CRÔNICA DOMINICAL DE 18 DE JULHO DE 2010
O que fala ou o que grita uma cidade nas tardes de domingo? Sim, e nas manhãs de domingo?
Silêncio pela manhã.
Melancolia à tarde.
Isto não quer dizer, porém, que nas manhãs de domingo não existam e insistam os sons estridentes das sirenes de bombeiros, polícias ou ambulâncias; ou o barulho de ônibus, automóveis ou caminhões. Claro, esses barulhos existem ... mas o silêncio das manhãs e a melancolia das tardes dominicais absorvem e absolvem tais barulhos. Vamos com calma: então, se tais barulhos são ouvidos de segunda a sábado quem é o responsável pela orgia sonora dissonante de segunda a sábado? A algazarra dos transeuntes ... daqueles que passam em silêncio ou que passam conversando (alto ou baixo) e daqueles que gritam para vender seus produtos (camelôs).
As tardes de domingo, nas cidades, são melancólicas porque elas morrem juntamente com a morte do domingo, até que a ressurreição anunciada pela alvorada da segunda-feira reinicie um novo mundo
domingo, 18 de julho de 2010
CRÔNICA DOMINICAL DE 18 DE JULHO DE 2010
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MUNDO VASTO MUNDO DE 18 DE JULHO DE 2010
MUNDO VASTO MUNDO DE 18 DE JULHO DE 2010
Nesta edição, apresento a carta que recebí de uma das leitoras deste nosso Blog.
Date: Fri, 16 Jul 2010 15:08:47 +0000
Caros amigos,
Graças a protestos globais a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani acabou de escapar da morte por apedrejamento.
Ela ainda poderá ser enforcada, mas a execução por apedrejamento continua. Agora mesmo outras 15 pessoas estão no corredor da morte aguardando serem apedrejados, onde as pessoas são enterradas até o pescoço e pedras enormes são jogadas nas suas cabeças.
O perdão parcial a Sakineh, fruto dos esforços dos seus filhos em gerar uma pressão internacional, mostrou que se nós nos unirmos manifestando o nosso horror, nós poderemos salvar a vida dela e acabar com o apedrejamento de uma vez por todas. Assine a petição urgente agora e depois envie para todos que você conhece -- vamos acabar com estas execuções crueis agora!
http://www.avaaz.org/po/stop_stoning/?vl
Sakineh foi condenada por adultério, assim como as outras 12 mulheres e um homen, que aguardam o apedrejamento. Mas os seus filhos e um advogado diz que ela é inocente e que ela não teve um julgamento justo, dizendo que a sua confissão foi forçada e como ela só fala azerbaijano, ela não entendeu o que estavam perguntando no tribunal.
Apesar do Irã assinar a convenção da ONU que requere que a pena de morte seja usada somente para os “crimes mais sérios” e apesar do parlamento iraniano passar a lei banindo o apedrejamento ano passado, o apedrejamento por adultério continua.
Os advogados de Sakineh dizem que o governo iraniano “está com medo da reação pública no Irã e da atenção internacional” para acabar com o apedrejamento. E depois dos Ministros da Turquia e do Reino Unido se declararem contra a sentença de Sakineh, ela foi suspensa.
Os corajosos filhos de Sakineh estão liderando uma campanha internacional para salvar a sua mãe e acabar com o apedrejamento. Uma comoção internacional agora pode acabar com esta punição terrível. Vamos nos unir hoje ao redor do mundo para acabar com esta brutalidade. Assine a petição para salvar a Sakineh e acabar agora com o apegrejamento:
http://www.avaaz.org/po/stop_stoning/?vl
Com esperança e determinação,
Alice, David, Milena, Ben e toda a equipe Avaaz
Fontes:
Irã suspende apedrejamento de mulher por adultério:
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hv571JPald9bw84cvILn-E3M_ahQ
Pena de morte para mulher no Irã causa comoção internacional:
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4558434-EI294,00-Pena+de+morte+para+mulher+no+Ira+causa+comocao+internacional.html
Sakineh foi poupada mas 12 mulheres e três homens aguardam a morte por apedrejamento:
http://jornal.publico.pt/noticia/10-07-2010/sakineh-foi-poupada-mas-12-mulheres-e-tres-homens-aguardam-a-morte-por-apedrejamento-19796926.htm
Nesta edição, apresento a carta que recebí de uma das leitoras deste nosso Blog.
