domingo, 21 de abril de 2013

PEDRO AGOSTINHO - Boletim - MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA

Este número do Boletim Informativo do Museu de Arqueologia e Etnologia é inteiramente dedicado ao Professor Pedro Manuel Agostinha da Silva, fundador desta instituição universitária. A vida e a obra de Pedro Agostinho, homem de indiscutíveis méritos acadêmicos, são aqui revistas por alguns de seus companheiros de trajetória (Consuelo Pondé, Olympio Serra, Ordep Serra, Carlos Caroso, ) numa reunião de depoimentos que dão testemunho veraz do quão sua ação foi importante Cláudio Pereira na vida política e social baiana, e, em especial, no campo da etnologia indígena e do indigenismo. Afirma-se aqui ademais, e em definitivo, quão crucial foi sua presença para o desenvolvimento de uma antropologia  baiana sólida, e com expressão dentro da antropologia brasileira. São achegas, que esperamos, possam um dia se juntar a um honesto reconhecimento do papel crucial de Pedro Agostinho, e de seu legado,
na Universidade Federal da Bahia nas últimas décadas.
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Edição especial sobre Pedro Agostinho.
Editor: Cláudio Luiz Pereira  Salvador | abr/mai de 2013 | Informativo bimestral | Número 4 | Ano 1 | www.mae.ufba.br
Foto: Pedro Agostinho/ Ilustração: MAE
As mudanças socioambientais nos levam a rememorações que não imaginávamos ocorrerem. As atividades comuns em relação a povos indígenas são obvias. Outras, ainda são redutos dos arquivospessoais recônditos. Minha vizinhança no povoado de Velha Boipeba, Cairu, era um estaleiro de excelente construtor de barcos.

Hoje, o estaleiro se transformou em pousada e botequim. Tais acontecimentos me levaram a relembrar,dentre os muitos trabalhos em comum, a inestimável contribuição de Pedro Agostinho da Silva para  repensarmos o patrimônio cultural naval do Brasil, assunto que já merecia a sua atenção desde o Recôncavo (1). A nossa iniciativa   resultou na criação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a ARCHENAVE (Comissão de Arqueologia História e Etnografia Naval), encarregada de promover a pesquisa e o estímulo à consciência social e estatal para com um dos patrimônios arqueológicos e etnográficos mais extensos do Brasil. Pedro Agostinho Silvacompunha a referida Comissão e, nela, propôs um projeto de criação de Centros de Estudos do patrimônio cultural naval em todas as regiões do País, levando em conta os 8.500 Kms da costa atlântica e a maior rede hidrográfica do mundo – o primeiro dos centros dessa proposta foi instalado no Forte de São Marcelo, Salvador, Bahia. Nossas iniciativas ruíram muito cedo e, alémde uma publicação sobre o tema (2),  tudo o mais foi para no nosso baú de fracassos. Espero que herdeiros remexam o baú e levem adiante nossas propostas d’antanho.

Navegar é preciso.

A trejetória ímpar de Pedro Agostinho o tornou um Mestre de muitos méritos. Como professor presentou capacidade única de atrair estudantes, levando-os a sonhar com um mundo do detalhe etnográfico e estimulando seus interesses pela antropologia. Suas aulas sempre foram recheadas de informações de todos os tipos, sempre apaixonadas por cada palavra que proferia com seu sotaque lisboeta, mesmo distante de seu país de origem desde a infância.

Ao reconhecer seus incontáveis méritos e prestar-lhe mais uma homenagem, o  MAE prazerosamente cumpre um de seus papéis como casa de boas memórias e valorização do patrimônio cultural. Pedro Agostinho, juntamente com outros contemporâneos, teve papel  fundamental na implantação deste Museu e na constituição de seu patrimônio. Os objetos da cultura material Kamayurá incorporados aos acervos do MAE foram coletados e doados a esta instituição por esse professor que, não só participou intensamente da concepção deste museu, como de sua qualificação e montagem de exposições. Se não fosse bastante este gesto de desprendimento ao doar toda uma coleção adquirida com seus próprios recursos, alguns dos objetos arqueológicos que compõem o acervo resultaram de seu trabalho e de seus alunos.

Redescobriu e estimulou seus estudantes a perseguirem pistas as mais diversas sobre as populações indígenas na nBahia, contribuindo para redesenhar o mapa dos povos indígenas no Estado. Atuou na defesa e promoção desses povos em todos os âmbitos, vindo a ser o mais influente de seus porta-vozes, respeitando e defendendo seus direitos às terras que ancestralmente habitavam, autonomia e autodeterminação.

No momento em que comemora 30 anos de sua fundação, instalado no sítio que representa os mais claros preservados vestígios arquitetônicos do Colégio dos Jesuítas que completa 460 anos de resistência às intempéries e demolições, e, no mês em que se comemora o Abril Indígena, o MAE, por dever e justiça homenageia este emérito mestre que se associa a sua própria história. Deve-lhe o Departamento de Antropologia o merecido título de Professor Emérito, há muito aprovado por seu plenário.


Prof. Carlos Caroso
Departamento de Antropologia e Etnologia da UFBAe Diretor doMAE

Ficha Técnica
Editorial
Velho Marinheiro
MAE/UFBA
Direção
Carlos Caroso
Museólogo
Antônio Marcos Passos

Conservadoras
Mara Lúcia C. Vasconcellos (Restauradora)
Celina Santana (Técnica de Restauração)
Corpo Funcional
Geovane Hilário da Silva (Eletricista)
Helio Cerqueira Sousa (Porteiro)
Alice Gomes (Assistente de Administração)
Izania Santos (Assistente de Administração)
Regina Lemos (Secretária Administrativa)
Corpo Técnico de Nível Superior
Gustavo Wagner (Prof. Dr. em Arqueologia)
Estudantes Bolsistas
Anne Alencar (Ciências Sociais)
Hildelita Marques (Museologia)
Maiara Dias (Ciências Sociais)
Mauricéia Santos (Museologia)
Tamires Pacheco (Museologia)

Redação
Alice Meira Gomes
Antônio Marcos Passos
Celina Santana
Mara Lúcia C. Vasconcellos

