Salvador, na Cidade Baixa estavam localizados marcos do poder do Estado e do capital financeiro (trapiches, armazéns, mercado de escravos ...). Mattoso (1978 : 171-172) faz descrição apropriada do entorno histórico (século XIX) e do embrionário nicho urbano onde quase um século depois (1964) seria construída a Feira de São Joaquim:


Na parte ribeirinha da cidade, o comércio desenvolvia suas atividades num espaço limitado por duas construções religiosas: a belíssima basílica de N. S. as Conceição da Praia edificada perto do bairro denominado da Preguiça, de um lado, e a Igreja de N. S. do Pilar, do outro. Nesse espaço, que compreendia até por volta de 1870 uma única rua no sentido longitudinal, encontravam-se os prédios da Alfândega, o Celeiro Público, o Arsenal da Marinha, o Consulado, o elegante prédio da Bolsa de Mercadorias construído na época do governo do conde dos Arcos, numerosos trapiches e armazéns de onde se aviavam as mercadorias que demandavam os mercados externos e se recebiam as que eram importadas. Nessa parte ainda da cidade havia as lojas comerciais, a praça do comércio e os principais mercados da cidade. Mercado de atacado com lojas e depósitos abarrotados por todo tipo de mercadorias que iam dos produtos de luxo aos produtos alimentícios de primeira necessidade (337); mercado de escravos onde as transações se efetuavam ora nas ruas e praças (...) ora em prédio próprio (...).


Este é o quadro geral de uma efervescente parte da cidade cujos moradores pobres, escravos e trabalhadores de um modo geral andavam a pé, de montaria, carroças, carros de bois ... mas, desde a segunda metade do século XIX, Salvador passa a contar com o progresso e o conforto do transporte coletivo: bondes movimentados por tração animal (inicialmente explorados por um austríaco) e carros de aluguel. Neste quadro não há lugar para equipamentos como a “Feirinha do Peixe”; esta era inadequada, na verdade, ao livre curso dos interesses dos tantos negócios e tantos negociantes, e do Poder Público pode ser de algum modo compreendida, a partir da leitura de documentos localizados no Arquivo Público do Estado da Bahia (Salvador) e aqui transcritos. Neste momento (2005) em que, dia a dia, ganham mais força o Tombamento da Feira de São Joaquim, a Via Náutica e o projeto de Revitalização do Comércio, cabe como instrumentos de reflexão a leitura dos aludidos documentos e das obras de Mattoso (1978 e 1992) sobre a Salvador do século XIX – estas últimas aqui apenas sugeridas ao leitor, por imposição dos limites formais deste Laudo.

PRESIDÊNCIA DA PROVÍNCIA - 1871
MERCADO NA PRAINHA DO PEIXE –

Tenho a honra de participar a V. Exa. que hoje assinei o contrato para a edificação do Novo Mercado da Prainha do Peixe com o Engenheiro Civil Hugh Wilson, que se deve achar pronto no final de dois anos; portanto desejo saber de V. Exa., se os terrenos da dita praça que foram requeridos no mês de Julho do ano próximo passado, tem sido desapropriados e se já estão disponíveis para se principiar as obras; ao contrário peço que V. Exa. Adiante tais desapropriações a fim de evitar maior demora.
Em breve tempo conto ter o prazer de convidar a V. Exa. para deitar a primeira pedra de uma obra que tanta utilidade promete ao povo desta capital.
Deus Guarde a V. Exa.
Bahia 30 de Maio 1871.



PRESIDÊNCIA DA PROVÍNCIA
MERCADO NA PRAINHA DO PEIXE – 1871

Bahia 4 de outubro de 1871 (cópía)

Tive a honra de assinar com V. Exa., na data de 30 de Maio próximo passado o contrato para a edificação do novo Mercado da Prainha do Peixe, incorporando como parte do dito contrato as cláusulas do contrato efetuado com o Governo Provincial de Dara de 29 de Dezembro de 1869 – cuja condição 2a. diz o seguinte:
“O Governo da Província obriga-se a entregar livre e desembaraçado de qualquer ônus o terreno da prainha do Peixe a Preguiça, o qual fica situado entre as casas novas dos herdeiros do finado Comendador Motta e o Arsenal da Marinha.” (...)


