domingo, 26 de agosto de 2012
LIVRARIA CULTURA - OS MAIS VENDIDOS DA SEMANA
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pessoa apaixonada pelas cidades do mundo
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sábado, 25 de agosto de 2012
LUIS GOJZADA DA SOUSA - A ORIGEM DAS FEIRAS
Este
texto forma parte del libro
Memorias de Economia
de Luis Gonzaga da Sousa
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Memorias de Economia
de Luis Gonzaga da Sousa
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A
formação de excedentes de produção dos produtores acredita-se ser a principal
causa da origem das feiras. E com as sobras de uns, contra as faltas de outros,
é que houve a necessidade de intercâmbio de mercadorias, a princípio
inter-grupos, sem a exigência de um lugar, onde a busca de se conseguir as
mercadorias que necessitam é mais intensa. A existência das feiras foi uma
solicitação natural de um ambiente que congregasse todos os produtos que se
estivessem disponíveis para outrem; e, neste contexto, seria importante que se
trocassem seus excessos em busca de outros produtos que não se houve
condições de produzir. Com isto, verifica-se a importância das feiras
para os tempos modernos.
Em
verdade, atribui-se à idade média, a oficialização das feiras, tendo em vista
que na época dos faraós, quer dizer, no período escravagista, bem como na fase
do feudalismo, não existiam tão acirradamente as feiras, por causa da produção
para auto-consumo. O sistema de trabalho da comunidade dos faraós era
estritamente voltado para produzir; e, em seguida consumir, porque os faraós
não tinham interesse em produzir para revenda; mas, a manutenção dos escravos
que deveriam produzir os bens de luxo para aqueles que detém o poder. Este
período de auto-consumo, também aconteceu na fase feudalista, pelo tipo de
manutenção que era comum para as pessoas que viviam nos feudos, que exerciam
uma espécie de escravismo.
Para
confirmar que as feiras tiveram realmente sua consolidação na idade média,
escreveu SOUTO MAIOR[1] (1978) que
as
influências das atividades comerciais de Bizâncio foram vis não somente para a
Idade Média, mas até para a Idade Moderna, pois o renovado contacto comercial
com o Oriente foi uma das causas principais do aparecimento de muitas cidades
do Ocidente europeu e a concorrência comercial estimulou os descobrimentos e a
expansão da civilização européia no século XVI.
Este foi o estímulo à expansão,
que fez com que os produtos do Extremo Oriente fossem distribuídos via
mediterrâneo com grandes lucros, tais como especiarias, perfumes, jóias e
sedas, muito procurados em tal época.
A
abertura para o Oriente fez com que os grandes comércios fossem implementados
fundamentalmente nas cidades de Veneza, Gênova e Pisa; e, desta forma,
aumentando a concorrência entre os vendedores da época das grandes aventuras em
busca de compra e vendas de produtos supérfluos e necessários, nos longínquos
pontos da terra. Com a missão dos mercadores da Idade Média, estimulou-se a
transação de compra e venda, e por extensão, a formação das feiras, envolvendo
drogas, musselinas, sedas, especiarias e tapetes, expostos em feiras livres.
Nesta estrutura comercial, determinam-se os preços pelas forças competitivas do
mercado, surgindo lentamente a concorrência entre os comerciantes medievais.
Na Bíblia
Cristã notam-se sinais de feiras já no período em que Jesus Cristo viveu na
terra, pois mesmo reconhecendo a fúria do Senhor, verifica-se a existência já
naquele período histórico, a presença dos mercadores como coloca MARCOS[2] (11:17) quando diz que
chegaram
a Jeruzalém, e, entrando no templo, começou a expulsar os que ali vendiam e
compravam; derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de
pombos, e não permitia que se transportasse qualquer objeto através do templo.
Isto são
sinais fortes da influência das feiras convencionais, fundamentalmente, as
livres, na formação da era comercial dos tempos hodiernos e que aos poucos
estão desaparecendo, lastimavelmente.