Diagramação
Alice Meira Gomes
Funcionamento: Segunda à sexta, das 09h às 17h.
Terreiro de Jesus, s/n, Prédio da Faculdade de
Medicina da Bahia - Pelourinho. 40025-010.
Salvador-BA. Tel.: 71 3283-5530
mae@ufba.br | www.mae.ufba.br
Por Olímpio Serra, antropólogo
| abr/mai de 2013 |
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Um mestre de muitos méritos
Banco Ornitomorfo

Coleção: Pedro Agostinho
Origem: Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso
Material: Madeira

O objeto foi talhado em um só bloco de madeira, representando um animal bípede, da categoria das aves, levemente ovalado, tendo como base dois trilhos sem prolongamento. O assento termina nas duas extremidades com duas cabeças e um rabo. Como recurso decorativo, tem a presença de pinturas na cor preta do tipo grafismo. Pode também ser consideradocomo decoração própria, devido à forma do objeto.

Pente Singelo de Duas Hastes
Coleção: Pedro Agostinho
Origem: Tribo Karajá, Parque Nacional Araguaia/Tocantins
Material: Piaçava, fibra vegetal.

O objeto caracteriza-se por ser usado no toucador, constituído por duas barras transversais, sendo que uma é formada por hastes de madeira (superior) e a outra é formada pelo arremate de fios de palha (fibra vegetal), dado segundo a técnica do contratorcido combinando que é um trabalho em trama, uma torção executada em movimento unificado com o uso de quatro fios, que depois de pronto, apresenta a forma de trança. Entre as barras se inserem lascas de piaçava paralelas fixadas pela entremação de fios de palha (fibra vegetal) pela técnica do trançado do tipo entretecido sarjado, correspondendo no trançado, à técnica de entrecruzar.

A produção de Pedro Agostinho é vasta: 38 artigos completos publicados em periódicos especializados, 24 capítulos de livros, 13 artigos em jornais e revistas, 3trabalhos completos publicados em Anais, além de 7 livros, abaixo
relacionados.

Livros de Pedro Agostinho

EMBARCAÇÕES DO RECÔNCA VO: UM ESTUDO DAS ORIGENS. SALVADOR: OITI EDITORA, 2012. 160 p.

AGOSTINHO DA SI LVA - PENSAMENTO À SOLTA (UM MANUSCRITO AUTÓGRAFO).NOTA   INTRODUTÓRIA : CRITÉRIOS , MÉTODO E PROBLEMAS NA FIXAÇÃO DO TEXTO. SALVADOR: FUNDAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA, 2002.

IMAGEM E PEREGRINACAO NA CULTURA CRISTA. UM ESBOCOINTRODUTORIO. SALVADOR: UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 1985. 41p .

COMIDA E PRESENTES EM T EMPO D E PA S S AGEM. ANIVERSARIOS DE CRIANCA EM SALVADOR, BAHIA . SALVADOR: UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 1983. 102p .

KUARIP, MITO E RITUAL NO ALTO XINGU. SAO PAULO: ED. PEDAGOGICA E UNIVERSITARI A/UNIVERSIDADE DE SAO PAULO, 1974. 205p .

MITOS E OUTRAS NARRATIVAS
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Peças da coleção Pedro Agostinho em Destaque
Bibliografia de Pedro Agostinho
K AMAY U R A . S A LVA DOR : UNIVERSIDADE FEDERAL DA
BAHIA, 1974. 190p .

EMBARCAÇÕES DO RECONCA VO.UM ESTUDO DE ORIGENS.
S A LVA D O R : MU S E U
D O ESTADO, 1973. 46p .
. .
Por Cláudio Luiz Pereira
| abr/mai de 2013 |
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Como se faz um antropólogo? A resposta é simples: através de um aprendizado antropológico, que pode ser curto ou longo, superficial ou profundo, profuso ou difuso, dependendo muito de uma dedicação pessoal incansável, e, sobretudo, de quem o candidato vai se aproximar no correr de sua carreira profissional.

Para mim o gosto pela antropologia veio de um impulso interior inexplicável, porém tornar-me antropólogo foi um trabalho árduo, que dependeu, quase sempre, de muitas coisas terríveis e complicadas na vida acadêmica, para a qual nunca me senti com vocação. Por isso mesmo ter encontrado Pedro Agostinho, lá no começo dos anos 80, no Museu de Arqueologia eEtnologia da UFBa foi capital para minha formação, jovem fascinado por essa obscura coisa que se chama antropologia.

Já aí, a figura | abr/mai de 2013 |   de Pedro reunia qualidades admiráveis e espantosas, bem de acordo com os heróis fundadores da nossa disciplina.

Pedro Agostinho para mim é um dos últimos românticos da antropologia brasileira. Foi um personagem heróico num tempo em que cada vez mais as personalidades se burocratizavam. Com o “rigor da disciplina”, imersa em currículosacadêmicos tacanhos, os carismáticos profetas de inolvidáveis acertos foram substituídos por sacerdotes medíocres cheios de erros solenes e bizarros. A empáfia desta gente, aliás, ainda se sustenta por sob pedestais vazios de cátedras que nada ensinam, ou quase nada. Formam apenas igrejinhas onde não se reza pra santo algum.

No melhor da minha memória Pedro aparece trajando o habitus da disciplina. Cabelo esvoaçado pelo vento, barba branca cheia, colete caqui por sobre a roupa, caderneta de campo em um dos bolsos, esferográficas a mão cheia, observando tudo, atento com umolhar inquisidor, escutando cuidadosamente seus informantes. E ai abstraia coisas em conversas deliciosas, e com elas construía estruturas no ar, movidas por ousados moinhos de ventos teóricos: coisas que só os antropólogos fazem, quando são verdadeiramente antropólogos.

Pedro sempre foi um sujeito inquieto intelectualmente, e, além de tudo, mantinha um raro senso de justiça. Fora disso, era um técnico dentro da técnica (...e um louco fora dela, como escreveu o célebre poeta português), empenhado em formar novos intelectuais, eu e tantos outros que tivemos a sorte de conhecê-lo na universidade e dele se aproximar.

