sábado, 6 de agosto de 2011

EMCONTO ... ESPECIAL - DEZ ANOS SEM JORGE AMADO


EMCONTO COM AS CIDADES
POSTAGENS DOMINICAIS DE CONTOS 
QUE EXIBAM ALGUM DESTAQUE  À CIDADE

ESPECIAL HOJE  - 10 ANOS SEM JORGE AMADO

NEM A ROSA NEM O CRAVO ...


Jorge Amado

19 05 2008

As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
Jorge Amado
Publicado originalmente no jornal Folha da Manhã, 1945.
Extraído do
Projeto Releituras

TEMPOESIA ... ESPECIAL - DEZ ANOS SEM JORGE AMADO (1912-2001)

TEMPOESIA NAS CIDADES  
POSTAGENS  DE POESIAS QUE EXIBAM  ALGUM DESTAQUE À  CIDADE

ESPECIAL HOJE  - 10 ANOS SEM JORGE AMADO




JORGE AMADO - 10/AGOSTO/1912 - O6/AGOSTO 2001

 

[o texto (itálico nosso) a seguir foi extraído de Antonio Miranda]

Jorge Amado é poeta, sim senhor.  Por certo, publicou um livro de poesias no início de sua carreia de escritor: A ESTRADA DO MAR, em 1938.  Livro raríssimo. Estou à busca dele e não encontro em parte alguma. Deve estar na Casa de Jorge Amado, suponho. Já pedi a uma pessoa para buscar, mas nada...

Mas ele escreveu poemetos e os encaixou na voz de seus personagens. Mais do que isso: sua prosa é poética. “Poesia em prosa”, já escreveram sobre ele.
Quem chegou mais perto da poesia dele foi a fotógrafa Maureen Bisiliat, na edição de suas fotos em volume extraordinariamente belo — BAHIA AMADA AMADO ou O AMOR À LIBERDADE & A LIBERDADE NO AMOR (Empresa das Artes, patrocínio da Unisys, 1996). Livro de grandes proporções, encadernado em um branco superior, título em relevo. Beleza pura! E as fotos impressionantes.
Maureen escolheu textos das obras de Jorge Amado. Alguns, indiscutivelmente poéticos. Valemo-nos de alguns para esta primeira homenagem ao escritor baiano-universal. Quem tiver os poemas originais de A estrada do mar, que nos socorra!
Grandes canoas imóveis sobre a água parada.
Os saveiros, velas arriadas, dormiam na escuridão.
(em JUBIABÁ)
 
SEARA VERMELHA

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram  a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltara a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqüilidade se estendeu sobre a fazenda, as árvores, os animais e os homens.
Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:
Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem...

Vestidas de trapos sujos, algumas nuas, barrigudas e magras, as crianças brincavam de roda.
Farrapos de nuvens perdiam-se no céu de um azul claro onde primeiras e leves sombras anunciavam o crepúsculo.

TENDA DOS MILAGRES
Rosa sempre chega assim, inesperada, vem de súbito.
Da mesma forma inconseqüente desaparece...
Fuxicos, arengas, xeretices, pois em verdade
Ninguém sabe nada de concreto sobre Rosa.
Rosa brincava com as algas, todos os ventos em seus cabelos.
Todos os ventos, do norte e sul, o vento terrível do noroeste.
Na canoa ancorada ela deitava, a cabeça de fora, o cabelo no mar.
Parecia cabeça sem corpo, saindo d´água, dava arrepio.
Rosa maluca, Rosa do cais, tanta vezes mentias!

NOITE DOS “CAPITÃES DA AREIA”

A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar  em frente.                                        
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.

A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.

Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.

ABC DE CASTRO ALVES

“A praça do povo, amiga, como o céu é do condor”.
A praça é do povo, é o seu campo de batalha, onde ele protesta e luta.
Nãos vistes ainda a multidão se agitar na praça como um mar em tormenta que destrói navios e invade o cais?