PRESIDÊNCIA DA PROVÍNCIA– 1877
MERCADO NA PRAINHA DO PEIXE

A Empresa Edificadora tendo levantado um importante edifício nas suas Marinhas ao Caes Dourado, com a denominação de Praça do Ouro; para nele estabelecer mercado de gêneros alimentícios, açougues e outros ramos de Comércio, a fim de que seja removido do Cais da Cidade baixa, onde tão triste espetáculo oferece aos viajantes, que diariamente aqui desembarcam de passagem nos vapores transatlânticos; não só pela falta de asseio, como pelo atropelo que causam, por ser o lugar onde descarregam e carregam os gêneros de Exportação e Importação e ser limitadíssimo o espaço para todos e ser no foco comercial a praça de gêneros alimentícios que não só a bem da salubridade pública como a bem da nossa civilização deve ser mudada daquele centro comercial pensam os Suppes terem construído um Edifício, talvez o mais importante da Bahia, que se presta às necessidades que acabam de apontar; tendo melhorado assim aquele bairro, porque, onde se acha hoje aquele importante Edifício, parte era um insalubre monturo, e parte foi conquistado ao mar; mas para que ela se torne mais importante e para que se possa alargar o acanhado bairro comercial é de grande necessidade e urgência a continuação da rua da Praça Riachuelo, até encontrar com a Praça do Ouro, conforme a planta que juntam, do que faz sem dúvida se prestarão todos os proprietários e aquele que não quiser, o fará a Empresa suplicante ficando-lhe pertencendo os terrenos, se o Governo não entender pô-los em concorrência pública; sendo os Becos e as travesias pagos pelo Governo são mais espaçosas ruas, onde se construirão grandes estabelecimentos comerciais e assim alargará a Área Comercial, do que o Governo tirará grande proveito assim; como desaparecerão essas legendárias pontes, que servem para a sua sombra ou com a escuridão da noite se esconderem os ladrões de mercadorias a bordo dos barcos e alvarengas, que continuadamente se estão dando no Porto; abrirá mais duas comunicações com o Pilar, hoje só feita pela estreita e tortuosa Rua do Julião, por onde passa uma linha de bondes e grande movimento de carroças com direção aos Trapiches, a Estrada de Ferro e bairros da Calçada, Bomfim e Solidade.
A V. Exa. que testemunhou o estado daquela localidade quando honrou o estabelecimento com sua visita, recorre a Empresa Edificadora animada pelo gênio empreendedor de V. Exa., que não será indiferente ao mais importante melhoramento, que reclama o Bairro Comercial, e animará o estabelecimento que deve mudar as condições desagradáveis deste importante bairro: mudando a feira da Rua mais importante e mais comercial desta Capital, que da forma que é feita parece mais uma aldeia do que uma das Cidades mais civilizadas e mais importante do Brasil, como V. Exa. já pessoalmente teve a ocasião de ver.
Bahia 30 de abri de 1877.



A natureza deste documento num Laudo, me permite fazer tão longa citação – o que seria talvez condenável se este trabalho fosse acadêmico, universitário. Bem se observa que a revitalização do Comércio é uma idéia nutrida há mais de um século. A leitura (que, espero, não cansativa), mesmo se referindo à Salvador do século XIX, pode servir de alerta para defender o Tombamento da Feira de São Joaquim e situá-lo como peça importante dentro do projeto de Revitalização do Comércio. Pode servir de alerta, também, contra interesses alheios às demandas populares e à preservação de suas conquistas. Nas CONSIDERAÇÕES FINAIS deste Laudo, retomaremos esta reflexão.



(AMANHÃ É SEXTA. AMANHÃ EU TENHO LAMBRETA, SURURU, SIRÍ E CARANGUEIJO ... TUDO GRAUDINHO E BARATINHO ... E COM UMA QUEBRA BOA ...)

quarta-feira, 3 de março de 2010

RIO DE JANEIRO - 445 ANOS

RIO DE JANEIRO 445 ANOS, COMPLETADOS ANTEONTEM - 1º DE MARÇO

DOMINGO PRÓXIMO, DIA 7, POSTAGEM ESPECIAL COMEMORATIVA

FEIRA DE SÃO JOAQUIM (CONTINUAÇÃO)

OLÁ FREGUESA, NÃO VEIO NA SEMANA PASSADA!


Entre 1695 e 1750 (fase da descoberta e do apogeu as exploração de minas), Salvador era a cidade mais importante do império português – depois de Lisboa – superando Goa, Macau, Luanda e outras. A Bahia era importante entreposto comercial, tanto de comércio legal como de contrabando de mercadoria trazidas do Goa, Macau e mesmo de cidades européias. Salvador, era considerada o “ porto do Brasil”. Mas roda essa importância começa a esmaecer a partir de 1763 com a mudança da capital da colônia para o Rio de Janeiro2

No século XVII, com o desenvolvimento da exportação do açúcar, do tabaco, algodões, couro madeira, Salvador atraiu homens de negócios, havia números vendeiros, quitandeiros, oficiais mecânicos ourives de prata e de ouro, armeiros serralheiros, pintores) confeiteiros, padeiros - que chegavam pobres de Portugal e aqui enriqueciam, funcionários que ajudavam o pagamento das despesas da guerra contra os holandeses. Havia negociantes com capacidade de doar cotas de 200, 500 mil réis e até 1 conto de rés e mais ((AZEVEDO, 1969 : 167).


OLHA O PESO!