Simplesmente Pedro
Por: Cláudio Luiz Pereira*
Rosinha entre os Kamayurá
| abr/mai de 2013 |
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Na minha memória avultam inúmeros gestos de solidariedade desinteressada dele. Pedro era quase um franciscano que respeitava seu voto de pobreza. Não raro, semanifestava austero quanto qualquer dispêndio excessivo e desnecessário.

Não se tornou rico, num tempo em que mesmo os antropólogos tornam-se endinheirados. Pedro como o próprio pai era Agostinho. Cresceu num mundo peculiar, cheio de narrativas e argumentos, daqui e além mar.

Cheio de livros e cartas de um pai que pregava um humanismo moderno para seres humanos reais. Como menino, Pedro era cioso de aventuras. Como antropólogo, sempre foi um militante em defesado homem, não um homem abstrato, mas aquele real e concreto, abandonado injustamente numa terra devastada. Humanista belicoso, Pedro era um menino versado nas artes da guerra.
Sua pasta de contenciosos, da qual ele falava com orgulho, era enorme: brigou contra o poder instituído e seus mandatários tacanhos, inclusive reitores da nossa própria universidade. Brigou, também, contra latifundiários e a favor dos oprimidos, defendeu direitos imemoriais, frutificou a emergência de povos indígenas baianos, ensejou tribunas de modo a dar voz a povos antes subalternos. Pedro é, sem dúvida, o artífice de toda etnologia indígena baiana contemporânea.

Fascinado pelo indigenismo foi ao Xingu nos anos 60, orientado por outro antropólogo carismático, que era Eduardo Galvão. Pedro, inclusive, me tratava como “Crôudio”, como ele dizia que os índios chamavam meu xará dos Villas-
Bôas. “Crôudio...” assim começava ele, e eis que agora passa na minha cabeças os muitos casos contados no fim da tarde no MAEUFBa.

Uma vez me contou a história da revista Veja que ele levou ao Xingu, e que documentava a chegada do homem a lua. A revista funcionou como uma prova
de que a mitologia indígena esta correta quanto a ordem do mundo, tornando-se objeto de um grande capital simbólico, circulando por todas as tribos. Outra vez ele me contou que ele e Rosa, sua inseparável companheira, uma das mais importantes lingüistas brasileiras, voltavam de uma viagem ao Xingu, às pressas, para pegar um avião para retornar a Brasília. Disse queo fusquinha derrapou e caiu numa vala lateral a estrada. Saíram docarro e Rosa dizia “Só um milagre nos Salva! Só um milagre nos faz pegar o avião”. Em seguida, viramaproximar-se uma Kombi, de onde saltam oito halterofilistas que iam a um concurso, que pegaram o fusquinha na “unha”, como explicouele, e puseram de volta na pista. E teve ainda o caso das muitas baratas selvagens que ele comeu durante as refeições noturnas “Você pegava o peixe, botava na boca, e quando sentia um “crack e um gosto salgadinho...”.

Pedro era assim, um feixe de narrativas divertidas contadas com eloqüência inigualável.Pedro era assim mesmo: esse êre-luso, demiurgo mirim, um espírito jovial em busca de sua gaia ciência.

Não posso esquecer, ademais, que foi através de Pedro que publiquei meu primeiro artigo antropológico. Foi na Revista “Índio na Bahia”, publicada pela FCEBA, e era sobre os índios tuxás, que então viviam acossados pela construção da Barragem de Itaparica. Neste mesmo ano, aliás, junto com Gustavo Falcón, fiz um interessante entrevista com Pedro, publicada na Revista da Bahia. Pedro era assim, um homem que facultava oportunidades aos neófitos.

Os antropólogos sabem quão zelosos devem ser com suas filiações intelectuais. A antropologia, como uma aldeia utópica formada por uma gente antropofágica, obrigatoriamente observa um respeitoso culto aqueles que representam seu espírito de grandeza e sua estrita disciplina científica, já que é isto que a faz tão incisiva socialmente, bem como tão árdua pessoalmente. Para mim, por tudo isso, Pedro tem, indiscutivelmente, lugar garantido no nosso panteão maior dos ícones da antropologia brasileira.
*Antropólogo CEAO/FFCH/UFBA
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Pedro Agostinho da Silva foi, com toda a certeza, um dos mais importantes antropólogos brasileiros de sua geração. Na história da antropologia no Brasil muito poucos foram os que tiveram, como ele, um trabalho inaugural, muito poucos os que abriram novos campos de pesquisa e fizeram ampliar-se, deste modo, o espaço de reflexão em nossa disciplina. No horizonte das pesquisas etnológicas sobre   indigenato brasileiro, na grandiosa construção da nossa etnologia dos povos indígenas, pode-se falar em um “antes” e um “depois” de Pedro Agostinho. Antes dele, havia uma lacuna considerável, que pode ser encontrada até mesmo em obras de alguns dos nossos mais notáveis antropólogos, nomes marcantes, “estrelas” desse mesmo domínio etnológico: a lacuna sombria representada pelo vasto desconhecimento e até mesmo pela denegação dos índios do Nordeste brasileiro, que até autoridades das mais respeitáveis davam como extintos ou em vias de extinção. Pedro Agostinho foi pioneiro como pesquisador e formador de pesquisadores, acrescentando de forma direta e indireta um valioso cabedal de conhecimento que teve repercussões na elaboração teórica sobre os índios do Brasil. Ele fez isso ao compasso de um outro trabalho muito importante e muito frutífero: semeou antropólogos, que formou, orientou e treinou em campo, que estimulou e encaminhou na disciplina. Produziu uma bela safra de doutores, de estudiosos muito respeitados em todo o país. Foi, por longo tempo uma das colunas principais do nosso Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. Mas também antes disso, ainda na UnB, teve uma participação muito importante no antigo Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, fundado por seu pai, Agostinho da Silva, ajudando a constituir uma valiosa biblioteca e a promover estudos de grande importância.

