domingo, 26 de agosto de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

LUIS GOJZADA DA SOUSA - A ORIGEM DAS FEIRAS



Este texto forma parte del libro
Memorias de Economia
de Luis Gonzaga da Sousa
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A formação de excedentes de produção dos produtores acredita-se ser a principal causa da origem das feiras. E com as sobras de uns, contra as faltas de outros, é que houve a necessidade de intercâmbio de mercadorias, a princípio inter-grupos, sem a exigência de um lugar, onde a busca de se conseguir as mercadorias que necessitam é mais intensa. A existência das feiras foi uma solicitação natural de um ambiente que congregasse todos os produtos que se estivessem disponíveis para outrem; e, neste contexto, seria importante que se trocassem seus excessos em busca de outros produtos que não se houve condições  de produzir. Com isto, verifica-se a importância das feiras para os tempos modernos.
Em verdade, atribui-se à idade média, a oficialização das feiras, tendo em vista que na época dos faraós, quer dizer, no período escravagista, bem como na fase do feudalismo, não existiam tão acirradamente as feiras, por causa da produção para auto-consumo. O sistema de trabalho da comunidade dos faraós era estritamente voltado para produzir; e, em seguida consumir, porque os faraós não tinham interesse em produzir para revenda; mas, a manutenção dos escravos que deveriam produzir os bens de luxo para aqueles que detém o poder. Este período de auto-consumo, também aconteceu na fase feudalista, pelo tipo de manutenção que era comum para as pessoas que viviam nos feudos, que exerciam uma espécie de escravismo.
Para confirmar que as feiras tiveram realmente sua consolidação na idade média, escreveu SOUTO MAIOR[1] (1978) que 
as influências das atividades comerciais de Bizâncio foram vis não somente para a Idade Média, mas até para a Idade Moderna, pois o renovado contacto comercial com o Oriente foi uma das causas principais do aparecimento de muitas cidades do Ocidente europeu e a concorrência comercial estimulou os descobrimentos e a expansão da civilização européia no século XVI
Este foi o estímulo à expansão, que fez com que os produtos do Extremo Oriente fossem distribuídos via mediterrâneo com grandes lucros, tais como especiarias, perfumes, jóias e sedas, muito procurados em tal época.
A abertura para o Oriente fez com que os grandes comércios fossem implementados fundamentalmente nas cidades de Veneza, Gênova e Pisa; e, desta forma, aumentando a concorrência entre os vendedores da época das grandes aventuras em busca de compra e vendas de produtos supérfluos e necessários, nos longínquos pontos da terra. Com a missão dos mercadores da Idade Média, estimulou-se a transação de compra e venda, e por extensão, a formação das feiras, envolvendo drogas, musselinas, sedas, especiarias e tapetes, expostos em feiras livres. Nesta estrutura comercial, determinam-se os preços pelas forças competitivas do mercado, surgindo lentamente a concorrência entre os comerciantes medievais.
Na Bíblia Cristã notam-se sinais de feiras já no período em que Jesus Cristo viveu na terra, pois mesmo reconhecendo a fúria do Senhor, verifica-se a existência já naquele período histórico, a presença dos mercadores como coloca MARCOS[2] (11:17) quando diz que 
chegaram a Jeruzalém, e, entrando no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombos, e não permitia que se transportasse qualquer objeto através do templo
Isto são sinais fortes da influência das feiras convencionais, fundamentalmente, as livres, na formação da era comercial dos tempos hodiernos e que aos poucos estão desaparecendo, lastimavelmente.