Date: Fri, 16 Jul 2010 15:08:47 +0000
Caros amigos,
Graças a protestos globais a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani acabou de escapar da morte por apedrejamento.
Ela ainda poderá ser enforcada, mas a execução por apedrejamento continua. Agora mesmo outras 15 pessoas estão no corredor da morte aguardando serem apedrejados, onde as pessoas são enterradas até o pescoço e pedras enormes são jogadas nas suas cabeças.
O perdão parcial a Sakineh, fruto dos esforços dos seus filhos em gerar uma pressão internacional, mostrou que se nós nos unirmos manifestando o nosso horror, nós poderemos salvar a vida dela e acabar com o apedrejamento de uma vez por todas. Assine a petição urgente agora e depois envie para todos que você conhece -- vamos acabar com estas execuções crueis agora!
http://www.avaaz.org/po/stop_stoning/?vl
Sakineh foi condenada por adultério, assim como as outras 12 mulheres e um homen, que aguardam o apedrejamento. Mas os seus filhos e um advogado diz que ela é inocente e que ela não teve um julgamento justo, dizendo que a sua confissão foi forçada e como ela só fala azerbaijano, ela não entendeu o que estavam perguntando no tribunal.
Apesar do Irã assinar a convenção da ONU que requere que a pena de morte seja usada somente para os “crimes mais sérios” e apesar do parlamento iraniano passar a lei banindo o apedrejamento ano passado, o apedrejamento por adultério continua.
Os advogados de Sakineh dizem que o governo iraniano “está com medo da reação pública no Irã e da atenção internacional” para acabar com o apedrejamento. E depois dos Ministros da Turquia e do Reino Unido se declararem contra a sentença de Sakineh, ela foi suspensa.
Os corajosos filhos de Sakineh estão liderando uma campanha internacional para salvar a sua mãe e acabar com o apedrejamento. Uma comoção internacional agora pode acabar com esta punição terrível. Vamos nos unir hoje ao redor do mundo para acabar com esta brutalidade. Assine a petição para salvar a Sakineh e acabar agora com o apegrejamento:
http://www.avaaz.org/po/stop_stoning/?vl
Com esperança e determinação,
Alice, David, Milena, Ben e toda a equipe Avaaz
Fontes:
Irã suspende apedrejamento de mulher por adultério:
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hv571JPald9bw84cvILn-E3M_ahQ
Pena de morte para mulher no Irã causa comoção internacional:
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4558434-EI294,00-Pena+de+morte+para+mulher+no+Ira+causa+comocao+internacional.html
Sakineh foi poupada mas 12 mulheres e três homens aguardam a morte por apedrejamento:
http://jornal.publico.pt/noticia/10-07-2010/sakineh-foi-poupada-mas-12-mulheres-e-tres-homens-aguardam-a-morte-por-apedrejamento-19796926.htm
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CHÃO (2) ... HERÁCLITOS DAS PEDRAS URBANAS
CHÃO (2)HERÁCLITOS DAS PEDRAS URBANAS
Vicente Deocleciano Moreira
Abriamos as alas desta nove série de postagens com dois mestres sala da Música Popular Brasileira (MPB), Chico Buarque e Francis Hime, e sua obra d'arte intitulada VAI PASSAR.
Nada mais heraclitiano que esse título. O filósofo grego Heráclito (540 - 470 antes de Cristo ) nos alertou que "sobre os que mergulham passam diferentes águas". Em outras palavras, 'ninguém mergulha duas vezes nas mesmas água de um mesmo rio'.
Queremos refletir e discutir sobre os calçamentos ("cabeça de nêgo", paralelepípedos, pedras portuguesas, lajotas ...) e os trilhos (ainda que sem uso urbano atual) de bondes e trens dos centros antigos das cidades; mais particularmente, sobre coo estes equipamentos são guardiães da memória dos acontecimentos (festas, funerais, desfiles cívicos, fatos cotidianos ...) que marcam a história de uma cidade.
O VAI PASSAR aponta para um futuro (mais póximo,menos próximo) em que, mais uma vez e celebrando o "mito do eterno retorno", passará o desfile carnavalesco, burlesco por excelência, e seus napoleões retintos (negros fantasiados com o uniforme do francês Napoleão Bonaparte), barões famintos, ou seja, pessoas que, durante todo o ano, sacrificaram a comida, a alimentação sua e da família para, enfim, comprar a fantasia de barão. E experimentar a glória, apoteose. a felicidade ("Ai que vida boa, ô lerê, ai que vida boa, ô lará") de sair numa escola de samba (Rio de Janeiro) ou num bloco de frevo (Recife), por exemplo.