          No tempo do poeta Castro Alves
          Os negros eram escravos comprados em leilões,
          Mercadoria que se vendia, trocava e explorava.
          E em troca de tudo que eles deram ao branco,
          Sua força, seu suor, suas mulheres e filhas,
          A maciez da sua fala que adoçou a nossa fala,
          Sua liberdade,
          O branco lhe quis dar apenas,
          Além do chicote, os deuses que possuía.

          Mas deuses os negros traziam da África,
          Os deuses da floresta e do deserto,
          E continuaram fiéis aos seus deuses
          Por mais que rezassem ao deuses
          Dos seus donos.

          Do fundo das senzalas vinha o choro convulso
          Dos negros no bater dos atabaques,
          Quando chegava do longínquo das praças
          A inquietação do homens...
          Era toda uma raça que sofria,
          Se desesperava e reagia,
          Conservando alguma coisa de seu,
          Puramente seu.

          ......

          Assim ele via o negro, magnífico, forte e belo,
          Rompendo as cadeias, livre na sua força colossal..
.

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

A viração desatava os cabelos lisos e negros de Flor,
punha-lhe o sol azulados reflexos.
No barulho das ondas e no embalo do vento.

Rompeu a aldeia sobre o mar de Itapoã,
a brisa veio pelos ais de amor, e,
num silêncio de peixes e sereias,
a voz estrangulada de Flor em aleluia;
no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MOBILIDADE URBANA ... (7)

MOBILIDADE URBANA:  PROBLEMA ANTIGO, NOVOS DESAFIOS (7)

NOTA DO BLOGUE

No ano passado (2010), em 27 de agosto - há quase um ano - nosso blogue deu início a uma série de postagens intitutalada BICICLETA, MOBILIDADE E INCLUSÃO SOCIAL.

Nesta primeira sexta-feira de agosto (2011), quando já alcançamos a sétima postagem da série MOBILIDADE URBANA:  PROBLEMA ANTIGO, NOVOS DESAFIOS, iremos reeditar a série do ano passado.

Vicente

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

BICICLETA, MOBILIDADE E INCLUSÃO SOCIAL (1)

O papel da bicicleta para a mobilidade urbana e a inclusão social

Arquiteto Sérgio Luiz Bianco
Coordenador GT Bicicleta ANTP

#####

Nota do Blog
(ANTP - Associação Nacional dos Transportes Públicos)

#####

Mais importante que uma ciclovia para a bicicleta é um caminho para o ciclista, pois esse é o caminho da cidadania.

O cenário

Esse ensaio se coloca dentro de uma realidade tanto econômica, quanta política como social e cultural. Estamos assistindo a grandes mudanças em nossa sociedade desde a questão do emprego onde a integração vertical é cada vez mais substituída pela terceirização e parcerias reduzindo o emprego formal, passando pela concentração econômica principalmente pelo sistema financeiro, pela globalização e por mudança de percepções dadas principalmente por novos paradigmas culturais e pelo excepcional avanço das comunicações, sem contar no grande processo de urbanização que o mundo vive, notadamente os países em desenvolvimento, colocando demandas sociais e problemas ambientais muito alem da capacidade dos estados em resolvê-las de forma isolada. Toda a reflexão aqui contida parte dessa percepção.

No campo dos transportes púbicos o que se vê hoje na maioria das cidades grandes e médias do Brasil é um momento de transição em que se nota uma desregulamentação dos sistemas existentes onde modais como o ônibus perde cerca de 25% da demanda entre 1994 e 2001 e pior, sua produtividade (medida entre passageiros transportados e distância rodada) caio no mesmo período de 2,2 para 1, 5, sem falar que pesquisa da NTU mostrou que o transporte clandestino esta presente em 63% das cidades brasileiras acima de 300.000 habitantes, o que mostra a gravidade da questão.