Os ingênuos comerciantes do início da era cristã buscavam negociar seus excedentes e conseguir os produtos que lhes faltavam. Todavia, como ponto mais movimentado do povoado ou cidade onde viviam, escolheram a igreja, por ser um lugar de maior fluxo; e, conseqüentemente, maior possibilidade de vendas de seus produtos, Lá era negociado todo tipo de produto que a população necessitava, foi quando apareceu Jesus CRISTO, e expulsou-os bravamente, porque ali era casa de orações e não feiras livres, causando as maiores badernas em frente da casa do Senhor. Além do evento comercial, obviamente, aconteciam outros fatos obscenos que não eram do agrado do líder dos cristãos.
Retornando a Idade Média, observa-se a importância das feiras, num pedido da população de Poix ao Rei, para o funcionamento de um mercado semanal, e duas feiras; e, eis o que respondeu o Rei: 
recebemos a humilde petição de nosso querido e bem amado Jeham de CRÉQUY, Senhor de Canaples e de Poix... informando-nos que a mencionada cidade e arredores de Poix estão localizados em terreno bom e fértil, e a mencionada cidade e arredores são bem construídos e providos de casas, povo, mercadores, habitantes, e outros, e também lá afluem, passam e tornam a passar, muitos mercadores e mercadorias das vizinhanças e outras regiões, e isto é requisito, e necessário à realização das duas feiras anuais e um mercado cada semana... Por essa razão é que nós... criamos, organizamos e estabelecemos para a mencionada cidade de Poix... duas feiras por ano e um mercado por semana.
Como se observa, as autoridades tinham grande interesse quanto a colocação de feiras em suas regiões, porque, em verdade, aumentaria o fluxo de recursos para aquele ambiente, como da mesma forma se negociariam os da própria localidade.
Por isso, ao pensar em mercados, fala-se em feiras. Disto surge uma diferença entre estes dois pontos de análise, qual será? 
os mercados eram pequenos, negociando com os produtos locais, em sua maioria agrícola. As feiras, ao contrário, eram imensas, e negaciavam mercadorias por atacado, que provinham de todos os pontos do mundo conhecido. A feira era o centro distribuidor onde os grandes mercadores, que se diferenciavam dos pequenos revendedores errantes e artesãos locais, compravam e vendiam as mercadorias estrangeiras procedentes do Oriente e Ocidente, Nordeste e Sul
 
cujo pensamento foi extraído dos comentários de Leo HUBERMAN (1959) [3] que trabalhou esta questão com muita eficiência e propriedade.

Ainda com este autor[4] faz-se referência a uma das mais importantes feiras, com a seguinte conclamação de 1349, sobre as feiras de Champagne; pois, 
todas as companhias de mercadores e também os mercadores individuais, lianos, transalpinos, florentinos, milaneses, luqueses, genoveses, venesianos, alemãs, provençais e os de outros paises, que não pertencem ao nosso reino, se desejarem comerciar aqui e desfrutar os privilégios e os impostos vantajosos das mencionadas feiras... podem vir sem perigo, residir e partir - eles, sua mercadoria, e seus guias, com o salvo-conduto das feiras, sob o qual os conservamos e recebemos, de hoje em diante, juntamente com sua mercadoria e produtos, sem que estejam jamais sujeitos a apreensão, prisão ou obstáculos, por outros que não os guardas das feiras.
É importante salientar que as feiras, desde os tempo das verdadeiras feiras livres, os governos, ou mandatários de uma localidade incentivavam aos participantes das feiras para conseguirem seus benefícios.
Nos tempos modernos, as feiras têm diversificado ao máximo possível o seu lastro de comércio, possuindo desde produtos sofisticados até mínimas coisas que a classe mais pobre precisa. As feiras constituem realmente o princípio fundamental que define mercado e como já se viu anteriormente, serem diferentes, contudo, hoje se confundem. Numa abordagem econômica, as feiras constituem um ponto de encontro entre compradores e vendedores para trocarem seus produtos, se bem que hoje em dia, dadas as concentrações oligopolísticas e cartelizações, as feiras que hoje coincidem com os mercados, passam a ser apenas um contexto, por causa dos meios de comunicação.
O que se nota nos tempos modernos, não são as feiras tradicionais ingênuas; mas, as grandes bienais, que constituem as feiras mais sofisticadas ou uma maneira de preservar os primeiros modos de formação dos preços. Paralelamente com as bienais, existem também as exposições de animais, muito comuns no mundo inteiro, que buscam claramente, os grandes comércios de animais e produtos agrícolas situados particularmente, nos interiores dos Estados brasileiros. No Nordeste, por exemplo, são famosas as feiras de gado de Feira de Santana, a feira de Caruaru, cantada em prosa e versos, as feiras de gado da Paraíba que originaram muitas cidades do interior nordestino, especificamente.
Inegavelmente, as feiras contribuíram para o desenvolvimento e até mesmo da formação dos mercados, quer seja oligopolístico ou mesmo monopolístico; e, neste sentido, é que se ver o desaparecimento das tradicionais feiras que determinam preços ingenuamente, entre compradores e vendedores. A falência das feiras é devido ao que previu MARX, já no século XVIII, o poder de concentração e centralização da economia industrial, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Portanto, o movimento voluntário entre compradores e vendedores é a melhor forma do mercado atender a todos, sem prejuízo de alguém; mas, com ganhos para todos os agentes participativos da economia.
No mundo dos oligopólios, as feiras livres ficam no segundo plano do convívio comercial, tendo em vista que, o que predomina hoje em dia é a formação de supermercados. Os supermercados substituem as feiras livres e até mesmo, o comércio natural da cidade, ao se considerar que tudo que se busque para o dia-a-dia do ser humano, encontra-se nos supermercados. Dentro deste complexo de comércio existem as subdivisões que funcionam como empresas individualizadas, com todas as funções próprias e independentes, trabalhando a sua própria realidade. Portanto, nesta estrutura de mercado já não existe a pichincha (pedir para baixar os preços) e nem a competição acirrada na busca de conseguir consumidores, como no mercado livre.