As atividades agrícolas e pecuárias, nos dois primeiros séculos, não eram muito expressivas. Hortas eram cultivadas nos arredores das portas da cidade, ao passo que o gado vinha de currais de fazendas situadas em Santo Amaro de Ipitanga, Itapuã e de grandes criatórios que começavam a despontar como Mata de São João, Catu, Pojuca, Inhambupe, Tapicuru

A carta que o Padre Manoel da Nóbrega escreve em 10 de agosto de 1549, ao Dr. Navarro, de Coimbra, representa uma das primeiras impressões de um europeu sobre a exuberância das fontes de abastecimento, na recém-fundada Salvador:

A terra achamo-la boa e sã. Todos estamos de saúde, Deus louvado, mais sãos de que partimos ... A terra é fértil de tudo, ainda que algumas, por demasiado pingues só produzam a planta e não o fruto. É muito salubre e de bons ares, de sorte que sendo muita a nossa gente e mui grandes as fadigas, e mudando de alimentação com que se nutriam, são poucos os que enfermam e estes depressa se curam. A região é tão grande que, dizem, de três partes em que se dividisse o mundo, ocuparia duas; é muito fresca e mais ou menos temperada, não se sentindo muito o calor do estio; tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos, no mar igualmente muito peixe e bom. Similham os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de raz tão belo. (Acciolli, 1999, citado por Azevedo, 1969 : 134):


FREGUÊS, VAI QUERER QUIABO? TÁ NOVINHO, TROUXE HOJE, É DEZ REAIS O CENTO!



Em 1553, Luiz da Grã escreve para Santo Inácio de Loyola:

As águas geralmente são muito boas. Os mantimentos próprios da terra, ainda que úmidos, quase todos, são em abundância. O pescado é muito gostoso e saníssimo (...) (citado por Azevedo, 1969 : 265)

Um outro olhar estrangeiro – este do século XVII - Johann Gregor Aldenburgk, autor do livro Relação da Conquista e Perda da Cidade do Salvador pelos Holandeses em 1624-1625 ( citado por Azevedo, 1969 : 7) fez elogio da fartura de Salvador:

Na mencionada cidade de S. Salvador não encontramos outra gente senão negros, mas grandes riquezas em pedras preciosas, prata, ouro, âmbar, moscada, bâlsamo, veludo, tecidos de ouro e prata, cordovão, açúcar, conservas, especiarias, fumo, vinho de Espanha e de Portugal, vinho das Canárias, vinho tinto de Palma, excelentes cordais, frutas e bebidas, com o que muito nos maravilhamos e alguns soldados denominaram a terra de batávica.


Em meio à intensa movimentação comercial e à ampla oferta de produtos, é possível destacar a prodigalidade de Salvador na oferta de diversos tipos de peixe no século XVI: beijupirá, cavala, pescada, garoupa, mero, vermelho, caranha, pampano, dourado, olho de boi, etc. e, como se diz hoje, frutos do mar (caranguejo, ostras, camarões ...). Os pescadores, suas casas, salgados e embarcações localizavam-se próximo ao templo consagrado a Nossa Senhora da Conceição da Praia, então uma simples ermida. Notáveis pescadores, a ponto de Tomé de Souza ter distribuído dezenas de anzóis aos índios, os portugueses procuraram valorizar a atividade pesqueira. Os “nativos”, por sua vez, uma banca de peixe aqui outra ali, terminavam por construir as feiras populares de Salvador e a desempenhar papel decisivo em sua localização sempre à beira mar, perto dos barcos e dos ancoradouros pesqueiros ... e próximo da Camboa dos Pescadores (atual bairro da Gamboa)

A Feira de São Joaquim figura, entre as demais feiras, e entre os centros de abastecimento e supermercados de Salvador, como o único espaço, onde é possível encontrar, num único espaço, a fartura e a variedade exuberante de produtos alimentícios (e de tantos outros) que não só abastece outras feiras e mercados mas também preserva a tradição de abundância que tanto encantou e tanto foi festa, feira, aos olhos dos portugueses e de outros europeus, nos primeiros séculos da colonização.

Essa condição de variedade e quantidade de produtos poderá ter maior visibilidade para o baiano e para o turista graças ao re-ordenamento ambiental e o apoio tecnológico de armazéns e modernos frigoríficos – ouvidos os feirantes – estimulados, para não dizer exigidos pelo Tombamento da feira como bem imaterial.

Ao lado da variedade e da quantidade de produtos, há que se registrar como componente museológico da Feira de São Joaquim, a expressiva quantidade de mercearias. As mercearias são um tipo de estabelecimento comercial, ancestral do supermercado e raramente encontrada fora da Feira. Nestas mercearias, o comprador torna seu pedido público e oral (um quilo da feijão, 250 de café ...) - diferentemente do silêncio e da privacidade dos supermercados.


ÓI O SARAPATEL, PATRÃO! TÁ NOVINHO!...