Desde essa época, Pedro Agostinho se empenhou em pesquisas historiográficas e antropológicas de peso e teve papel decisivo na formação de
antropólogos. Lembro-me bem dos ricos seminários do efêmero Centro de Estudos Indígenas que ele mesmo criou em Brasília; aí tive a minha primeira aproximação com a antropologia, assim como aconteceu com Rafael Bastos, por exemplo: ele nos atraiu, a ambos, para esta disciplina, foi responsável por nosso engajamento nela. Em Brasília, no CEI, Pedro foi o primeiro a promover
uma discussão sistemática sobre a Antropologia Estrutural de Claude Lévi-Strauss.

Ao mesmo tempo, ao lado de Olympio Serra e de outros, já desde o começo de   sua carreira ele se empenhou de modo tenaz nas lutas em defesa dos direitos dos povos indígenas do Brasil, lutas em que se mostrou incansável combatente: colaborou com a floração de campanhas em favor do indigenato tanto em Brasília como no Rio de Janeiro e em Salvador, onde foi o principal inspirador e um dos fundadores da ANAÍ-BAHIA. Deu um exemplo magnífico ao associar de forma inseparável a criação de conhecimento, o ensino lúcido e a preocupação ética, a atuação política no melhor sentido: marcou sua carreira a busca de justiça, a pregação e o exercício da cidadania, com uma dedicação
apaixonada a um segmento ainda hoje marginalizado e maltratado de nossa sociedade.

Pedro Agostinho abriu picadas em mais de um terreno. Não foi apenas o grande iniciador dos estudos sistemáticos dos índios do Nordeste Brasileiro. Escreveu um clássico da etnologia sobre os povos do Xingu, seu magnífico Kwaryp, um livro até hoje marcante, indispensável ao especialistas nessa área, e fez um estudo pioneiro sobre as velas do Recôncavo, por exemplo. Seu trabalho incansável no sentido de preservar a herança de Calderón e seu empenho em fomentar o interesse pela pesquisa arqueológica foram decisivos para a UFBA e para a Bahia: sem ele, nada teríamos nesse domínio.

O Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia em grande medida lhe deve a existência e a permanência. Ele o enriqueceu com uma valiosa coleção e foi por longo tempo sua coluna mestra. Por isso e por muito mais merece da UFBA, da Bahia e do Brasil todas as homenagens.


Nota breve sobre Pedro Agostinho da Silva
Por Ordep Serra*
*Antropólogo, Professor aposentado do Departamento de
Antropologia e etnologia da UFBA.
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Nunca se pode prever o que o destino nos reserva. Muito menos admitir que a adversidade possua a sutileza de sustentar determinadas amizades. Dizia meu pai com sua proverbial sabedoria: “A prosperidade granjeia amigos, a adversidade experimenta-os”.

Tal condição tem-se confirmado ao longo da vida de cada ser humano, quando se lhe anuvia o impressentido torpor. O ser humano é imperfeito e, com o correr dos tempos, ao afastamento natural das pessoas, por esse ou aquele motivo, sobrevêm o esquecimento.

Assim ocorre com os que passam a experimentar o isolamento, a vontade subtraída, os desejos mortos, para mergulhar no mundo das sombras, sem que possa nutrir qualquer esperança, tolhido pela pungente mordaça do insondável.Aí então, as ambições são esquecidas, os conhecimentos se esmaecem, a vontade deixa espaço para que a tranqüilidade se instale de maneira irreversível. Não lhe doem mais as ofensas, nem lhe causam mágoa as dores do mundo. Apagam-se as paixões, desaparecem as desavenças, sepultam-se os medos.

Mas, a amizade verdadeira continua, sem anuviar a nossa lembrança, sem toldar o sentimento de fraternidade, acompanhando os passos daqueles que estimamos, cega a todos os obstáculos que impedem a comunicação entre pessoas que se ligam desinteressadamente, unidos apenas pelos laços da solidariedade, do companheirismo, da sintonia de interesses, das afinidades. Nada de fraqueza, de engano, de estremecimento, mas a sensação de estar praticando a cortesia, exercitando a caridade no seu sentido mais amplo, que se traduz em benevolência, bondade, comiseração e amor.

Foi com esse sentimento de estima e admiração pessoal que me dispus a escrever sobre Pedro Agostinho da Silva, contemporâneo das lides universitárias, colega e companheiro do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba, amigo sempre.

Sobre ele, estudante ainda, escutei o Prof. José Calasans afirmar categórico ser o mais brilhante dos seus discípulos, aquele que intuía sobre o que o Mestre ainda deveria anunciar. Entretanto, não foi na Bahia que Pedro concluiu o Curso de História, mas na Universidade Federal Fluminense, em 1962. Em Brasília, na UNB, fez o mestrado de Antropologia, finalizado
em 1968, e transferiu-se para a Bahia, passando a atuar, como docente, e no Departamento de Antropologia e Etnologia da UFBA. Especializou-se em Antropologia,com ênfase no Simbolismo e Ritual, preocupando-se fundamentalmente com os estudos etnológicos e a política indigenista. Sua monografia de mestrado intitula-se: Kwarip, festa dos mortos. Índios Kamayurá, Alto Xingu, e foi orientada pelo professor Eduardo Galvão. Convivemos durante muito tempo, o suficiente para avaliar a bravura do seu espírito e a disposição para enfrentar a luta. Por seu intermédio conheci dois ilustres intelectuais portugueses, ambos amigos de seu pai, o inesquecível professor e intelectual lusitano, George Agostinho da Silva. Foram eles: Fernando de Pamplona e Manoel Viegas Guerreiro, o primeiro, voltado para o estudo das Artes, o segundo, antropólogo e humanista, estudioso povos boshimanes e cultor da literatura oral de expressão popular, com os quais tive valiosa e enriquecedora aproximação.