Os ingênuos comerciantes do início da era cristã buscavam negociar seus excedentes e conseguir os produtos que lhes faltavam. Todavia, como ponto mais movimentado do povoado ou cidade onde viviam, escolheram a igreja, por ser um lugar de maior fluxo; e, conseqüentemente, maior possibilidade de vendas de seus produtos, Lá era negociado todo tipo de produto que a população necessitava, foi quando apareceu Jesus CRISTO, e expulsou-os bravamente, porque ali era casa de orações e não feiras livres, causando as maiores badernas em frente da casa do Senhor. Além do evento comercial, obviamente, aconteciam outros fatos obscenos que não eram do agrado do líder dos cristãos.
Retornando
a Idade Média, observa-se a importância das feiras, num pedido da população de
Poix ao Rei, para o funcionamento de um mercado semanal, e duas feiras; e, eis
o que respondeu o Rei:
recebemos
a humilde petição de nosso querido e bem amado Jeham de CRÉQUY, Senhor de
Canaples e de Poix... informando-nos que a mencionada cidade e arredores de
Poix estão localizados em terreno bom e fértil, e a mencionada cidade e
arredores são bem construídos e providos de casas, povo, mercadores,
habitantes, e outros, e também lá afluem, passam e tornam a passar, muitos
mercadores e mercadorias das vizinhanças e outras regiões, e isto é requisito,
e necessário à realização das duas feiras anuais e um mercado cada semana...
Por essa razão é que nós... criamos, organizamos e estabelecemos para a
mencionada cidade de Poix... duas feiras por ano e um mercado por semana.
Como se observa, as autoridades tinham grande
interesse quanto a colocação de feiras em suas regiões, porque, em verdade,
aumentaria o fluxo de recursos para aquele ambiente, como da mesma forma se
negociariam os da própria localidade.
Por isso,
ao pensar em mercados, fala-se em feiras. Disto surge uma diferença entre estes
dois pontos de análise, qual será?
os
mercados eram pequenos, negociando com os produtos locais, em sua maioria
agrícola. As feiras, ao contrário, eram imensas, e negaciavam mercadorias por
atacado, que provinham de todos os pontos do mundo conhecido. A feira era o
centro distribuidor onde os grandes mercadores, que se diferenciavam dos
pequenos revendedores errantes e artesãos locais, compravam e vendiam as
mercadorias estrangeiras procedentes do Oriente e Ocidente, Nordeste e Sul
cujo pensamento foi extraído dos
comentários de Leo HUBERMAN (1959) [3]
que trabalhou esta questão com muita eficiência e propriedade.
Ainda com este autor[4] faz-se referência a uma das mais importantes feiras, com a seguinte conclamação de 1349, sobre as feiras de Champagne; pois,
todas as
companhias de mercadores e também os mercadores individuais, lianos,
transalpinos, florentinos, milaneses, luqueses, genoveses, venesianos, alemãs,
provençais e os de outros paises, que não pertencem ao nosso reino, se
desejarem comerciar aqui e desfrutar os privilégios e os impostos vantajosos
das mencionadas feiras... podem vir sem perigo, residir e partir - eles, sua
mercadoria, e seus guias, com o salvo-conduto das feiras, sob o qual os
conservamos e recebemos, de hoje em diante, juntamente com sua mercadoria e
produtos, sem que estejam jamais sujeitos a apreensão, prisão ou obstáculos,
por outros que não os guardas das feiras.
É importante salientar que as feiras, desde os
tempo das verdadeiras feiras livres, os governos, ou mandatários de uma
localidade incentivavam aos participantes das feiras para conseguirem seus
benefícios.
Nos tempos modernos, as feiras têm diversificado ao
máximo possível o seu lastro de comércio, possuindo desde produtos sofisticados
até mínimas coisas que a classe mais pobre precisa. As feiras constituem
realmente o princípio fundamental que define mercado e como já se viu
anteriormente, serem diferentes, contudo, hoje se confundem. Numa abordagem
econômica, as feiras constituem um ponto de encontro entre compradores e
vendedores para trocarem seus produtos, se bem que hoje em dia, dadas as
concentrações oligopolísticas e cartelizações, as feiras que hoje coincidem com
os mercados, passam a ser apenas um contexto, por causa dos meios de comunicação.