Dentro desse marco referencial que se pretende colocar a questão da bicicleta, levando em conta os caminhos que são postos pelos profissionais da área dentro e fora da ANTP como os mais prováveis para enfrentar os grandes desafios inerentes ao transportes e ao transito das nossas cidades, que na verdade se apresentam como os pressupostos, para que se formule políticas publicas especificas e exitosas, pressupostos como:

- Uma política tecnológica voltada para o aperfeiçoamento dos serviços e da gestão

- Uma gestão de recursos que distribua o ônus da mobilidade e garanta e sustentabilidade dos seus agentes a um custo tolerável para os usuários.

- A percepção de setores da sociedade que começam a clamar por uma nova cultura da mobilidade que de prioridade a formas de circulação coletivas, a pé e de bicicletas integrando em rede os diversos modos de transportes e garantindo a acessibilidade segura e confortável a todos os pontos das cidades.

- A cidade como ambiente de uso coletivo cujo acesso por meio de transporte deve ser dividido democraticamente entre os diversos meios priorizando no sistema viário respectivamente as pessoas com restrição a mobilidade, o pedestre, o ciclista, os meios de transportes coletivos e finalmente o transporte individual motorizado.

Dentro desse marco referencial cabe aos planejadores responder três questões em relação à bicicleta:

Qual o lugar da bicicleta no sistema viário?
Qual o papel da bicicleta nos sistemas de transportes?
Qual a imagem da bicicleta para melhorar a qualidade de vida?

A bicicleta seus primórdios no planejamento

A bicicleta surgiu no Brasil no fim do século XIX. A partir da década de 70, em função da crise do petróleo e de mudanças no padrão de comportamento das pessoas, que começaram a se interessar mais pelo cuidado com o corpo, é que surgiram as primeiras iniciativas com apoio de governos, no sentido de assumir a bicicleta como um modo de transportes a ser considerado. Em 1975 a Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo lançou a Operação Bicicleta que constava de um concurso de idéias sobre o tema e culminou com estudos para os municípios de Araçatuba e Indaiatuba. Em 1976 o GEIPOT publicou o manual Planejamento Cicloviário – Uma Política para as Bicicletas que passou a ser o grande texto sobre o tema no Brasil, e gerando estudos específicos sobre interseções, trechos lineares, estacionamentos e processos de planejamento.

Sempre que se fala de facilidades para circulação de bicicletas no Brasil o grande paradigma é Curitiba que desde a década de setenta agraves do IPPUC desenvolve procedimentos sistemáticos sobre a questão.

Hoje se pode afirmar que a importância da bicicleta cresceu ao olhar dos planejadores urbanos e de transportes, mas esta muito aquém das suas possibilidades. Analisando o trabalho publicado pelo GEIPOT em 2001 Planejamento Cicloviário: Diagnóstico Nacional vemos que ainda esta longe o dia em que poderemos comemorar o milésimo quilômetro de ciclovia implantado no Brasil, apesar de esforços como os da Cidade do Rio de Janeiro que independente de ser uma grande cidade, implantou um processo que já está dotando a cidade com um sistema cicloviário de mais de 100 quilômetros, e ha dezenas de cidades com implantações nessa direção.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

MOBILIDAFE URBANA ... (6)

MOBILIDADE URBANA:  PROBLEMA ANTIGO, NOVOS DESAFIOS (6)

Vicente D, Moreira


Trocadilho à parte, fato é que a mobilidade urbana vem mobilizando pessoas e instituições cuja natureza não abriga  reflexões e opiniões deicisivas sobre o assunto; É o caso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Salvador (capital da  Bahia - Brasil ) que vem de  divulgar e promover debate sobre mobilidade urbana. Talvez nada haja de estranho em a OAB envolver-se na discussão sobre o assunto. Afinal, confortáveis e seguras condições de   mobilidade chegam hoje a criar expectativas de direito, de direito social. Direitos que, associados às mais variadas conquistas sociais de nosso tempo (idosos, pessoas com dificuldade de locomoção, deficientes visuais e auditivos, crianças, adolescente, estudantes.