Pedro Agostinho da Silva manteve sempre intensa atividade em vários Conselhos da Universidade. Em 1998 ajudou a instalar o Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba. Lecionou, durante muitos anos na graduação e no mestrado em Ciências Sociais. As disciplinas por ele ministradas foram: Antropologia das Sociedades Indígenas-Contato Interétnico, Sociedades Camponesas – Economia, Pesquisa Orientada, Etnoarqueologia.
Alcançou tanto prestigio profissional que enorme foi a sua atuação nos Cursos de


Pedro Agostinho, um grande amigo
Por Consuelo Pondé de Sena*
| abr/mai de 2013 |
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Foto de Kamayurá tirada por Pedro Agostinho (Acervo MAE)
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Extensão Universitária. Recebeu inúmeros prêmios e títulos, a exemplo da Ordem Militar de Santiago da Espada (Ciências, Letras e Artes), noGrau de Comendador, Presidência da República Portuguesa- Mestrado da Ordem de Santiago (1994), tendo anteriormente recebido: Medalha de Valor – Prata, União dos Escoteiros do Brasil (1959), Prêmio Grande Concurso Escolar (âmbito nacional), e medalha comemorativa do Primeiro Vôo do mais Pesado que o Ar, Ministério da Aeronáutica do Brasil. Participou de inúmeras bancas de Mestrado, Conclusão de curso de graduação e foi professor orientador de várias teses de mestrado. Autor de muitos artigos científicos, dentre os quais: “Limitações de uma guerra sertaneja: reflexão sobre aspectos militares do Contestado. Argumentos” – Revista Semestral do CRH, Salvador, 2003; “Agostinho da Silva – um pensamento vivo“. Quinto Império Revista de Cultura e Literaturas da Língua Portuguesa, Salvador, v. 14, p25-37, 201; “Império e Cavalaria na Guerra do Contestado. Stilus, Faro, Portugal, v.3, n.139, p139-167, 2001; “Agostinho da Silva: Pressupostos, Concepção e Ação de Uma Política Externa do Brasil Com Relação A África”. Boletim da Associação Agostinho da Silva, Lisboa, 2001. Aqui não se esgotam os frutos doseu trabalho, mas devo limitar-me apenas a alguns aspetos do seu currículo. Outros colegas o farão melhor e mais amplamente e melhor.

Também escreveu e organizou alguns livros, dentre os quais assinalo: “Agostinho da Silva – Pensamento à solta (um manuscrito autógrafo) Nota introdutória: critérios, método e problemas na fixaçãodo texto”, Fundação Agostinho da Silva, 202; “Imagem e Peregrinação Na Cultura Cristã. Um Esboço Introdutório. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1985, 41 p; “Comida e Presentes Em Tempo de Passagem”. Aniversários de Criança em Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1983. 102 p.; “Embarcações do Recôncavo. Um estudo de Origens. Salvador: Museu do Estado. Este livro foi reeditado, no ano pela OAS Empreendimentos, numa edição primorosa de 2010.

Pedro Agostinho da Silva foi um Mestre na melhor extensão da palavra, desses que estimulam os discípulos ao conhecimento e lhes apresentam as trilhas a serem percorridas. Dedicou-se à
Universidade Federal da Bahia de 1971 até 2007.

Muito mais poderia ele contribuir, com sua inteligência e amor ao saber, para as Culturas brasileira e portuguesa.

Todavia, as tramas do destino não o permitiram, sem que se saiba porque tantas inteligência vivas e lúcidas mergulham inteiramente nas brenhas da adversidade. A fonte de Pedro Agostinho secou antes do tempo. Sempre imagino o quanto ainda poderia dar de contribuição à Antropologia, aos estudos indígenas e à defesa desses povos espoliados, emnosso país, na terra que habitavam há mais de quinhentos anos. Era como se Pedro quisesse recompensá-los pela perda do paraíso em que habitavam, desde quando os portugueses passaram a ocupar a América Portuguesa. Com Pedro, tinha eu afinidade pelo estudo dos povos Tupis, ele conhecedor profundo dos Kamaiurá, que estudou apaixonadamente, durante sua experiência, como antropólogo, no Xingu. Eu, pelo gosto pelo estudo da língua tupi, conhecimento alimentado pelo Prof. Frederico Edelweiss, de quem herdei o ensino da disciplina e a lecionei durante 31 anos. Ele pelo amor acendrado aos povos indígenas do Brasil, que estudou e defendeu enquanto não lhe faleceram as forças.

Pedro foi um homem feliz, mesmo consideradas algumas limitações que se lhe impuseram, desde cedo, alguns problemas de saúde. Feliz pela esposa que escolheu, Rosa Virgínia Mattos e Silva, intelectual reconhecida pelos inegáveis méritos, feliz pelos filhos que ambos geraram: Olavo, Oriana, João Rodrigo e Lianora Mattos e Silva, dignos representantes de uma linhagem de escól.

Sedimentados pelo ideal comum, cada um na sua área de conhecimento, Rosa e Pedro viveram harmoniosamente, antes que o imprevisto houvesse interceptado suas caminhadas. A inteligência, a competência de Rosa, no conhecimento e domínio do d português antigo, nunca ameaçou a inteligência máscula do vibrante antropólogo Pedro. Diria que se completavam no interesse, na dedicação às tarefas que sempre cumpriam com responsabilidade e devoção.

Em todos nós, seus amigos, permanecem as lembranças de seus exemplos de vida, da nossa grande e contínua amizade, mesmo porque, um dia, na Vida de cada ser humano, tudo se converte em silêncio ...

*Presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e
Membro da Academia de Letras da Bahia
| abr/mai de 2013 |
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Pesquisador não identificado, Pedro Agostinho, Rosa Virgínia e Valentin Calderón

sábado, 20 de abril de 2013

MUITAS SECAS E POUCAS CHUVAS AQUI E ALI

Neste momento, centenas de ccidades e áreas rurais da região Nordeste (Brasil), estão amargando os dissabores da seca ... a mais cruel entre dois séculos.

Algumas pancadas de chuva porém, já começam a se anunciar em algumas cidades e em raríssimos espaços rurais.


Hoje, como todo o sábado, é dia de feira em muitas cidades nordestinas. E - triste/trágica ironia! - se a chuva é bemvinda como um bênção no campo  .. nas cidades ela atrapalha a feira

segunda-feira, 15 de abril de 2013

FCCV - A FORÇA DO BRAÇO AUSENTE

FCCV

Forum Comunitário
de Combate à Violência


Leitura de fatos violentos
publicados
pela midia

Ano 13, n. 4, 12/04/2013

Salvador - Bahia Brasil 



A FORÇA DO BRAÇO AUSENTE

De quem é a rua? Alguém pode responder a essa pergunta, assim: é de todo e qualquer cidadão! Outra pessoa pode complementar: é um espaço público! Mas, outro vai rebater: a rua é dos automóveis! Um terceiro pode contra-atacar: a rua é de quem pode mais!