A exuberância de formas, citações museográficas comerciais, cores e odores da Feira de São Joaquim, império de Dionísio, Baco, (diferente do rigor apolíneo, formal, metódico, dos supermercados) faz a orgia dos sentidos e do desregramento e diminui, a medidas nanométricas, a distância entre a casa e a rua, o privado e o público. Tudo e todos se expõem à venda, aos abraços, tapinhas nos ombros e apertos de mãos, aos encontrões, às pisadelas, às sacoladas e cestadas, à alegria dos saveiros voltando e à ternura das mãos se encontrando.

A Feira de São Joaquim é uma festa. Alguns supermercados tentam inventar, entre suas quatro paredes, uma réplica deste espírito dionisíaco: ora promovendo “feiras” semanais quando dizem vender legumes, frutas, verduras com abatimento; ora disponibilizando um funcionário que, com um megafone, anuncia as ofertas daquele dia, daquele instante.

Preservar a Feira de São Joaquim é manter vivo um espaço em que é festa todos os dias; um espaço em que (diferentemente da urbis carnavalesca que depende da autorização anual do prefeito e do Rei Momo) todos os dias faz sua própria festa conforme a vontade do povo. No Carnaval, o Prefeito autoriza que sejamos publicamente felizes. Na Feira de São Joaquim, o povo se autoriza a si mesmo com os poderes que emanam de si mesmo.



(AMANHÃ EU TENHO MAMÃO MAIS GRAÚDO, FREGUESA!)

terça-feira, 2 de março de 2010

FEIRA DE SÃO JOAQUIM (SALVADOR – BAHIA – BRASIL)

FEIRA DE SÃO JOAQUIM (SALVADOR – BAHIA – BRASIL)

“Embora a primeira feira fixa e formalmente constituída da Bahia (a Feira de Santo Antonio ao Capuame) date de 1614, Tomé de Souza ao fundar Salvador (1549) preocupou-se em encontrar meios para alimentar e abastecer soldados, religiosos, degredados, colonos, que integravam sua comitiva. Localizada nos limites das Portas de Santa Luzia (imediações da atual Praça Castro Alves), a incipiente "feira" - abrigava relações de escambo (não existia ainda circulação de. moedas) - inicialmente transitou destas Portas para o limite Norte, isto é, para as Portas do Carmo (atual Largo do Pelourinho) e procurou abastecer o núcleo de povoamento com hortaliças e legumes cultivados nas leiras (hortas) escavadas no hinterland (área rural) de Salvador ou fora do muro das Portas do Carmo (atual região entre a Baixa dos Sapateiros, Tabuão e próxima a uma aldeia Tupinambá localizada onde hoje. se conhece por bairro do Carmo).

A Feira de Santo Antonio do Capuame, em homenagem a Santo Antonio e próxima a uma capela em honra a este santo, foi instituída (1614) por Francisco Dias D'Ávila I, a 9 léguas de Salvador _e 68 metros acima do nível do mar. Duas importantes estradas conduziam a esta feira: a Real que levava até Juazeiro e uma ramificação da Estrada das Boiadas sobre uma planície de 5 léguas quadradas, servida por excelentes pastagens e banhadas pelos rios Jacuípe e Jacumirim. A Feira do Capuame - como era popularmente conhecida - se manteve como o primeiro e mais importante centro de negócios de criadores de gado até ser suplantada pela feira de Feira de Santana, sita nos Campos da Cachoeira. (atual município de Feira de Santana) e sua localização geo-econômica estratégica e excepcionalmente bem plantada no mapa do Nordeste brasileiro.

Decadente e superada pela Feira de Santana, a Feira do Capuame passou a chamar-se, durante muito tempo, Feira Velha do Capuame, ou simplesmente Feira Velha. A partir de 9 de junho de 1928, por decisão da Assembléia Geral, recebe nova denominação: Dias D' Ávila (atual município do mesmo nome), em homenagem a Francisco Dias D'Ávila & família, cujo registro histórico foi fixado numa placa comemorativa assentada em uma parede da estação rodoviária local.

Defendemos a necessidade mais que urgente do Tombamento Imaterial da Feira de São Joaquim. Aquelas duas feiras foram extintas (a última delas, Feira de Santana, em 1977), de modo que a Feira de São Joaquim conserva dois títulos: a maior da Bahia (uma das maiores do Nordeste brasileiro) e a única grande feira em atividade em todo o estado. Água de Meninos foi incendiada em 1964.

A Feira de São Joaquim (que completou 40 anos em 2004) localiza-se na Cidade Baixa, bairro da Jequitaia, área portuária, vizinha à Estação do Ferry Boa! , a alguns metros da igreja e antigo Colégio dos Órfãos de São Joaquim - dos quais tomou de empréstimo o nome como se estivesse obedecendo à velha tradição medieval européia da nominação das feiras. A Feira de São Joaquim é filha de uma época (década de 60, século XX) em que a nova capital, Brasília, é inaugurada, a industrialização, as chaminés fabris eram a salvação da economia brasileira ... ao menos assim pensavam os governos militares no poder a partir de 31 de março de 1964.