Em muitos países europeus, idosos que dependem de andadeiras para a locomoção têm acesso direto da calçada (da estação)  ao interior do ônibus já que estes não têm degraus. Aqui e ali, constroem-se e exigem-se ciclovias, monotrilhos, veículos de massa especiais. faixas para pedestres, semáforos, passagens de nível ... não como presentes do poder público à população mas como reconhecimento de direitos. Afinal, o direito de ir e vir não  basta apenas estar previsto e albergado na Constituição; mas também a garantia de seu exercício, urbe et orbe, de modo confortável e seguro.

Em que pese sua importância, a dimensão da mobilidade urbana enquanto direito dificiimente aparece em artigos e debates

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

FCCV - O ASSALTO E A VÍTIMA IDEAL

FCCV - O ASSALTO E A VÍTIMA IDEAL

FORUM COMUNITÁRIO DE COMBATE À VIOLÊNCIA

Salvador - Bahia - Brasil

 

Leitura de fatos violentos publicados na mídia

Ano 11, nº 28, 01/08//11 

O ASSALTO E A VÍTIMA IDEAL


Dirigindo um automóvel na tarde de 25 de julho de 2011, na Avenida Garibaldi, uma advogada de 27 anos foi baleada em uma tentativa de assalto. A ocorrência foi amplamente veiculada pelos órgãos de imprensa que dispensaram razoável atenção ao caso, dando informações nos dias seguintes à ocorrência sobre o estado de saúde da vítima, sua transferência do Hospital Geral do Estado para o Hospital São Rafael entre outras.


Imagens do carro da advogada Ludimila Carneiro, fotografia da mesma, entrevista com o seu pai integraram o conteúdo das notícias as quais tomaram o caso como lastro para a colocação de reflexões relativas à segurança pública. Um dos pontos enfatizados diz respeito ao local e horário da ocorrência. Chamou-se a atenção para a localização da via, situada em importante área da Cidade, cortando prestigiosos bairros e contando com um trânsito bastante adensado. Quanto ao horário, o acontecimento verificado no período da tarde motivou deduções relativas à ampliação da falta de proteção, realçando-se uma imagem de insegurança na cidade: não existe mais lugar nem hora seguros. Ao lado destas constatações, pela fala do pai da vítima fica a crítica quanto à falta de policiamento em comparação com o elogio ao socorro imediato prestado pelo Serviço Móvel de Urgência  (SAMU).

O episódio assumiu a condição de âncora para a reativação de uma modalidade de “serviço à população” no que tange às reações a serem adotadas quando da situação de assalto tal qual aquela sofrida pela advogada Ludimila. Novamente aparece um rol de sugestões às próximas vítimas no que tange ao comportamento mais adequado a ser seguido durante a ação dos assaltantes de veículos quando o mesmo está em trânsito.

A TV Bahia entrevistou um policial militar o qual, entre outras sugestões aponta como necessário ao motorista vítima de assalto que, antes de fazer qualquer gesto, deve comunicar ao seu algoz o que irá fazer, para evitar que o assaltante interprete o movimento como uma reação de enfrentamento e responda a isto com violência. Conselhos dessa natureza já se converteram em script facilmente acessível em vários sites, grande parte deles relacionados com profissionais da área de segurança pública ou privada. A empresa carioca Securenet, por exemplo, considera que “bem orientada, a mulher pode reagir a um possível assalto de forma fria, sem se deixar levar pela emoção. Isto faz toda a diferença”.  