Dividida entre potentes e impotentes, da rua tem sido retirada a abrangência, a ideia de espaço válido para todos. As calçadas, que devem ser lembradas como espaço que compõe as vias públicas e servem aos pedestres, têm funcionado como áreas para estacionamento e, muitas vezes, são lugares ocupados por ambulantes. A figura do pedestre é sucumbida às nesgas que separam bancas, carros e objetos não identificados que surgem no trânsito. E assim, cada vez mais andar a pé pelas nossas cidades é correr riscos.
O primeiro e quase infalível risco é de ser desrespeitado por todos os que portam capacidade motora superior à humana. Depois deste risco certeiro, a pessoa está exposta a toda sorte de “fatalidades” que vão da alta velocidade, passam pelas ultrapassagens em sinais vermelhos e pelas “roubadinhas” dos carros dirigidos na contramão. Muitas vezes, ao lado destas práticas ilegais, os condutores dos veículos falam ao celular e guiam em estado de embriaguez.
Se as coisas são assim, podemos constatar que rua não é de todos, embora necessitemos dela para viver em território urbano. Ela parece pertencer à grande velocidade e, vez  por outra, dá carona a um carro lento, a uma irresponsável bicicleta que decide levar a sério a faixa de ciclista.
Em plena madrugada de 10 de março de 2013, o jovem limpador de vidros, Davi Santos Souza pedala a sua bicicleta em direção ao seu trabalho e é atropelado por um carro na famosa Avenida Paulista. O motorista, Alex  Kozloff Siwek, estudante de psicologia, continua a viagem e quando chega ao destino descobre ter transportado um dos braços de Davi. Surpreendido, Alex vai a um córrego na Avenida Ricardo Jafet e joga o braço na água. Enquanto isso, Davi é socorrido por transeuntes que testemunharam o acidente. A equipe médica do hospital precisa do braço que fora decepado para reimplantá-lo. E é aí, neste ponto, que a história assume peculiaridade. Davi não é um atropelado qualquer, ele é aquele teve o braço “usurpado” por seu atropelador. É identificado midiaticamente pela imagem da falta de uma parte sua que fora subtraída como coisa imprestável, um bagulho que pode criar problema a quem o porta.
O desfalque do braço deu ao caso uma potencialidade a mais em comparação com os atropelados que mantêm seus membros, ainda que destroçados, reunidos sobre o asfalto. No rumor das ruas, nos papos cotidianos já foi incorporada a referência: vocês já viram o caso do braço do rapaz?
Separado do corpo, o braço se torna uma alavanca que faz movimentar a mídia e a opinião pública. A sensibilidade alcança o nível de força coletiva em forma de indignação. O braço ausente denuncia mais que a velocidade que deitou a bicicleta e Davi. Trata-se de uma falta que retira créditos do motorista do carro e os transfere ao ciclista atropelado, tornando nítidas as posições de vítima e de agressor. Perdido no córrego, o braço opera uma distinção crucial na percepção moral do acidente.

A triste história conquistou notoriedade maior que os acidentes de trânsito regularmente observados nas vias urbanas e estradas do País. Esta intensidade por parte da atenção midiática evidencia que a alta produção de acidentes dentro de padrões habituais consolidou-se como ocorrências básicas, afeitas a estatísticas e a notas miúdas nos meios de comunicação de massa. E assim, placidamente, como as águas dos rios, passam feridos e mortos às margens da mídia. Cabe, então, recordar que o comportamento do condutor ao atropelar Davi está dentro do modelo padrão. Talvez a embriaguez basilar não lhe tenha permitido desvencilhar-se do “objeto estranho” na zona de aproximação do corpo. Quem sabe ele estivesse fugindo, procedimento já clássico nestes episódios, e, na pressa, não pode devolver o braço ao corpo. E foi assim que a sua irresponsabilidade tornou-se visível. Espera-se que o motorista não pense que o seu “único erro” tenha sido um braço lançado às águas.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

POESIA.NET - A LIÇÃO DE PENÉLOPE

«E a poesia mais rica / é um sinal de menos.» (Drummond) *   ••• | •••   «A poesia verdadeira é a mais fingida.» (Shakespeare) **

Edna St. Vincent Millay
Edna St. Vincent Millay
 
Caros,


Já faz alguns anos que eu pensava em trazer para o poesia.net o trabalho da poeta americana Edna St. Vincent Millay (1892-1950). No entanto, a ideia não se concretizava. Um dos motivos para isso era — e ainda é — a escassa disponibilidade de poemas da autora traduzidos para o português.

Este boletim começou a tomar forma quando reuni dois textos de Edna Millay traduzidos, um por Carlos Drummond de Andrade e o outro por Paulo Mendes Campos. Saí à cata de outras versões e não obtive êxito. Depois, lembrei-me de que eu mesmo havia feito tentativas de traduzir alguns poemas dela. Revisei esses exercícios e passei a ter a matéria-prima para o boletim.
                      •o•      
Poeta e dramaturga, Edna St. Vincent Millay nasceu no Maine e foi a primeira mulher nos Estados Unidos a receber o Prêmio Pulitzer de poesia. Conhecida por sua obra literária, ela também ganhou notoriedade pelo estilo de vida anticonvencional e boêmio, além de suas diversas relações amorosas. Seu segundo nome não é de família. Trata-se de uma homenagem ao St. Vincent Hospital, em Nova York, que salvara a vida de um tio dela, pouco antes do nascimento da poeta.