Em VAI PASSAR, os paralelepípedos deixam a condição de seres brutos para, entes vivos, exalarem sua almas de memória:
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Todos os foliões passarão seus pés e carros aleg´ricos sobre o calçaento da velha cidade. E a cada passagem, cada pedra não será mais a mesma que fora antes. Tudo muda, as pedras mudam a cda pisada que sobre elas desferimos.
Vicente Deocleciano Moreira
Abriamos as alas desta nove série de postagens com dois mestres sala da Música Popular Brasileira (MPB), Chico Buarque e Francis Hime, e sua obra d'arte intitulada VAI PASSAR.
Nada mais heraclitiano que esse título. O filósofo grego Heráclito (540 - 470 antes de Cristo ) nos alertou que "sobre os que mergulham passam diferentes águas". Em outras palavras, 'ninguém mergulha duas vezes nas mesmas água de um mesmo rio'.
Queremos refletir e discutir sobre os calçamentos ("cabeça de nêgo", paralelepípedos, pedras portuguesas, lajotas ...) e os trilhos (ainda que sem uso urbano atual) de bondes e trens dos centros antigos das cidades; mais particularmente, sobre coo estes equipamentos são guardiães da memória dos acontecimentos (festas, funerais, desfiles cívicos, fatos cotidianos ...) que marcam a história de uma cidade.
O VAI PASSAR aponta para um futuro (mais póximo,menos próximo) em que, mais uma vez e celebrando o "mito do eterno retorno", passará o desfile carnavalesco, burlesco por excelência, e seus napoleões retintos (negros fantasiados com o uniforme do francês Napoleão Bonaparte), barões famintos, ou seja, pessoas que, durante todo o ano, sacrificaram a comida, a alimentação sua e da família para, enfim, comprar a fantasia de barão. E experimentar a glória, apoteose. a felicidade ("Ai que vida boa, ô lerê, ai que vida boa, ô lará") de sair numa escola de samba (Rio de Janeiro) ou num bloco de frevo (Recife), por exemplo.
Em VAI PASSAR, os paralelepípedos deixam a condição de seres brutos para, entes vivos, exalarem sua almas de memória:
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Todos os foliões passarão seus pés e carros aleg´ricos sobre o calçaento da velha cidade. E a cada passagem, cada pedra não será mais a mesma que fora antes. Tudo muda, as pedras mudam a cda pisada que sobre elas desferimos.
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sábado, 17 de julho de 2010
CHÃO DE MEMÓRIAS URBANAS (1) "VAI PASSAR"
CHÃO DE MEMÓRIAS URBANAS (1) "VAI PASSAR"
VAI PASSAR
Chico Buarque
Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passarS
VAI PASSAR
Chico Buarque
Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passarS
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17:43
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
A ALMA NOTURNA DA CIDADE (10.2 - FINAL) - MORADORES DE RUA
A ALMA NOTURNA DA CIDADE (10.2 - FINAL) - MORADORES DE RUA
(CONTINUAÇÃO DA ENTREVISTA COM TOMÁS CHIAVERINI)
Quando você dormiu no albergue, te pediram documento?
Tomás Chiaverini - Quando fui, estava sem nada. Disse que tinha perdido. Não existe muito controle sobre isso. Uma coisa interessante é que dei outro nome quando entrei porque tive medo que um técnico do Capes me reconhecesse. Antes, tinha passado uma noite acompanhando os trabalhos dele, e ele sabia que eu fazia esse livro. Foi a mesma pessoa que me recolheu entre os moradores de rua. Ele não me reconheceu.
iG - Como era o lugar?
Tomás Chiaverini - Era razoável. Entre os albergues, tem muita discrepância. Muitos são geridos por ONGs e alguns são altamente confortáveis, com cama bem arrumada, banheiro limpo. Eu fiquei num quarto com oito beliches, cama limpa para dormir e um mínimo de higiene. Durante o trabalho, visitei mais de dez. E dormi, disfarçado, em um.
iG - E como foi dormir na rua de fato?