 


[1] MAIOR, Armando Souto. História Geral. São Paulo, Editora São Paulo, 1978, p. 190.
[2] São MARCOS. A Bíblia Sagrada. São Paulo, Stampley Publicações LTDa, 1974, p. 1021.
[3] HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, ZAHAR Editores, 1976, p. 31.
[4] HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, ZAHAR Editores, 1976, p. 30.


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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

NELSON RODRIGUES - A VIDA (URBANA) COMO ELA É (1)

NELSON RODRIGUES 
A VIDA (URBANA) COMO ELA É (1)


"TEM UMA PIMENTINHA AÍ?"

Ruy Castro
 

RIO DE JANEIRO - Convidado a falar em São Paulo sobre Nelson Rodrigues e gastronomia, embatuquei: o que teria Nelson a ver com comida? Afinal, era um sujeito que, dos 18 aos quase 28 anos, passou fome ou privação. E, quando se estabilizou, levou o resto da vida com uma úlcera do duodeno que o obrigara a dietas cruéis.

Ali estava a chave: a fome e a úlcera. A fome ficara para trás, mas Nelson nunca se esqueceria dela e de como ela o levara à tuberculose.

Fome provocada por perseguição política - os vitoriosos de 1930 impedindo que ele e seus irmãos tivessem emprego em jornais. Daí que sua fome de liberdade fosse ainda maior: "A liberdade é mais importante que o pão", dizia.

Anos depois, Nelson poderia passar a galinha ao molho pardo, que adorava. Mas a úlcera o tolhia. Em casa, ela o reduzia a purê com carne moída. Na rua, não era diferente - sei disso porque fui a almoços que seus amigos lhe ofereciam no "Bigode do Meu Tio", restaurante de seu filho Joffre, em Vila Isabel, nos anos 70. Uma singela carne-seca com abóbora parecia levá-lo ao céu.

Em função da palestra, procurei referências a comida em suas peças. Em vão. Mas, numa de suas crônicas, descobri uma cena rodriguiana: a do mendigo imundo e morto de fome que é recolhido por uma família, sentado a uma mesa na cozinha e servido de um prato capaz de alimentar uma tropa. O homem se atira a ele. Pouco depois, faz uma pausa, olha em torno e pergunta: "Tem uma pimentinha?". Ou seja, matar a fome não é tudo - há que haver lugar também para a fantasia.

E acho que sei por que Nelson se encantou com uma frase que lhe foi dita pelo dr. Aloysio Salles, advogado e boêmio carioca: "O homem só gosta do que comeu em criança". Devia lembrar a Nelson a única época em que ele próprio comeu com felicidade, sem fome e sem úlcera.