O que se
nota nos tempos modernos, não são as feiras tradicionais ingênuas; mas, as
grandes bienais, que constituem as feiras mais sofisticadas ou uma maneira de
preservar os primeiros modos de formação dos preços. Paralelamente com as
bienais, existem também as exposições de animais, muito comuns no mundo
inteiro, que buscam claramente, os grandes comércios de animais e produtos
agrícolas situados particularmente, nos interiores dos Estados brasileiros. No
Nordeste, por exemplo, são famosas as feiras de gado de Feira de Santana, a
feira de Caruaru, cantada em prosa e versos, as feiras de gado da Paraíba que
originaram muitas cidades do interior nordestino, especificamente.
Inegavelmente,
as feiras contribuíram para o desenvolvimento e até mesmo da formação dos
mercados, quer seja oligopolístico ou mesmo monopolístico; e, neste sentido, é
que se ver o desaparecimento das tradicionais feiras que determinam preços
ingenuamente, entre compradores e vendedores. A falência das feiras é devido ao
que previu MARX, já no século XVIII, o poder de concentração e centralização da
economia industrial, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.
Portanto, o movimento voluntário entre compradores e vendedores é a melhor
forma do mercado atender a todos, sem prejuízo de alguém; mas, com ganhos para
todos os agentes participativos da economia.
No mundo
dos oligopólios, as feiras livres ficam no segundo plano do convívio comercial,
tendo em vista que, o que predomina hoje em dia é a formação de supermercados.
Os supermercados substituem as feiras livres e até mesmo, o comércio natural da
cidade, ao se considerar que tudo que se busque para o dia-a-dia do ser humano,
encontra-se nos supermercados. Dentro deste complexo de comércio existem as
subdivisões que funcionam como empresas individualizadas, com todas as funções
próprias e independentes, trabalhando a sua própria realidade. Portanto, nesta
estrutura de mercado já não existe a pichincha (pedir para baixar os preços) e
nem a competição acirrada na busca de conseguir consumidores, como no mercado
livre.
[1] MAIOR, Armando Souto. História
Geral. São Paulo, Editora São Paulo, 1978, p. 190.
[2] São MARCOS. A Bíblia Sagrada.
São Paulo, Stampley Publicações LTDa, 1974, p. 1021.
[3] HUBERMAN, Leo. História da
Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, ZAHAR Editores, 1976, p. 31.
[4] HUBERMAN, Leo. História da
Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, ZAHAR Editores, 1976, p. 30.
v
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
NELSON RODRIGUES - A VIDA (URBANA) COMO ELA É (1)
NELSON RODRIGUES
A VIDA (URBANA) COMO ELA É (1)
"TEM UMA PIMENTINHA AÍ?"
Ruy Castro
RIO DE JANEIRO - Convidado a falar em São Paulo
sobre Nelson Rodrigues e gastronomia, embatuquei: o que teria Nelson a ver com
comida? Afinal, era um sujeito que, dos 18 aos quase 28 anos, passou fome ou
privação. E, quando se estabilizou, levou o resto da vida com uma úlcera do
duodeno que o obrigara a dietas cruéis.
Ali estava a chave: a fome e a úlcera. A fome ficara para trás, mas Nelson nunca se esqueceria dela e de como ela o levara à tuberculose.
Fome provocada por perseguição política - os vitoriosos de 1930 impedindo que ele e seus irmãos tivessem emprego em jornais. Daí que sua fome de liberdade fosse ainda maior: "A liberdade é mais importante que o pão", dizia.
Anos depois, Nelson poderia passar a galinha ao molho pardo, que adorava. Mas a úlcera o tolhia. Em casa, ela o reduzia a purê com carne moída. Na rua, não era diferente - sei disso porque fui a almoços que seus amigos lhe ofereciam no "Bigode do Meu Tio", restaurante de seu filho Joffre, em Vila Isabel, nos anos 70. Uma singela carne-seca com abóbora parecia levá-lo ao céu.
Em função da palestra, procurei referências a comida em suas peças. Em vão. Mas, numa de suas crônicas, descobri uma cena rodriguiana: a do mendigo imundo e morto de fome que é recolhido por uma família, sentado a uma mesa na cozinha e servido de um prato capaz de alimentar uma tropa. O homem se atira a ele. Pouco depois, faz uma pausa, olha em torno e pergunta: "Tem uma pimentinha?". Ou seja, matar a fome não é tudo - há que haver lugar também para a fantasia.