Tomás Chiaverini - É muito tenso. Não preguei o olho. Todo mundo que mora na rua tem histórico de agressão, seja pela polícia, seja pelo boyzinho que quer fazer graça ou mesmo com os colegas.
iG - A pesquisa aponta que as brigas entre eles são as formas mais comuns de violência nas ruas. Por que isso acontece?
Tomás Chiaverini - Geralmente por bebida ou por drogas. O que acontece nesse espaços, e isso a pesquisa não consegue mostrar, é a forma como o tráfico usa a população de rua como disfarce. Frequentei o Glicério quase diariamente durante dois meses. Mas durante o dia. E entrevistei todo mundo que morava lá. Quando ganhei confiança, resolvi dormir no mesmo lugar. Mas à noite não vi aquelas pessoas que eu conhecia. Vi só o tráfico, gente que ia à noite vender crack naquele lugar. Isso acontece porque as pessoas não chegam perto de moradores de rua quando veem todos juntos, com aquelas fogueiras queimando. Ninguém passa lá. A sociedade vira o olho. um espaço ideal para quem quer vender ou consumir o crack. Quem mora ali dorme antes da meia-noite. Toma sua cachaça e dorme. Mas a uns 30 metros deles fica só quem vende o crack. Esses não dormem. Então você vê muita discussão entre eles, muita gente querendo roubar quem morava ali. A ameaça estava o tempo todo por perto. Me orientavam para guardar a carteira na cueca, dormir com o tênis debaixo da cabeça. Sempre tem um "noia" rondando, querendo roubar a esmola que você conseguiu.
iG - Sentiu medo da polícia?
Tomás Chiaverini - Embora haja suspeitas de assassinatos cometidos por policiais contra moradores de rua, como naquele caso em 2004, só vi policiais passando perto dos moradores sem muita aproximação. Eram como os outros pedestres: eles não te olham. Não vão parar uma viatura pra te revistar.
iG - E a Guarda Civil?
Tomás Chiaverini - O problema da Guarda Civil são os rapas. Isso eles faziam. Chegam com caminhão de lixo, pegam tudo e colocam no caminhão. Não vi acontecer, mas ouvi muitos relatos.
(CONTINUAÇÃO DA ENTREVISTA COM TOMÁS CHIAVERINI)
Quando você dormiu no albergue, te pediram documento?
Tomás Chiaverini - Quando fui, estava sem nada. Disse que tinha perdido. Não existe muito controle sobre isso. Uma coisa interessante é que dei outro nome quando entrei porque tive medo que um técnico do Capes me reconhecesse. Antes, tinha passado uma noite acompanhando os trabalhos dele, e ele sabia que eu fazia esse livro. Foi a mesma pessoa que me recolheu entre os moradores de rua. Ele não me reconheceu.
iG - Como era o lugar?
Tomás Chiaverini - Era razoável. Entre os albergues, tem muita discrepância. Muitos são geridos por ONGs e alguns são altamente confortáveis, com cama bem arrumada, banheiro limpo. Eu fiquei num quarto com oito beliches, cama limpa para dormir e um mínimo de higiene. Durante o trabalho, visitei mais de dez. E dormi, disfarçado, em um.
iG - E como foi dormir na rua de fato?
Tomás Chiaverini - É muito tenso. Não preguei o olho. Todo mundo que mora na rua tem histórico de agressão, seja pela polícia, seja pelo boyzinho que quer fazer graça ou mesmo com os colegas.
iG - A pesquisa aponta que as brigas entre eles são as formas mais comuns de violência nas ruas. Por que isso acontece?
Tomás Chiaverini - Geralmente por bebida ou por drogas. O que acontece nesse espaços, e isso a pesquisa não consegue mostrar, é a forma como o tráfico usa a população de rua como disfarce. Frequentei o Glicério quase diariamente durante dois meses. Mas durante o dia. E entrevistei todo mundo que morava lá. Quando ganhei confiança, resolvi dormir no mesmo lugar. Mas à noite não vi aquelas pessoas que eu conhecia. Vi só o tráfico, gente que ia à noite vender crack naquele lugar. Isso acontece porque as pessoas não chegam perto de moradores de rua quando veem todos juntos, com aquelas fogueiras queimando. Ninguém passa lá. A sociedade vira o olho. um espaço ideal para quem quer vender ou consumir o crack. Quem mora ali dorme antes da meia-noite. Toma sua cachaça e dorme. Mas a uns 30 metros deles fica só quem vende o crack. Esses não dormem. Então você vê muita discussão entre eles, muita gente querendo roubar quem morava ali. A ameaça estava o tempo todo por perto. Me orientavam para guardar a carteira na cueca, dormir com o tênis debaixo da cabeça. Sempre tem um "noia" rondando, querendo roubar a esmola que você conseguiu.
iG - Sentiu medo da polícia?