Há dicas que só são praticáveis se as circunstâncias favorecerem, por exemplo: “Nos semáforos, vá reduzindo a velocidade devagar, tentando chegar ao cruzamento quando o sinal estiver abrindo, se necessário parar fique sempre com a primeira marcha engatada”. Essa sugestão de caráter preventivo leva em conta uma situação ideal na qual o indivíduo ainda dispõe de condição de evitar o assalto, entretanto, o referido conselho só pode ser aplicado diante da circunstância indicada. Pergunta-se: não seria o comportamento indicado uma praxe dos motoristas, independentemente do medo do assalto?

Conforme as indicações, as habilidades do assaltado são bastante restritas. Ele não deve reagir, não deve tentar fugir, só deve responder ao que for perguntado, deve demonstrar calma, obedecer às ordens do seu algoz etc. As regras de conduta sugeridas contam, também, com apelos vagos como: “Constatou-se que 40% dos automóveis furtados estavam próximos de hospitais, faculdades, estações de metrô, escolas e casas de shows, ou seja, em locais de grande concentração de pessoas e veículos. Redobre a atenção aos transeuntes e a outros veículos quando estacionar em um desses locais”. Pergunta-se: quando se redobra a atenção, o assaltante desiste do propósito de assaltar? Em que consiste a ação de redobrar? 

Observando-se o teor das dicas, pode-se notar não apenas uma vítima ideal, mas um assaltante ideal. Ele poupará o assaltado se o mesmo atuar em conformidade com os comandos previstos nas dicas. Tem-se, assim, a idéia de um criminoso padrão que segue, nos minutos decisivos da ação criminosa, uma espécie de código diplomático, capaz de liberar a vítima de tormentos adicionais ao assalto. Trata-se de algo que envolve uma mútua colaboração.

Entretanto, a harmonia idealizada deve ser objeto de reflexão. Do lado da vítima, é esperado que a mesma responda a uma circunstância inusitada e perigosa com uma calma e frieza dificilmente verificáveis nas situações concretas, apesar das inúmeras histórias que narram assaltos diários. Do lado do agressor, não é conveniente tomar o modelo padrão proposto pelas dicas para interpretar aquele ou aqueles que se apresentam na cena do assalto real. Por exemplo, se o ladrão disser “cale a sua boca”, ainda assim, a vítima deveria dar o próximo passo e lhe dizer que vai retirar o cinto de segurança? 

É interessante observar que as recomendações não demonstram o sucesso daqueles que as seguem, embora bem intencionadas, elas não podem ser consideradas técnicas de segurança eficazes. Não são apresentados estudos que comprovem que os agressores teriam diminuído a sua agressividade, caso a vítima se comportasse em conformidade com o propalado script, também não são conhecidas pesquisas que atestem a relação direta entre a obediência às sugestões e a diminuição dos danos.  Um dos elementos que faltam para uma verificação condizente diz respeito aos porquês de cada ação dos assaltantes. Em vez de serem eles a dizer por que agiram de determinada maneira em dada situação, aparecem peritos que, por dedução, respondem à pergunta e a esta inferência é dado o status de explicação para o comportamento do criminoso, tornando negligenciável a interpretação do autor do crime a respeito da dinâmica da ocorrência.

Na situação do assalto à advogada Ludimila, ficou estabelecido, por fontes policiais e por algumas fontes midiáticas, que o agressor decidiu feri-la porque a mesma incorreu em nervosismo gerador do desligamento automático do carro – ela deixou “o carro morrer” – o que teria sido interpretado pelo assaltante como tentativa de reação, explicando-se, assim, o emprego da arma de fogo contra a vítima. Não foi necessário colher declarações do assaltante, que, por sua vez, fugiu depois dos disparos sem lograr êxito na sua intenção de roubar bens da vítima. A mera dedução sobre as razões dos atos do criminoso se configurou como esclarecimento da dinâmica do assalto e, assim, como “conseqüência óbvia”, chega-se ao retorno às bulas de orientação às vítimas deste tipo de crime.  