A Feira de São Joaquim vem resistindo às acusações de "suja", "fedorenta" , "anti-higiênica" ... as mesmas acusações que tentaram justificar o extermínio da feira de Feira de Santana. Entre as décadas de 70 e 80 (século passado), foram criadas as Centrais de Abastecimento (CEASA) com o objetivo declarado de controlar o fornecimento e o preço de gêneros alimentícios de primeira necessidade e com o propósito nem sempre claro de substituir, em todo o Brasil, as velhas feiras, paraísos da economia informal, "insalubres" , obstáculos à circulação confortável de automóveis e aos interesses dos grandes comerciantes. Na Bahia, pesquisa da Secretaria Estadual de Planejamento, Ciência e Tecnologia (1968) recomendava a criação das CEASA em Salvador e em cidades com problemas de abastecimento devido aos constantes períodos de estiagem; a Feira de São Joaquim vem resistindo aos novos mercados populares (Rio Vermelho, Itapuã) e ao poder das redes de supermercados.

Nascem e morrem, compram-se e vendem-se supermercados mantidos por grupos econômica e politicamente poderosos ... e a quarentona feira resiste e continua a atrair mais e mais consumidores, sem trair suas raízes negro­-baianas e suas peculiaridades arquitetônicas e urbanísticas. Aos sábados, quando o movimento é mais intenso, é preciso chegar cedo à Feira de São Joaquim para encontrar vaga nos quatro estacionamentos pagos de automóveis (de variadas marcas inclusive importados) e, também, no estacionamento de utilitários que, freneticamente, carregam e descarregam mercadorias. É preciso chegar cedo para também sair cedo e encontrar o ponto de ônibus não muito cheio de usuários. E um lugar para colocar as sacolas e as galinhas de quintal dentro do ônibus.


...Tudo no mais perfeito caos urbano. Nietzsche diria que é preciso ter um caos dentro de si para fazer nascer uma estrela que dance.
COMPADRIO, FREGUESIA E SOCIALIDADES DE UMA FEIRA


A Feira de São Joaquim não é apenas um lugar onde se compra e vende um número infinito e uma diversidade estonteante de produtos, mas também um território de socialidades e afetividades. Vendedores e compradores costumam tratar-se pelas expressões cumpade/cumade (compadre/comadre) ou freguês/freguesa ainda que nunca se tenham visto antes. As relações comerciais (mas não apenas comerciais) são sustentadas por relações de parentesco através da forma de compadrio, que é diferente daquela justificada pelo batismo ou crisma, na Igreja Católica Apostólica Romana, e daquela construída em torno da fogueira, durante os festejos de São João; ambas as formas, existentes desde os tempos coloniais, continuam exercendo influência e fundamentando as indispensáveis bases relacionais e emocionais desse “parentesco de feira”.

A instituição cristã do compadrio, não só entreteceu laços fortíssimos de parentesco espiritual entre famílias da mesma categoria como entre famílias de níveis diferentes, e dessarte assegurou a muita criança pobre, preta, ilegítima, enjeitada, a proteção de padrinhos ricos ou de posição, que se interessavam pela sua saúde, pela sua alimentação (...) As reações criadas pelo compadrio, inclusive por formas vicariantes de compadresco, - fogueira de S. João, de brinquedo, etc., foram de uma fôrça moral que bem podem ser consideradas entre os mas vigorosos laços morais atuantes, ainda hoje, na sociedade brasileira. (AZEVEDO, 1969 : 203-204)

Caminhando pelas ruas da feira, somos a toda hora alertados por frases, convites à compra, exclamações ... proferidas por carregadores, vendedores e feirantes em geral dotadas de extraordinária riqueza etnográfica e lingüística – como por exemplo: “OLHA O CARANGUEJO!” ... (com medo da lama do caranguejo, todos se afastam para o autor do grito, da advertência, passar – sorridente, apressado mas bem humorado – com seu carrinho de mão vazio).


O “compadrio de feira”, sustenta com lastro moral as relações sociais e econômicas na Feira de São Joaquim (e em tantas outras feiras livres de Salvador e do Nordeste brasileiro). Desta base se constrói a sustentação ética de uma relação comercial, dificilmente verificada, em Salvador, fora de suas feiras e mercados mais tradicionais (Sete Portas, Mercado de São Miguel ...)

Quando compradores e vendedores se encontram na Feira de São Joaquim e se chamam mutuamente freguês, freguesa ... esse quadrante de socialidade aponta para um nivelamento democrático, igualitário, solidário, entre pessoas que pertencem a uma mesma – por assim dizer – freguesia econômica, em que todos fazem parte de um mesmo grande grupo (que faz lembrar, de algum modo, a divisão eclesial católica em freguesias), num universo relacional de interdependência econômica – sem dúvida – mas também afetiva e de inteira confiança. Um exemplo dessa confiança ocorre quando o comprador confia ao vendedor problemas pessoais e familiais (casos de doenças, brigas, alcoolismo ...) e este – enquanto despacha – pergunta sobre tais problemas, e até mesmo opina, dá conselhos, orienta.