Com duas irmãs mais novas, Edna foi criada pela mãe que, embora pobre, tinha apurado gosto pelos clássicos e lia para as filhas autores como Shakespeare e John Milton. Estudiosa de línguas e literatura, Edna publicou seu primeiro livro, Renascence and Other Poems, em 1917. Nesse ano, mudou-se para Nova York e passou a escrever peças de teatro. Com o pseudônimo de Nancy Boyd, também publicou contos.  Em 1920, saiu A Few Figs from Thistles, volume de poemas que conquistou muita atenção, devido às referências à sexualidade feminina — um escândalo para a época — e aos pontos de vista feministas. O Prêmio Pulitzer veio em 1923, por seu quarto livro de poesia, The Harp Weaver. 

Edna Millay, que era abertamente bissexual, casou-se em 1923 com o holandês Eugen Voissevain (1880-1949), empresário que se autoproclamava feminista. Foram viver numa mansão rural. Voissevain passou a atuar como administrador da carreira literária da esposa, organizando leituras e palestras para ela. Conforme relato da própria Edna, o casal vivia como se fossem dois solteiros, num “casamento aberto”. Ficaram juntos até a morte dele, em 1949. Ela morreria um ano depois.

Dona de beleza extraordinária, Edna St. Vincent Millay era uma pessoa engajada em causas políticas e sociais. Feminista, pacifista, simpatizante comunista. Em 1927, juntou-se a um grupo de intelectuais que pediam a absolvição de dois anarquistas acusados da morte de dois policiais em Massachusetts. Era o conhecido caso Sacco e Vanzetti. Os dois foram condenados e executados, e Millay acabou presa. Durante a Segunda Guerra Mundial, a poeta destacou-se como militante pacifista, levantando a voz contra o fascismo espanhol e o nazismo alemão.
                      •o•
Passemos à pequena amostra de poemas de Edna Millay apresentada neste boletim. Amor e morte são dois temas caros à poeta. Dos cinco poemas aqui apresentados, somente dois não fazem referência direta a esses temas. O soneto “O amor não é tudo”, na versão de Paulo Mendes Campos, trata das peripécias do relacionamento amoroso.

Em “Canto Fúnebre sem Música”, vertido para o português por Carlos Drummond de Andrade,  ela declara sua inconformidade com a morte de pessoas queridas. “É assim, assim há de ser, pois assim tem sido desde tempos imemoriais”, diz o texto, que termina com um brado de revolta: “Eu sei. Porém não estou de acordo. E não me conformo”.

No poema “Um Gesto Antigo”, a autora recorre ao casal Ulisses e Penélope, personagens da Odisseia, de Homero. Como se sabe, por vinte anos Penélope esperou o retorno do marido, que saiu para lutar na guerra de Tróia. Não havia notícias dele, nem se sabia se estava vivo ou morto. Por causa disso, o pai de Penélope propôs que a filha se casasse novamente.

No entanto, fiel a Ulisses, ela disse que só se casaria quando terminasse de tecer um sudário para o sogro. Pretendentes faziam fila à porta de sua casa. Mas, como não desejava casar-se, ela usava de um ardil: tecia durante o dia e, à noite, desfazia tudo às escondidas, de modo que o trabalho nunca terminava. No texto, Edna Millay faz referência a esse estratagema. Trata-se na verdade de um poema feminista, que zomba discretamente do pressuposto de que homem não chora. E mostra que o bravo guerreiro Ulisses também aprendeu lições com a tecedeira Penélope.

A quadra “Primeiro Figo” corresponde ao primeiro poema do livro A Few Figs from Thistles (Alguns figos dos abrolhos). Esse título faz referência a um trecho bíblico do Novo Testamento, que pergunta: “Colhem-se, porventura, uvas de espinheiros ou figos dos abrolhos?” (Mateus, 7:16). Contrariando a lógica do evangelista, Edna conseguiu a proeza de colher figos poéticos de outra planta que não a figueira.

O último texto mostra a faceta política de Edna St. Vincent Millay, sua defesa do pacifismo e, ao mesmo tempo, a ideia de resistir às tiranias, que ela sabiamente associa à Morte. O poema “Conscientious Objector”, aqui traduzido como “Objeção de Consciência”, veio a público em 1934. “Conscientious objector” é a pessoa que se recusa a prestar o serviço militar, alegando razões como liberdade de pensamento ou religião.

A pessoa que fala no poema contrapõe-se radicalmente a fazer qualquer tipo de acordo com a Morte. Esta aparece personificada, com inicial maiúscula, na figura de um cavaleiro. Sim, um homem. Para nós a indesejada gentes é mulher, mas na tradição anglo-germânica a morte é representada por uma figura masculina: Mr. Death em inglês, Herr Tod em alemão. Curiosamente, as referências à necessidade de proteger pessoas perseguidas são como um pressentimento do que realmente viria a acontecer, anos depois, na Europa conflagrada, durante a resistência ao nazi-fascismo.
Um abraço, e até a próxima,


                    
                      •o•

Poeta não é
escritor?
Leio por aí, com aflitiva repetição — nos jornais e revistas, na internet e em escritos acadêmicos —, a expressão “o poeta e escritor Fulano”. Pergunto aos sensíveis e argutos leitores deste boletim: poeta não é escritor?

Se fosse “poeta e jornalista”, perfeito; ou então “poeta e dramaturgo”, “poeta e compositor”, “poeta e administrador de empresas”. Ou mesmo, como era o caso do pernambucano Joaquim Cardozo, “poeta e engenheiro calculista de concreto”.

Creio que os únicos exemplos de poetas-não-escritores eram os praticantes do poema processo (movimento derivado da poesia concreta), que produziam peças com desenhos, fotos e símbolos não-verbais. Mas duvido que os repetidores da expressão “poeta e escritor” tenham em mente qualquer alusão ao poema processo.

Por que não dizer, com mais acerto e informação, “poeta e romancista”, “poeta e contista”, “poeta e ficcionista”, “poeta e ensaísta”?

Para mim, a tautologia “poeta e escritor” só não é pior que o também repetido lugar-comum-com-cacofonia “isso não é tarefa fácil”.



                      •o•


 
A lição de Penélope
Edna St. Vincent Millay


Edna St. Vincent Millay em 1914
Edna St. Vincent Millay em 1914, aos 22 anos

O AMOR NÃO É TUDO

O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.