E acho que sei por que Nelson se encantou com uma frase que lhe foi dita pelo dr. Aloysio Salles, advogado e boêmio carioca: "O homem só gosta do que comeu em criança". Devia lembrar a Nelson a única época em que ele próprio comeu com felicidade, sem fome e sem úlcera.
Ali estava a chave: a fome e a úlcera. A fome ficara para trás, mas Nelson nunca se esqueceria dela e de como ela o levara à tuberculose.
Fome provocada por perseguição política - os vitoriosos de 1930 impedindo que ele e seus irmãos tivessem emprego em jornais. Daí que sua fome de liberdade fosse ainda maior: "A liberdade é mais importante que o pão", dizia.
Anos depois, Nelson poderia passar a galinha ao molho pardo, que adorava. Mas a úlcera o tolhia. Em casa, ela o reduzia a purê com carne moída. Na rua, não era diferente - sei disso porque fui a almoços que seus amigos lhe ofereciam no "Bigode do Meu Tio", restaurante de seu filho Joffre, em Vila Isabel, nos anos 70. Uma singela carne-seca com abóbora parecia levá-lo ao céu.
Em função da palestra, procurei referências a comida em suas peças. Em vão. Mas, numa de suas crônicas, descobri uma cena rodriguiana: a do mendigo imundo e morto de fome que é recolhido por uma família, sentado a uma mesa na cozinha e servido de um prato capaz de alimentar uma tropa. O homem se atira a ele. Pouco depois, faz uma pausa, olha em torno e pergunta: "Tem uma pimentinha?". Ou seja, matar a fome não é tudo - há que haver lugar também para a fantasia.
E acho que sei por que Nelson se encantou com uma frase que lhe foi dita pelo dr. Aloysio Salles, advogado e boêmio carioca: "O homem só gosta do que comeu em criança". Devia lembrar a Nelson a única época em que ele próprio comeu com felicidade, sem fome e sem úlcera.
[ fonte - jornal Folha de São Paulo. São Paulo (SP - Brasil), 22 de agosto de 2012, p. A2]
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
BEMVINDO WEST NEWS
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FORTE ABRAÇO DE BOAS VINDAS
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HOJE COMEÇA RECÕNCAVO JAZZ FESTIVAL
HOJE COMEÇA O RECÔNCAVO JAZZ FESTIVAL
CACHOEIRA - BAHIA - BRASIL
(cidade de Cachoeira - Bahia - Brasil)04/08/2012 17h21 - Atualizado em 04/08/2012 17h21
Festa acontece entre os dias 23 e 25 de agosto em Cachoeira, no Recôncavo.
Entre as atrações,está a Orkestra Rumpillez e o saxofonista Joshua Redman.
Orquestra Rumpillez se apresenta em festival. (Foto: Divulgação/Pelourinho Cultural)
Orquestra Rumpillez se apresenta em festival. (Foto: Divulgação/Pelourinho Cultural)
Acontece em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, entre os dias 23 e 25 deste
mês, o Recôncavo Jazz Festival. A festa acontece na Praça da Aclamação
com acesso aberto aberto ao público. Entre as atrações estão a Orkestra
Rumpilezz, o saxofonista internacional Joshua Redman, Filarmônica
Minerva Cachoeirana entre outros.
O saxofonista Joshua Redman e a Orkestra Rumpilezz e a Filarmônica
Minerva Cachoeirana se apresentam no primeiro dia de apresentações (23).
Já na sexta-feira (24) é a vez da também cachoeirana Filarmônica Lyra
Ceciliana, dos baianos do Saravá Jazz Bahia Sexteto e do baterista
mineiro Esdra Neném Ferreira. No sábado (25) o público vai assistir as
apresentações de Mondicá Trio e Retro_Visor e projeto mineiro Suíte para
os Orixás,.
Durante todo festival os músicos locais fazem shows solos em diversos pontos do Centro Histórico.