As expressões de socialidade de um supermercado transitam por territórios relacionais diferentes. Nesses estabelecimentos, os compradores são denominados clientes. A clínica médica também usa a expressão cliente para caracterizar a pessoa que, portadora de alguma enfermidade, sinal ou sintoma, um paciente, se utiliza ou pode vir a utilizar dos serviços de um médico ou um hospital. Enquanto num supermercado pode-se entrar mudo e sair calado. Até mesmo porque o caixa é quem cumprimenta, por mero gesto profissional, quem chega, o cliente, que não se sente obrigado a responder o bom dia ou boa tarde. Dificilmente esta mudez, tal silêncio, acontece numa feira. Há um mínimo de diálogo entre os fregueses nas relações comerciais que ocorrem numa feira.

A Feira de São Joaquim completa, em 2010, quarenta e seis anos de existência. São quase cinco décadas de uma atividade econômica que congrega milhares de trabalhadores, e de compradores féis, de domingo a domingo, a partir das cinco horas da manhã. As complexidades relacionais que foram construídas nestes quarenta anos compõem um patrimônio afetivo incomensurável. A preservação da Feira de São Joaquim, através de seu Tombamento, possibilitará a sobrevivência dessas formas de socialidade tão raras nas relações capitalistas de mercado – fora das feiras livres - notadamente em centros urbanos do porte de Salvador.

"Com qualquer dez mil réis
E uma nega
Oi
Se faz um vatapá ..."
(Dorival Caimmy, compositor baiano)


A Feira de São Joaquim é, toda ela, um momento/espaço ritual para diversos ritos, embora esta condição ritualística nem sempre tenha presença consciente entre a população e o devido reconhecimento na investigação etnográfica. Em Salvador, não são poucas as pessoas que lembram – de pronto (Top of Mind?) da Feira de São Joaquim quando têm que comprar o quiabo, castanha, amendoim, milho branco e outros ingredientes para fazer o caruru de São Cosme & São Damião, de Santa Bárbara, vatapá, mungunzá ...; quando têm que comprar aves, louças de barro, imagens folhas, velas de sete dias, incenso ... para trabalhos mágico-religiosos.

São quatro décadas (quase cinco) de uma atividade econômica que congrega milhares de trabalhadores, e de compradores fiéis, de domingo a domingo, a partir das cinco horas da manhã. As complexidades relacionais que foram construídas nestes quarenta anos compõem um patrimônio afetivo incomensurável. A preservação da Feira de São Joaquim, através de seu Tombamento, possibilitará a sobrevivência dessas formas de socialidade tão raras nas relações capitalistas de mercado – fora das feiras livres – notadamente em centros urbanos do porte de Salvador.

TERRA “BOA” E “SÔ

Em 1549, ano em que formalmente se registra sua fundação, Salvador possuía 500 habitantes. Edison Carneiro alega a possível incapacidade das naus de Tomé de Souza, em abrigar centenas de pessoas, para discordar da opinião de que o Governador Geral teria desembarcado com frota de 600 soldados (homens d’arma) e 400 degredados. Outras informações contam 5ooo habitantes, 200 soldados (de terra e mar) e menos de 100 degredados.”


MOREIRA, Vicente Deocleciano – LAUDO ANTROPOLÓGICO DA FEIRA DE SÃO JOAQUIM – SALVADOR – BAHIA. Brasília – DF, República Federativa do Brasil, Ministério da Cultura, Fundação Cultural Palmares, Instituto dPatrimônio Histórico e Artístico Nacional, janeiro de 2005.


(ATÉ AMANHÃ, FREGUÊS@! ...)

segunda-feira, 1 de março de 2010

FEIRAS E CIDADES: VERACIDADES - 1

FEIRAS E CIDADES: VERACIDADES
1 - ORIGENS DAS FEIRAS BRASILEIRAS



O Blog http:/www.viverascidades.blogspot.com tem o prazer de iniciar hoje 1º de março de 2010, uma segunda feira, a postagem de textos sobre feiras livres, seus aspectos históricos e suas articulações sociais, econômicas e culturais com as cidades que as acolhem e/ou as rejeitam e/ou as abandonam “ao Deus dará”.

Se hoje é segunda-feira é porque ontem foi a primeira-feira, mais conhecida como Domingo, que quer dizer dia do Senhor (Deus). A questão que se coloca agora é a seguinte: Ontem, domingo, foi o dia do descanso de Deus após ter criado o Mundo, o Universo? Ou foi o primeiro dia do trabalho dessa criação, por Ele? São opiniões religiosas divergentes e, talvez, irreconciliáveis.