Cabe lembrar que a solução para os problemas da violência urbana não deve ser colocada como competência dos cidadãos enquanto vítimas potenciais. As soluções caseiras que misturam bom senso com sangue frio não são facilmente executáveis e, mais que isto, não estão à altura da complexidade dos riscos enfrentados pelos cidadãos diariamente. É preciso evitar o jeitinho da “hora H” quando se espera da vítima a condução da ocorrência de modo eficaz a ponto de se diminuir o dano.


A participação da sociedade em relação a este problema deve ser estimulada, mas não no sentido de se dotar o cidadão de uma espécie de perícia que possa convertê-lo em vítima bem sucedida.

CASA DO BENIN - SALVADOR - BAHIA - ATILENDE


CASA DO BENIN - SALVADOR - BAHIA -  BRASIL

ATILENDE


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

MOBILIDADE URBANA ... (5)

MOBILIDADE URBANA:  PROBLEMA ANTIGO, NOVOS DESAFIOS (5)

***************************************

Nota do Blogue


Nesta quinta postagem da série MOBILIDADE URBANA:  PROBLEMA ANTIGO, NOVOS DESAFIOS, vamos retomar, na íntegra,  o artigo de José Renato Nalini, "Sâo Paulo na UTI" publicado na última postagem (da série), dia 29 de julho.

Vicente.

**************************************************

[jornal Folha de São Paulo, São Paulo (SP - Brasil), 24 de julho de 2011, p. A3]

São Paulo na UTI

JOSÉ RENATO NALINI

________________________________________________________________________
Não é só o poder público o responsável: a cidade é de todos, e nenhum cidadão está liberado de se empenhar no processo de sua recuperação




A cada manhã, o paulistano acorda com notícias terríveis.

Mortes no trânsito, explosões de caixas eletrônicos, tão fácil obter material explosivo! Arrastões em restaurantes, sequestros, furtos e roubos de carro. Chacinas de jovens recrutados pelo tráfico, homicídios a esclarecer e vinculados a "queimas de arquivo".

 

Vive-se um clima de insegurança, a gerar difusa sensação de desamparo. Adicione-se a deturpação do esforço da Justiça Criminal com os "mutirões carcerários".

 

Explora-se a desconfiança no retorno do egresso ao convívio social e reforça-se a convicção de que aumenta a impunidade.

Não são os únicos dados em desfavor da vida paulistana. Há também o exagerado aumento dos moradores de rua. São milhares, a ocupar todas as regiões da cidade. Acena-se com o seu cadastramento, paliativo insuficiente. A legião é heterogênea: há os desempregados, os portadores de anomalia mental, os drogados. Não há como sustentar o direito a "morar na rua". Via pública se destina à circulação.

Outro indício de cidade enferma é a sujeira. Se a produção de lixo é maior do que a de outras urbes de análoga dimensão mórbida, como deixar de concluir que o paulistano está em deficit de consciência ambiental? Fealdade transparece ainda na pichação, sintoma de metrópole mal amada. Não é reconhecida qual instância de acolhimento.

O vilipêndio com agressões estéticas é próprio a quem não nutre o sentimento de pertença.

Esgarçados os laços de solidariedade, prolifera a violência. O trânsito é o fenômeno mais típico. Além dos acidentes, o estresse de caótica paralisação e congestionamento, algo provável a qualquer hora.[grifo nosso]

Tudo sinaliza a situação agônica do convívio na megacidade. O otimista dirá não ser assim. Muita coisa ainda funciona, a despeito das disfunções. Todos os dias, milhões acordam longe do trabalho, servem-se de péssimo transporte público, perdem horas no trânsito, ganham mal e, a despeito disso, se comportam com civilidade.[grifo nosso]

A capital bandeirante paga por seus erros. Fez escolha equivocada ao mutilar sua paisagem, ao sepultar seus rios, canalizar seus córregos, impermeabilizar seu solo, arrancar suas árvores, secar suas várzeas. Nada poderia resultar de bom dessa política de arrasa-terra.