Tomás Chiaverini - Embora haja suspeitas de assassinatos cometidos por policiais contra moradores de rua, como naquele caso em 2004, só vi policiais passando perto dos moradores sem muita aproximação. Eram como os outros pedestres: eles não te olham. Não vão parar uma viatura pra te revistar.
iG - E a Guarda Civil?
Tomás Chiaverini - O problema da Guarda Civil são os rapas. Isso eles faziam. Chegam com caminhão de lixo, pegam tudo e colocam no caminhão. Não vi acontecer, mas ouvi muitos relatos.
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21:54
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
A ALMA ... (10.1- FINAL) - MORADORES DE RUA
A ALMA NOTURNA DA CIDADE (10.1 - FINAL)- MORADORES DE RUA
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Vivo na beira da praia
Com a sorte que Deus me deu
Maria mora com as outras
Quem paga o quarto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
(Dorival Caymmi - "Eu Não Tenho Onde Morar")
Moradores de rua são"invisíveis" para sociedade
Escritor se passa por morador de rua e relata, em entrevista ao iG, experiência de quem vive essa realidade.
Matheus Pichonelli, iG São Paulo | 03/06/2010 03:35
Durante quase dois anos, o jornalista e escritor Tomás Chiaverini, de 28 anos, percorreu as ruas de São Paulo e conviveu de perto com a situação dos moradores de rua da capital. Fez contatos, acompanhou ações da prefeitura, e se disfarçou de mendigo antes de ser recolhido em albergues e passar a noite com os moradores de rua do centro da cidade.
Os relatos sobre a experiência deram origem, em 2007, ao livro Cama de Cimento. Com a experiência de quem viveu a situção na pele, Chiaverini diz que a sensação é de violência real nas ruas da capital. Segundo ele, durante a noite há sempre a tensão diante da iminência de uma possível agressão.
Após analisar o levantamento feito pela Fipe sobre a população de rua na cidade, ele diz ter ficado surpreso com o aumento de moradores nessa situção nos últimos anos apurado pela pesquisa. Segundo ele, a sensação é de que nada do que está sendo feito resolve definitivamente o problema, já que esse aumento coincide com a pujança vivida pela economia no período.
Leia também: Oito personagens relatam o drama de viver na rua
A seguir, a entrevista:
iG - Chamou atenção o fato de durante esses anos ter crescido o número de moradores de rua em São Paulo?
Tomás Chiaverini - A estimativa que tinha em 2003 era que existiam 10 mil pessoas em situação de rua. Aumentou muito. É estranho aumentar tanto numa época em que a economia melhorou. Acho que isso é uma prova de que a política para essas pessoas não funciona. Parece que nada do que está sendo feito resolve definitivamente o problema. Conversei com pessoas muito sérias, gente que estudou o assunto a vida toda. Vi albergues muito bons, com espaço, programas de reinserção. Tem quem passa por esses lugares mais de três vezes e no fim sempre volta para rua. Mesmo a vanguarda da assistência social ainda se pergunta como fazer. Tem a questão econômica, que é fundamental. Mas se o problema for dinheiro, ele fica na casa de alguém e dá um jeito.
iG - O problema não é só econômico, então?
Tomás Chiaverini - Os motivos que levam as pessoas às ruas são diversos. Tem o catador de lata que não consegue voltar para casa com a carroça e acaba dormindo nela. Ou brigou com a mulher e nunca mais voltou para casa. Ou por causa das drogas, do álcool, pessoas não são mais aceitas dentro de casa. Tem quem perdeu emprego de uma forma traumática, violenta. Ou ex-presidiário que não é mais aceito aonde veio. Sempre tem outra coisa além da questão financeira. Não adianta dar trabalho ou dinheiro. Falta outra coisa. Cada um tem uma falta diferente, e o mais difcil é saber como tratar histórias tão diferentes de forma a não generalizar. Para alguns vai ser preciso tratar do alcoolismo. Já outros precisam de psicólogo.
iG - O que acha dos moradores e comerciantes que se mobilizam para não dar ajuda nem comida a essas pessoas?