Todo que é segundo o é porque antes existiu um primeiro. Mas só podemos ter idéia do primeiro de qualquer coisa ou pessoa graças à existência do segundo seja de pessoas ou de coisas. Alguém só pode falar num primeiro filho se/quando houver um segundo; ainda que o primeiro nada mais exista (por ter morrido, por exemplo)


O primeiro nada seria se não existisse o segundo.

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Os primeiros textos sobre as origens medievais das feiras brasileiras e sobre a Feira de São Joaquim foram extraídos diretamente de um documento da minha autoria, Vicente Deocleciano MOREIRA, o Laudo Antropológico da Feira de São Joaquim – peça integrante do processo de Tombamento dessa feira, localizada em Salvador – Bahia, como Patrimônio da Cultura Imaterial. Sua referência é: MOREIRA, Vicente Deocleciano – LAUDO ANTROPOLÓGICO DA FEIRA DE SÃO JOAQUIM – SALVADOR – BAHIA. Brasília – DF, República Federativa do Brasil, Ministério da Cultura, Fundação Cultural Palmares, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, janeiro de 2005.
Vicente Deocleciano Moreira
vicentedeocleciano@yahoo.com.br
vicenmtedeocleciano@gmail.com

ORIGENS MEDIEVAIS DAS FEIRAS BRASILEIRAS


“A palavra feira vem de féria que pode significar tanto período de descanso (ou ócio), como período de trabalho (ou negação do ócio, ou seja, negócio), como também festa. Quando é o povo que traça e padroniza, a seu modo, uma feira - a Feira de São Joaquim, por exemplo - toda a feira torna-se uma festa; a padronizada violência de barracas com paredes e teto de plástico, nada tem de festa, é impessoal. Feira é festa: em muitas cidades do interior, o dia da feira é praticamente um feriado: escolas, serviços não funcionam. Em Salvador (e em outras cidades), toda festa de largo é sempre uma feira de largo: vende-se de tudo!

Fazer feira, para muitos, só é possível quando não se está trabalhando (férias); mas, para o feirante, todo dia de feira é dia de trabalho.

Na mitologia judaico-cristã de criação do Mundo, de corte lingüístico lusófono, a segunda-feira (ou segunda-féria ou, ainda. segunda-festa) significa o segundo dia da tarefa de Deus em criar o Mundo; a terça-feira, o terceiro dia... e assim por diante.

Em meio às diversas formas de organização econômica na Idade Média européia principalmente em Portugal, as feiras se configuraram um importante renascimento comercial, no cenário econômico do continente, por quatro razões básicas:

1) A expansão da economia e religião islamitas, a partir do século XI, trouxe graves prejuízos para as relações econômicas entre Ocidente e Oriente e impregnou de desânimo a economia marítimo-comercial da Europa e do Ocidente em geral. As dificuldades na navegação econômica deixaram a terra firme como alternativa importante para a retomada do crescimento econômico, daí que as feiras passaram a representar um novo ânimo - "uma luz no .fim.do túnel", como diríamos hoje - na sonolenta economia européia de então. As feiras, nas bases arqueológicas de seus saberes e odores e nas suas origens culturais, econômicas, históricas e sociais, eram dependentes das verduras, legumes, frutas, raízes ... que se podiam plantar/colher/trocar (agricultura) e dos animais que se podia criar/engordar/montar/abater/trocar (pecuária) em terras firmes; não apenas firmes mas também mais próximas e de acesso menos desconfortável (a pé, e através de animais e de veículos de tração animal) do que os longínquos continentes onde só se chegava (e de onde se voltava) depois de meses de desgastes e perigos na insegurança dos mares e das embarcações.

2) As feiras se constituíam um locus privilegiado não apenas, da troca de produtos agrícolas, pecuários. Trocavam-se igualmente, bens simbólicos sacro-profanos - e, no geral, culturais - entre os camponeses e os habitantes dos burgos, vilas ou qualquer outra forma de aglomeração urbana, mais próximas, mais distantes. Apresentavam-se jograis, cantava-se, pelejava-se, vendiam-se livretos pendurados em cordas (que nos legaram a chamada literatura de cordel). As feiras constituíam também, um ponto importante da estratégia em tática geo-política religiosa/militar; afinal, elas estavam protegidas sob as bênçãos do deus cristão e do patrocínio político, econômico e ideológico de Deus e de César: da Igreja Católica e seus padres, e da política e economia e seus comerciantes. Diante da ameaça religiosa, política e econômica de Alá, havia poucas respostas melhores e menos bélicas do que a administração e controle do funcionamento de uma feira erigida na geografia de uma determinada freguesia, sob o olhar poderoso de um orago, de um santo católico e protetor, e sobre as bases de uma nova sociedade.

3) Tem qualidades inestimáveis essa. nova socialidade, atualizada no tem qualidades cotidiano da mistura digerível, digesta e festiva entre carnes e batatas, sensualidade e orações, e praticada entre os limites nada rigorosos entre freguesias.