O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos dêem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.

Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz

de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.

          Tradução: Paulo Mendes Campos

LOVE IS NOT ALL

Love is not all: it is not meat nor drink
Nor slumber nor a roof against the rain;
Nor yet a floating spar to men that sink
And rise and sink and rise and sink again;
Love can not fill the thickened lung with breath,
Nor clean the blood, nor set the fractured bone;
Yet many a man is making friends with death
Even as I speak, for lack of love alone.
It well may be that in a difficult hour,
Pinned down by pain and moaning for release,
Or nagged by want past resolution's power,
I might be driven to sell your love for peace,
Or trade the memory of this night for food.
It well may be. I do not think I would.

Ruth Chase - Edna St. Vincent MillayRuth Chase, Edna St. Vincent Millay, carvão e café sobre papel

CANTO FÚNEBRE SEM MÚSICA
Não me conformo em ver baixarem à terra dura os corações amorosos,
É assim, assim há de ser, pois assim tem sido desde tempos imemoriais:
Partem para a treva os sábios e os encantadores. Coroados
de louros e de lírios, partem; porém não me conformo com isso.

Amantes, pensadores, misturados com a terra!
Unificados com a triste, indistinta poeira.
Um fragmento do que sentíeis, do que sabíeis,
uma fórmula, uma frase resta — porém o melhor se perdeu.

As réplicas vivas, rápidas, o olhar sincero, o riso, o amor
foram-se embora. Foram-se para alimento das rosas. Elegante, ondulosa
é a flor. Perfumada é a flor. Eu sei. Porém não estou de acordo.
Mais preciosa era a luz em vossos olhos do que todas as rosas do mundo.

Vão baixando, baixando, baixando à escuridão do túmulo
suavemente, os belos, os carinhosos, os bons.
Tranquilamente baixam os espirituosos, os engraçados, os valorosos.
Eu sei. Porém não estou de acordo. E não me conformo.
          Tradução: Carlos Drummond de Andrade


DIRGE WITHOUT MUSIC
I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely. Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains, — but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,
They are gone. They are gone to feed the roses. Elegant and curled
Is the blossom. Fragrant is the blossom. I know. But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know. But I do not approve. And I am not resigned.

Francesco Primaticcio - Odisseu e Penélope
Francesco Primaticcio, italiano, Odisseu e Penélope (1563)

UM GESTO ANTIGO
Pensei, enquanto secava os olhos na ponta do avental:
Penélope também fez isto.
E mais de uma vez: não podes seguir tecendo o dia inteiro
e desfazendo tudo durante a noite.
Os braços se cansam, e a nuca se enrijece.
E a manhã se aproxima, quando pensas que nunca haverá luz,
e teu marido partiu, faz anos, não sabes para onde.
De repente, explodes em lágrimas;
não há outra coisa a fazer.

E pensei, enquanto secava os olhos na ponta do avental:
este é um gesto remoto, autêntico, antigo,
na melhor tradição clássica, grega.
Ulisses também fez isto.
Mas apenas como um gesto — um gesto que indicava
à platéia, que ele estava muito comovido para falar.
Aprendeu com Penélope...
Penélope, que realmente chorava.


          Tradução: Carlos Machado



AN ANCIENT GESTURE


I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
Penelope did this too.
And more than once: you can’t keep weaving all day
And undoing it all through the night;
Your arms get tired, and the back of your neck gets tight;
And along towards morning, when you think it will never be light,
And your husband has been gone, and you don't know where, for years.
Suddenly you burst into tears;
There is simply nothing else to do.

And I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
This is an ancient gesture, authentic, antique,
In the very best tradition, classic, Greek;
Ulysses did this too.
But only as a gesture, — a gesture which implied
To the assembled throng that he was much too moved to speak.
He learned it from Penelope...
Penelope, who really cried.

 
SteepletopA casa de Edna St. Vincent Millay: hoje é um museu

PRIMEIRO FIGO

Minha vela queima nos dois lados
e não vai durar a noite inteira.
Mas ah, meus amigos, oh meus inimigos —
que luz adorável ela dá!

          Tradução: Carlos Machado

FIRST FIG
My candle burns at both ends;
It will not last the night;
But ah, my foes, and oh, my friends —
It gives a lovely light!


OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA
Eu morrerei, mas
isso é tudo que farei pela Morte.
Eu a ouço tirando o cavalo da baia;
escuto as pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; tem negócios em Cuba,
negócios nos Bálcãs, muitos chamados a fazer nesta manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta as correias.
Ela que monte sozinha:
não lhe darei apoio na subida.

Embora ela fustigue meus ombros com o chicote,
não vou dizer para onde a raposa fugiu.
Com seu casco em meu peito, não vou contar onde
o garoto negro está escondido no pântano.
Eu morrerei, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Não estou em sua folha de pagamentos.

Não contarei a ela o paradeiro de meus amigos,
nem o de meus inimigos.
Ainda que me prometa muito,
não darei o endereço de ninguém.
Acaso sou um espião na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmão, a senha e os planos de nossa cidade
estão seguros comigo. Jamais, por minha culpa, você será derrotado.
          Tradução: Carlos Machado



CONSCIENTIOUS OBJECTOR
I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man's door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.


 
poesia.netwww.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2013



•  "O Amor não é Tudo"
   Tradução: Paulo Mendes Campos 
• 
"Canto Fúnebre sem Música"
   Tradução: Carlos Drummond de Andrade
    in Carlos Drummond de Andrade, Poesia Traduzida
   
Cosac Naify, São Paulo, 2011
•  "Um Gesto Antigo", "Primeiro Figo", "Objeção de Consciência"
    Tradução: Carlos Machado
______________
* Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), "Poema-Orelha",
  in A Vida Passada a Limpo, 1958
** William Shakespeare (1554-1616),
  in Como Gostais, Ato III, Cena III
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- Imagem 1: Foto: Arnold Genthe
- Imagem 2: Ruth Chase, Edna St. Vincent Millay
- Imagem 3: Francesco Primaticcio, Odisseu e Penélope (1563)

- Imagem 4: Daniel Case, Wikimedia Commons

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