Tomás Chiaverini - Não adianta não dar comida. Não é tirando o pouco de conforto que elas têm que elas vão ser ajudadas. Você pode resolver o seu problema, e não o delas. Porque elas vão para outro lugar. Comida e abrigo são questões emergenciais e é preciso impedir que elas morram de frio ou de fome. Essa é a primeira coisa. Depois se pensa em tirá-las da rua. Suspender a comida é como exterminar. É como dizer: 'vamos tornar a vida dessas pessoas insuportável. Vamos passar óleo na frente da loja, água pra em cima de quem dorme'.
iG - Como foi dormir na rua durante sua experiência?
Tomás Chiaverini - Na verdade, não dormi nenhuma noite. É impossível dormir. É muita tensão. Algumas vezes estive junto com técnicos do Capes. Uma vez passei a noite embaixo do [viaduto] Glicério, e outra em um albergue. Dessa vez, me disfarcei e fui recolhido. Me mandaram para um albergue na rua Na Paes de Barros.
iG - A abordagem chegava a ser violenta?
Tomás Chiaverini - Em São Paulo, não muito. Li recentemente uma reportagem da revista Piauí [sobre a Choque de Ordem da prefeitura] e achei que no Rio a situação é mais violenta. Quando fiz o trabalho, entre 2005 e 2006, as pessoas perguntavam quem estava interessado em seguir para o albergue. Quem estava ia, quem não estava, ficava.
iG - Por que muitos não vão para esses albergues?
Tomás Chiaverini - Muitas vezes porque você não pode levar grandes pertences. Mala de mão, sim. Agora, carroça e cachorro não podem levar. E as pessoas não queriam deixar eles de fora. Fizeram, no governo Marta [Suplicy, prefeita entre 2001 e 2004] uma experiência, o Projeto Oficina Boracia, com lugar para deixar carroçaa e animais. Mas depois me parece que mudou o perfil desse albergue.
Outra coisa que muitos me relatavam era que o rompimento dessas pessoas com a sociedade, antes de ir para as ruas, foi tão forte que eles acabam não se adaptando às regras do albergue. Na rua você vive num cotidiano de total liberdade, apesar de privado do conforto da vida moderna. Essa noção de liberdade e ruptura com a vida em sociedade não se encaixa na realidade do albergue, que tem regra para tudo. Tem regra para tomar banho, para jantar, para acender a luz, para sair do quarto. Tem fila pra tudo. É um esquema de quartel.
Outra coisa: muitos querem mesmo ser recolhidos, principalmente em época de frio. Até para evitar que morram. Agora, eles são levados para onde tem vaga. Então, quem vive na região da Praça da Sé pode ser levado para um lugar a 30 km dali. E, no dia seguinte, não tem vaga garantida para esse albergue e ele vai ter que voltar. Muitas vezes sai de lá de ressaca, não sabe onde está, não tem dinheiro pra voltar para aquela sua comunidade com quem mantém relação, seja com o dono da padaria, com o cara que deixa ele dormir no posto, debaixo da marquise ou mesmo com os conhecidos que o protegem.
(AMANHÃ, SEXTA-FEIRA, A ÚLTIMA PARTE DA ENTREVISTA)
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Vivo na beira da praia
Com a sorte que Deus me deu
Maria mora com as outras
Quem paga o quarto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
(Dorival Caymmi - "Eu Não Tenho Onde Morar")
Moradores de rua são"invisíveis" para sociedade
Escritor se passa por morador de rua e relata, em entrevista ao iG, experiência de quem vive essa realidade.
Matheus Pichonelli, iG São Paulo | 03/06/2010 03:35
Durante quase dois anos, o jornalista e escritor Tomás Chiaverini, de 28 anos, percorreu as ruas de São Paulo e conviveu de perto com a situação dos moradores de rua da capital. Fez contatos, acompanhou ações da prefeitura, e se disfarçou de mendigo antes de ser recolhido em albergues e passar a noite com os moradores de rua do centro da cidade.
Os relatos sobre a experiência deram origem, em 2007, ao livro Cama de Cimento. Com a experiência de quem viveu a situção na pele, Chiaverini diz que a sensação é de violência real nas ruas da capital. Segundo ele, durante a noite há sempre a tensão diante da iminência de uma possível agressão.