3.1 Ela é um das mais importantes heranças antropológicas (teoria, temática, epistemologia, metodologia e pesquisa-de-campo) que as feiras medievais européias legaram às chamadas feiras livres brasileiras (notadamente as norte/nordestinas) da contemporaneidade (São Joaquim, Caruaru, Ver-o-Peso e outras). Em Salvador, por exemplo, devido às mudanças operadas no Carnaval baiano (desde a algum tempo cada vez mais business turístico que festa popular) a Feira de São Joaquim - bem mais que as festas de largo e seu caráter anual - é o espaço por excelência onde é possível encontrar, todo (santo) dia, a cara (negra, étnica, lingüística, religiosa ...) de Salvador.

3.2 A socialidade em movimento nas feiras medievais possibilitou a formação de um esprit de corps católico e sensível ao peso das mãos (políticas) da respectiva Igreja e do pulso normativo do Estado e dos proprietários. Dirigir-se à feira, estar na feira e voltar da feira eram situações diferentes em que as pessoas estavam sob as mesmas formas de proteção: a conductus (outorgada pelo senhor territorial) e a custodes nundinarum praticada por guardas especiais que fiscalizavam as transações comerciais e o policiamento das feiras. A Igreja Católica tolerava inclusive os empréstimos com juros, chamados pejorativamente, então, de usura, e hoje de agiotagem. No mundo violento e inseguro das grandes e pequenas cidades de nossos dias, as feiras livres ainda são um espaço de paz e de festa dionisíaca (diferente da festa apolínea dos supermercados e shopping centers da contemporaneidade). Mas, na Europa medieval as redes de relações sociais não eram suficientes (em suas dimensões concretas e abstratas) para inspirar a paz nas feiras; símbolos como a cruz eram instalados na feira e reforçavam tal propósito. A cruz, na feira, era a encarnação da paz e do perdão ainda que provisório: não podiam ser perseguidos, indo à feira, na feira e retomando da feira, devedores, fiadores e até mesmo homicidas desde que o tivessem sido_oito dias antes e até oito dias depois da feira.

4 - A complexa rede de relações sociais e econômicas e de mostras e trocas culturais construídas pelas feiras possibilitou a construção, em tomo de um santo padroeiro, de povoados, vilas e cidades - um fenômeno herdado pelo Brasil Colonial. No caso específico da Bahia, depois das primitivas e itinerantes feiras - pontos nômades de escambo mais exatamente - engendradas pela comitiva de Tomé de Souza nas partes alta e baixa da recém-fundada Salvador, temos o registro da primeira feira (1614): Santo Antônio do Capuame, (depois Feira Velha e, posteriormente, Dias D'Avila) cuja importância é superada pela Feira de Nossa Senhora Santana dos Olhos D'Água, a conhecida Feira de Santana. Neste último caso, um clero católico, forte, um padroado bastante influente e aceito pelos fiéis e comerciantes poderosos possibilitaram a permanência do nome da santa (Sant' Ana) na cidade mesmo quando, na década de 70 do século XX, a feira (que batizou a vila, povoado e a cidade) foi extinta por Decreto Municipal. No Capuame, a família Ávila foi mais forte que o santo.

Desde a Europa medieval, principalmente no renascimento comercial (século XI), as feiras estiveram ligadas aos períodos de romaria e de outras festividades religiosas católicas. Peregrinos oriundos das mais distantes regiões traziam não apenas a fé, imagens e cânticos religiosos, mas também mercadorias (produtos agrícolas excedentes, artesanato e bens culturalmente identitários) que, na maior parte dos casos eram trocados por outras mercadorias (raras, faltantes ou exóticas...). Todos reunidos num mesmo local, num mesmo centro de trocas (a feira),que também vendia lembranças e objetos sagrados. Essas feiras duravam enquanto durasse a permanência dos peregrinos que era condicionada pelo final do evento religioso. Mas há que se registrar também, as feiras cuja vida e vitalidade estavam condicionadas às festas da igreja católica a exemplo da Páscoa, Nascimento de Maria, Corpus Christi, São Pedro... e que deram origem no Brasil às quermesses - as quais tanto quanto aquelas eram desmontadas quando a festividade chegava ao fim.”

(AMANHÃ, TERÇA FEIRA (ou terceira féria), TEXTO SOBRE A FEIRA DE SÃO JOAQUIM – SALVADOR)























PERDA IRREPARÁVEL PARA A CULTURA BRASILEIRA

PERDA IRREPARÁVEL PARA A CULTURA BRASILEIRA

JOSÉ MINDLIN MORREU ONTEM (95 ANOS) EM SÃO PAULO.
Desde 9 de janeiro, José Mindlin estava internado no Hospital Albert Einstein (capital paulista) onde faleceu na manhã de ontem por falência múltipla dos órgãos. Membro da Academia Brasileira de Letras, doou em 2006 cerca de 40 mil livros de sua biblioteca particular à Universidade de São Paulo (USP)