[ fonte - jornal Folha de São Paulo. São Paulo (SP - Brasil), 22 de agosto de 2012, p. A2]

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

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HOJE 100 ANOS DE NELSON RODRIGUES


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terça-feira, 20 de março de 2012

NELSON RODRIGUES 100 ANOS (1)

NELSON RODRIGUES 100 ANOS (1) 



[fonte : ANTARES, n°2, jul-dez 2009, pp 153.-166]

 O urbano ululante: imprensa e cidade na tragédia de Nelson Rodrigues

Douglas Ceccagno
Mestre em Letras e Cultura Regional (UCS). Doutorando em Letras (PUC-RS) e bolsista da CAPES. Docente no Departamento de Letras e Filosofia da Universidade de Caxias do Sul Rio Grande do Sul Brasil.


Resumo

As relações entre o discurso da imprensa e a configuração das práticas sociais no espaço urbano se dão na esfera do imaginário. Assim, com base na teoria do imaginário social, a presente pesquisa investiga a representação dos meios de comunicação em três tragédias de Nelson Rodrigues, buscando uma visão do espaço social urbano que se depreende do discurso jornalístico nas peças, e que influencia a legitimação da própria imprensa na sociedade representada.

Palavras-chave

Imaginário social; drama; imprensa; espaço urbano.

Abstract

The relations between the speech of the press and the setting of social practices in the urban space take place in the sphere of imagination. Thus, based on the theory of Social Imaginary, this research investigates the representation of the media in three tragedies of Nelson Rodrigues, seeking a vision of the urban social space that may be seen in the journalistic discourse presented in the pieces, and that influences the legitimacy of the press in the represented society.

Key words

Social Imaginary; drama; press; urban space.


O ADVENTO DA NOVA HISTORIA  no século XX, com os trabalhos de Marc Bloch, Jacques Le Goff e outros, possibilitou a escritura historiográfica a partir de elementos anteriormente desprezados pela historiografia. Pela proposta desses autores, os documentos oficiais deixam de ser o único material possível de investigação; em seu lugar, objetos artísticos, tradições e costumes de um determinado povo ou regiao são admitidos como meios eficazes para o surgimento de uma historia que tem o objetivo de analisar a vida do cotidiano comum das sociedades, em lugar de atentar apenas para os grandes eventos históricos.

Uma teoria descendente da Nova Historia e, em especial, da Historia das Mentalidades, que cria espaço para uma investigação da literatura em sua relação com a sociedade, e a teoria do Imaginário Social. Segundo um de seus adeptos, o Frances Michel Maffesoli, o imaginário e uma forca social de ordem espiritual, uma construção mental, que se mantém ambígua, perceptivel, mas nao quantificável (2001, p. 75). Sob a optica do imaginário, e possível apreender que relações se estabelecem entre uma obra literária e os pensamentos e emoções de um determinado grupo.

O imaginario social pode ser apreendido através de referencias simbólicas que
uma sociedade estabelece e que dao sentido a suas praticas. Na literatura, o modo como e representada uma determinada sociedade, e o papel que seus membros desempenham nas relacoes entre si, enseja a leitura de aspectos da identidade coletiva e da divisao de poderes dentro do universo social. As referencias simbolicas nao se limitam a indicar os individuos que pertencem a mesma sociedade, mas definem tambem de forma mais ou menos precisa os meios inteligiveis das suas relacoes com ela, com as divisões internas e as instituicoes sociais, etc. (BACZKO, 1986, p. 310).

Neste trabalho, investiga-se o texto dramático de Nelson Rodrigues sob a perspectiva do imaginário social, analisando como a representação da imprensa caracteriza, em obra do autor, uma forma de ver a cidade, constituindo um imaginário especificamente urbano. Para tanto, serão analisadas as tragédias Vestido de noiva (1943), O beijo no asfalto (1961) e Boca de Ouro (1959), atentando para a representação do meio jornalístico presente nessas obras.