Após analisar o levantamento feito pela Fipe sobre a população de rua na cidade, ele diz ter ficado surpreso com o aumento de moradores nessa situção nos últimos anos apurado pela pesquisa. Segundo ele, a sensação é de que nada do que está sendo feito resolve definitivamente o problema, já que esse aumento coincide com a pujança vivida pela economia no período.
Leia também: Oito personagens relatam o drama de viver na rua
A seguir, a entrevista:
iG - Chamou atenção o fato de durante esses anos ter crescido o número de moradores de rua em São Paulo?
Tomás Chiaverini - A estimativa que tinha em 2003 era que existiam 10 mil pessoas em situação de rua. Aumentou muito. É estranho aumentar tanto numa época em que a economia melhorou. Acho que isso é uma prova de que a política para essas pessoas não funciona. Parece que nada do que está sendo feito resolve definitivamente o problema. Conversei com pessoas muito sérias, gente que estudou o assunto a vida toda. Vi albergues muito bons, com espaço, programas de reinserção. Tem quem passa por esses lugares mais de três vezes e no fim sempre volta para rua. Mesmo a vanguarda da assistência social ainda se pergunta como fazer. Tem a questão econômica, que é fundamental. Mas se o problema for dinheiro, ele fica na casa de alguém e dá um jeito.
iG - O problema não é só econômico, então?
Tomás Chiaverini - Os motivos que levam as pessoas às ruas são diversos. Tem o catador de lata que não consegue voltar para casa com a carroça e acaba dormindo nela. Ou brigou com a mulher e nunca mais voltou para casa. Ou por causa das drogas, do álcool, pessoas não são mais aceitas dentro de casa. Tem quem perdeu emprego de uma forma traumática, violenta. Ou ex-presidiário que não é mais aceito aonde veio. Sempre tem outra coisa além da questão financeira. Não adianta dar trabalho ou dinheiro. Falta outra coisa. Cada um tem uma falta diferente, e o mais difcil é saber como tratar histórias tão diferentes de forma a não generalizar. Para alguns vai ser preciso tratar do alcoolismo. Já outros precisam de psicólogo.
iG - O que acha dos moradores e comerciantes que se mobilizam para não dar ajuda nem comida a essas pessoas?
Tomás Chiaverini - Não adianta não dar comida. Não é tirando o pouco de conforto que elas têm que elas vão ser ajudadas. Você pode resolver o seu problema, e não o delas. Porque elas vão para outro lugar. Comida e abrigo são questões emergenciais e é preciso impedir que elas morram de frio ou de fome. Essa é a primeira coisa. Depois se pensa em tirá-las da rua. Suspender a comida é como exterminar. É como dizer: 'vamos tornar a vida dessas pessoas insuportável. Vamos passar óleo na frente da loja, água pra em cima de quem dorme'.
iG - Como foi dormir na rua durante sua experiência?
Tomás Chiaverini - Na verdade, não dormi nenhuma noite. É impossível dormir. É muita tensão. Algumas vezes estive junto com técnicos do Capes. Uma vez passei a noite embaixo do [viaduto] Glicério, e outra em um albergue. Dessa vez, me disfarcei e fui recolhido. Me mandaram para um albergue na rua Na Paes de Barros.
iG - A abordagem chegava a ser violenta?
Tomás Chiaverini - Em São Paulo, não muito. Li recentemente uma reportagem da revista Piauí [sobre a Choque de Ordem da prefeitura] e achei que no Rio a situação é mais violenta. Quando fiz o trabalho, entre 2005 e 2006, as pessoas perguntavam quem estava interessado em seguir para o albergue. Quem estava ia, quem não estava, ficava.
iG - Por que muitos não vão para esses albergues?
Tomás Chiaverini - Muitas vezes porque você não pode levar grandes pertences. Mala de mão, sim. Agora, carroça e cachorro não podem levar. E as pessoas não queriam deixar eles de fora. Fizeram, no governo Marta [Suplicy, prefeita entre 2001 e 2004] uma experiência, o Projeto Oficina Boracia, com lugar para deixar carroçaa e animais. Mas depois me parece que mudou o perfil desse albergue.
Outra coisa que muitos me relatavam era que o rompimento dessas pessoas com a sociedade, antes de ir para as ruas, foi tão forte que eles acabam não se adaptando às regras do albergue. Na rua você vive num cotidiano de total liberdade, apesar de privado do conforto da vida moderna. Essa noção de liberdade e ruptura com a vida em sociedade não se encaixa na realidade do albergue, que tem regra para tudo. Tem regra para tomar banho, para jantar, para acender a luz, para sair do quarto. Tem fila pra tudo. É um esquema de quartel.