Confira programação:
Dia 23 de agosto
- Filarmônica Minerva Cachoeirana (BA)
- Joshua Redman (EUA) & Orkestra Rumpilezz (BA)
Dia 24 de agosto
- Filarmônica Lyra Ceciliana (BA)
- Saravá Jazz Bahia Sexteto (BA)
- Esdra Neném Ferreira (MG)
Dia 25 de agosto
- Filarmônica 25 de Junho
- Mondicá Trio (BA)
- Retro_Visor (BA)
- Suíte para os Orixás (MA)
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07:49
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HOJE 100 ANOS DE NELSON RODRIGUES
HOJE 100 ANOS DE NELSON RODRIGUES
A VIDA (URBANA) COMO ELA É
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Blogue CIDADE
terça-feira, 20 de março de 2012
NELSON RODRIGUES 100 ANOS (1)
NELSON RODRIGUES 100 ANOS (1)
[fonte : ANTARES, n°2, jul-dez 2009, pp 153.-166]
[fonte : ANTARES, n°2, jul-dez 2009, pp 153.-166]
O urbano ululante: imprensa e cidade na tragédia de Nelson Rodrigues
Douglas Ceccagno
Mestre
em Letras e Cultura Regional (UCS). Doutorando em Letras (PUC-RS) e
bolsista da CAPES. Docente no Departamento de Letras e Filosofia da
Universidade de Caxias do Sul – Rio Grande do Sul – Brasil.
Resumo
As
relações entre o discurso da imprensa e a configuração das práticas
sociais no espaço urbano se dão na esfera do imaginário. Assim, com base
na teoria do imaginário social, a presente pesquisa investiga a
representação dos meios de comunicação em três tragédias de Nelson
Rodrigues, buscando uma visão do espaço social urbano que se depreende
do discurso jornalístico nas peças, e que influencia a legitimação da
própria imprensa na sociedade representada.
Palavras-chave
Imaginário social; drama; imprensa; espaço urbano.
Abstract
The
relations between the speech of the press and the setting of social
practices in the urban space take place in the sphere of imagination.
Thus, based on the theory of Social Imaginary, this research
investigates the representation of the media in three tragedies of
Nelson Rodrigues, seeking a vision of the urban social space that may be
seen in the journalistic discourse presented in the pieces, and that
influences the legitimacy of the press in the represented society.
Key words
Social Imaginary; drama; press; urban space.
O ADVENTO DA NOVA HISTORIA no século XX, com os trabalhos de Marc Bloch, Jacques Le Goff e outros, possibilitou a escritura historiográfica
a partir de elementos anteriormente desprezados pela historiografia.
Pela proposta desses autores, os documentos oficiais deixam de ser o único material possível de investigação; em seu lugar, objetos artísticos, tradições e costumes de um determinado povo ou regiao são
admitidos como meios eficazes para o surgimento de uma historia que tem
o objetivo de analisar a vida do cotidiano comum das sociedades, em
lugar de atentar apenas para os grandes eventos históricos.
Uma teoria descendente da Nova Historia e, em especial, da Historia das Mentalidades, que cria espaço para uma investigação da literatura em sua relação com a sociedade, e a teoria do Imaginário Social. Segundo um de seus adeptos, o Frances Michel Maffesoli, “o imaginário e uma forca social de ordem espiritual, uma construção mental, que se mantém ambígua, perceptivel, mas nao quantificável” (2001, p. 75). Sob a optica do imaginário, e possível apreender que relações se estabelecem entre uma obra literária e os pensamentos e emoções de um determinado grupo.
O imaginario social pode ser apreendido através de referencias simbólicas que
uma
sociedade estabelece e que dao sentido a suas praticas. Na literatura, o
modo como e representada uma determinada sociedade, e o papel que seus
membros desempenham nas relacoes entre si, enseja a leitura de aspectos
da identidade coletiva e da divisao de poderes dentro do universo
social. “As referencias simbolicas nao se
limitam a indicar os individuos que pertencem a mesma sociedade, mas
definem tambem de forma mais ou menos precisa os meios inteligiveis das
suas relacoes com ela, com as divisões internas e as instituicoes sociais, etc.” (BACZKO, 1986, p. 310).
Neste trabalho, investiga-se o texto dramático de Nelson Rodrigues sob a perspectiva do imaginário social, analisando como a representação da imprensa caracteriza, em obra do autor, uma forma de ver a cidade, constituindo um imaginário especificamente urbano. Para tanto, serão analisadas as tragédias Vestido de noiva (1943), O beijo no asfalto (1961) e Boca de Ouro (1959), atentando para a representação do meio jornalístico presente nessas obras.