A imprensa tem grande importância no desenvolvimento das cidades modernas, não apenas como fonte de informação, mas ainda pela sua capacidade de formar opiniões, influenciando sobremaneira o desenvolvimento dos imaginários sociais. Seu poder reside em se tratar de um campo pelo qual se realizam as funções do auctor. Para o sociólogo Pierre Bourdieu, o auctor, através da legitimidade que a sociedade lhe atribui, detém o poder de nomeação, ou seja, de determinar o que é e o que não á: Ao dizer as coisas com autoridade, quer dizer, a vista de todos e em nome de todos, publicamente e oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrário, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como dignas de existir, como conformes a natureza das
coisas naturais’” (1989: 114). Dessa maneira, pela confiabilidade que a imprensa tem junto as classes populares, e possível ao meio jornalístico, exercendo sua função de auctor, definir verdades e mentiras no grupo social em que atua.

Em Vestido de noiva, os repórteres dos jornais Diário e A Noite são os responsáveis por informar a população sobre o atropelamento de Alaide. Na época de sua estréia nos palcos, em dezembro de 1943, Vestido de noiva tornou-se logo famosa por sobrepor três planos de ação: alucinação, memória e realidade. O meio jornalístico aparece no terceiro plano, fornecendo ao espectador, no decorrer da peca, informações sobre o acidente que envolveu a protagonista, a qual, agora, em estado de coma, mistura lembranças e alucinações, que são representadas nos dois outros planos de ação.

Essa função narrativa da imprensa fica explicita na cena em que os jornaleiros,
vendendo exemplares dA Noite e do Diário, proferem as manchetes que atestam que Alaide assassinou o esposo Pedro, de maneira que também informam ao espectador de Vestido de noiva sobre a ampla cobertura da imprensa ao caso. Da mesma forma, o atropelamento de Alaide, do qual se ouviram ruídos no inicio da peca, passa a ser de conhecimento do espectador através do repórter Pimenta, quando o mesmo comunica ao redator do jornal Diário a ocorrência. A cena e composta por quatro telefones, falando ao mesmo tempo, como indica a rubrica do autor (RODRIGUES, 2004, p. 90): eles pertencem a Pimenta, ao redator do Diário, ao Carioca-Repórter e ao redator dA Noite.Nesse dialogo rápido e entrecortado, onde se percebe a urgência dos dois jornais para publicar a noticia do desastre, e possível notar a influencia do ponto de vista de certos funcionários da imprensa sobre o conteúdo de suas publicações. Isso fica subentendido quando Pimenta emite sua opinião sobre a aparência física da vitima: Bonita, bem vestida. (RODRIGUES, 2004, p. 91).  Ao mesmo tempo, e perceptível a necessidade de antecipar os acontecimentos, para que o próprio jornal esteja a frente de seus concorrentes na rapidez da informação:

REDATOR DA NOITE Morreu?
CARIOCA-REPÓRTER Ainda nao. Mas vai. (RODRIGUES, 2004, p. 91)

Esses dois fatores interferem diretamente no produto que e veiculado ao leitor do jornal, posto que a interpretação dos fatos por parte do repórter e a necessidade de antecipar os acontecimentos futuros podem comprometer a veracidade da noticia.

Assim, a imprensa, mesmo que sob uma aparente imparcialidade, não pode se furtar a uma representação apenas parcial dos fatos, ocasionada pela intenção de publicar a noticia com antecipação e de não conseguir fugir ao julgamento dos elementos nela envolvidos. Por outro lado, o jornal não á só um meio de informar. Quando uma leitora se dirige ao redator identificando-se como testemunha do acidente, o que ela intenta não e prestar um depoimento esclarecedor sobre o caso (e nem e solicitada a fazê-lo pelo redator, que e o primeiro a desligar o telefone), mas reclamar da conduta dos motoristas.

Essa cena evidencia uma  outra função da imprensa: dar voz as causas publicas. Embora esteja implícita no dialogo a ma vontade do redator em atender a sua leitora (posto que ele evite seus argumentos desligando o telefone), a mulher, ao telefonar para a redação do jornal, tem a intenção de ver sua reclamação publicada, e disso se depreende a existência de um habito da imprensa de atender a essa espécie de pedido de seus leitores. 

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