Persiste na vocação ecocida e dendroclasta, desrespeita sua história. Elimina marcos arquitetônicos. Desestimula a preservação, demole parâmetros e torna a população carente de referenciais.

A opção preferencial pelo automóvel desprezou o pedestre, ser miserável, posto a respirar gás carbônico e partículas cancerígenas. O ciclista é também insultado, ameaçado, atropelado e morto. [grifo nosso]

Tudo vai desaguar em apatia e resignação. Fraturados os laços simbólicos, descrê-se da política e das instituições. Presságio de uma sociedade enferma. Tribos distintas disputam o exotismo do insólito. Algumas perseguem e espancam minorias. E pensar que São Paulo já foi uma cidade civilizada.

Quem a conheceu há poucas décadas o testemunha.

Hoje está na UTI e precisa de cuidados urgentes. Não é só o poder público o responsável. A cidade é de todos, e ninguém está liberado de se empenhar no processo urgente de sua recuperação.

_________________


JOSÉ RENATO NALINI, mestre e doutor em direito constitucional pela USP, é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de "A Rebelião da Toga", 2ª ed., editora Millennium.







Do artigo, fizemos os seguintes destaques para exibir o vulto que a mobilidade urbana assume no espectro atual dos  problemas de uma cidade - no caso, a maior do Brasil e da América Latina: Sâo Paulo ... capital do estado do mesmo nome.  

"O trânsito é o fenômeno mais típico. Além dos acidentes, o estresse de caótica paralisação e congestionamento, algo provável a qualquer hora."

"Todos os dias, milhões acordam longe do trabalho, servem-se de péssimo transporte público, perdem horas no trânsito, ganham mal e, a despeito disso, se comportam com civilidade".

"A opção preferencial pelo automóvel desprezou o pedestre, ser miserável, posto a respirar gás carbônico e partículas cancerígenas. O ciclista é também insultado, ameaçado, atropelado e morto."


Nas principais cidades brasileiras, um certame internacional de futebol - a Copa do Mundo de 2014 -  passou a exercer o papel, jamais praticado em tempo algum, por algum urbanista ou  um político com discurso 'especializado' nas questões da cidade. O certame passou a 'enxergar' necessidades urbanas jamais vistas, ou melhor, jamais privilegiada por quem quer que fosse; uma delas, a mobilidade urbana.

A novidade do  pensar a Copa tornou-se mais importante que o velho pensar  a cidade.

Salvador, capital da bahia, demoliu o decano Estádio da Fonte Nova a fim de que hoje (agosto/2011) pudesse estar a  construir uma arena (Arena Nova?). Porém a imprensa escrita da cidade dá, em seu noticiário cotidiano, infinitamente maior ênfase à polêmica (que parece interminável) entre BRT, VLT, um novo projeto de novo Metrô para a Avenida Paralela que, por sinal, é paralela à avenida que olha diretamente o mar ((chamada de 'Orla'), bela e também merecedora de atenção para  seus  velhos e específicos problemas de mobilidade urbana. Tudo isso sob o império da expectativa da Copa e, mais, das exigências da Federação Internacional de Futebol (a FIFA). 

O privilégio à Avenida Paralela se deve ao fato de ser a única, na capital do estado da Bahia, a permitir ligação imediata, direta, enttre o aeroporto e a estação rodoviária/Shopping Iguatemi e adjacências.


Voltando a São Paulo, na varedade sem  ter saído dela ou de qualquer outra cidade brasileira, o fato é que acidentes de trânsito, atropelos, agressões ao ambiente,  transporte  público de péssima qualidade, engarrafamentos/congestionamentos, o decanttado  'individualismo' do automóvel ... resumem e destacam, aqui e ali e num mesmo   universo urbano  (mobilidade urbana) os principais problemas das cidades do Brasil.