A imprensa tem grande importância no desenvolvimento das cidades modernas, não apenas como fonte de informação, mas ainda pela sua capacidade de formar opiniões, influenciando sobremaneira o desenvolvimento dos imaginários sociais. Seu poder reside em se tratar de um campo pelo qual se realizam as funções do auctor. Para o sociólogo Pierre Bourdieu, o auctor, através da legitimidade que a sociedade lhe atribui, detém o poder de nomeação, ou seja, de determinar o que é e o que não á: “Ao
dizer as coisas com autoridade, quer dizer, a vista de todos e em nome
de todos, publicamente e oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrário, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como dignas de existir, como conformes a natureza das
coisas ‘naturais’” (1989: 114). Dessa maneira, pela confiabilidade que a imprensa tem junto as classes populares, e possível ao meio jornalístico, exercendo sua função de auctor, definir verdades e mentiras no grupo social em que atua.
Em Vestido de noiva, os repórteres dos jornais Diário e A Noite são os responsáveis por informar a população sobre o atropelamento de Alaide. Na época de sua estréia nos palcos, em dezembro de 1943, Vestido de noiva tornou-se logo famosa por sobrepor três planos de ação: alucinação, memória e realidade. O meio jornalístico aparece no terceiro plano, fornecendo ao espectador, no decorrer da peca, informações sobre o acidente que envolveu a protagonista, a qual, agora, em estado de coma, mistura lembranças e alucinações, que são representadas nos dois outros planos de ação.
Essa função narrativa da imprensa fica explicita na cena em que os jornaleiros,
vendendo exemplares d’A Noite e do Diário, proferem as manchetes que atestam que Alaide assassinou o esposo Pedro, de maneira que também informam ao espectador de Vestido de noiva sobre a ampla cobertura da imprensa ao caso. Da mesma forma, o atropelamento de Alaide, do qual se ouviram ruídos no inicio da peca, passa a ser de conhecimento do espectador através do repórter Pimenta, quando o mesmo comunica ao redator do jornal Diário a ocorrência. A cena e composta por quatro telefones, “falando ao mesmo tempo”, como indica a rubrica do autor (RODRIGUES, 2004, p. 90): eles pertencem a Pimenta, ao redator do Diário, ao Carioca-Repórter e ao redator d’A Noite.Nesse dialogo rápido e entrecortado, onde se percebe a urgência dos dois jornais para publicar a noticia do desastre, e possível notar a influencia do ponto de vista de certos funcionários da imprensa sobre o conteúdo de suas publicações. Isso fica subentendido quando Pimenta emite sua opinião sobre a aparência física da vitima: “Bonita, bem vestida.” (RODRIGUES, 2004, p. 91). Ao mesmo tempo, e perceptível a necessidade de antecipar os acontecimentos, para que o próprio jornal esteja a frente de seus concorrentes na rapidez da informação:
REDATOR D’A NOITE – Morreu?
CARIOCA-REPÓRTER – Ainda nao. Mas vai. (RODRIGUES, 2004, p. 91)
Esses dois fatores interferem diretamente no produto que e veiculado ao leitor do jornal, posto que a interpretação dos fatos por parte do repórter e a necessidade de antecipar os acontecimentos futuros podem comprometer a veracidade da noticia.
Assim, a imprensa, mesmo que sob uma aparente imparcialidade, não pode se furtar a uma representação apenas parcial dos fatos, ocasionada pela intenção de publicar a noticia com antecipação e de não conseguir fugir ao julgamento dos elementos nela envolvidos. Por outro lado, o jornal não á só um meio de informar. Quando uma leitora se dirige ao redator identificando-se como testemunha do acidente, o que ela intenta não e prestar um depoimento esclarecedor sobre o caso (e nem e solicitada a fazê-lo pelo redator, que e o primeiro a desligar o telefone), mas reclamar da conduta dos motoristas.
Essa cena evidencia uma outra função da imprensa: dar voz as causas publicas. Embora esteja implícita
no dialogo a ma vontade do redator em atender a sua leitora (posto que
ele evite seus argumentos desligando o telefone), a mulher, ao telefonar
para a redação do jornal, tem a intenção de ver sua reclamação publicada, e disso se depreende a existência de um habito da imprensa de atender a essa espécie de pedido de seus leitores.
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07:37
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