Outra coisa: muitos querem mesmo ser recolhidos, principalmente em época de frio. Até para evitar que morram. Agora, eles são levados para onde tem vaga. Então, quem vive na região da Praça da Sé pode ser levado para um lugar a 30 km dali. E, no dia seguinte, não tem vaga garantida para esse albergue e ele vai ter que voltar. Muitas vezes sai de lá de ressaca, não sabe onde está, não tem dinheiro pra voltar para aquela sua comunidade com quem mantém relação, seja com o dono da padaria, com o cara que deixa ele dormir no posto, debaixo da marquise ou mesmo com os conhecidos que o protegem.
(AMANHÃ, SEXTA-FEIRA, A ÚLTIMA PARTE DA ENTREVISTA)
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pessoa apaixonada pelas cidades do mundo
às
08:11
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quarta-feira, 14 de julho de 2010
NÃO AS OBRIGUEM A SOFRER - NILCÉA FREIRE
CONTEUDO LIVRE
Não as obriguem a sofrer
NILCÉA FREIRE
________________________________________
É uma violência obrigar uma mulher a manter por nove meses a gravidez de um feto que nascerá morto ou morrerá instantes depois do parto
________________________________________
Sofrimento. Essa é a palavra que resume o sentimento de mulheres gestantes de fetos anencéfalos (com má-formação cerebral).
Além da dor imposta pelo diagnóstico, elas enfrentam uma verdadeira saga nos tribunais ao terem de negociar sua angústia com promotores e juízes em busca de conquistar o direito legal para interromper a gravidez. Infelizmente, no Brasil, a autorização para a antecipação de partos de fetos anencéfalos é feita caso a caso e envolve crenças e valores dos juízes.
No último dia 17, mais um tribunal autorizou a interrupção da gestação de um feto anencéfalo.
Apesar de negada em primeira instância, a decisão da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais foi unânime. O relator, desembargador Alberto Henrique, enfatizou que a continuação da gravidez "tornou-se um sacrifício para a mãe".
Essa liminar funda-se em três preceitos básicos da Constituição Federal de 1988: o respeito à dignidade humana; o direito à liberdade e à autodeterminação; e o direito a uma vida saudável.
Estima-se que, no país, 2.000 mulheres grávidas de fetos anencéfalos já interromperam a gestação por meio de alvarás judiciais.
Na maioria, são mulheres pobres e usuárias dos serviços públicos de saúde, em que a exigência da autorização judicial é condição para o procedimento.
Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia apontam que mais de 97% dessas mulheres estão expostas a riscos de saúde.
É uma violência obrigar uma mulher a manter por nove meses a gravidez de um feto que nascerá morto ou morrerá instantes após o parto. Também é desumano submetê-la a uma gestação de risco.
Nessa situação, é inegável a atitude autoritária do Estado, que força mulheres a se manterem grávidas contra sua vontade.
Portanto, é fundamental deixar claro que as mulheres não necessitam de tutela para tomar decisão; elas necessitam de informação e apoio para fazer suas escolhas.
Nesse processo, é importante que elas sejam vistas como sujeitos de direito e respeitadas como tal.
Diante desse contexto, urge que o Supremo Tribunal Federal coloque na pauta de seu pleno a questão. As quatro audiências públicas realizadas ao longo de 2009, que contaram com a participação de representantes governamentais, entidades da sociedade civil e especialistas da área forneceram elementos fundamentais à decisão dos ministros, incluindo toda sorte de contraditórios.
É preciso que haja uma decisão definitiva sobre o caso para que gestantes não sejam submetidas a uma verdadeira via-crúcis.
Estudos mostram que a maioria das mulheres grávidas de fetos anencéfalos prefere antecipar o parto. Pesquisa feita em 2008 pelo Ibope mostra que 72% das mulheres católicas entrevistadas são a favor de que grávidas de fetos anencéfalos tenham o direito de optar entre interromper a gestação ou mantê-la.
Uma alteração na legislação vigente não significará a obrigatoriedade da interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, mas a facultará e reconhecerá que o direito à não violência é inalienável.
É fundamental, nesses casos, que as mulheres possam decidir se desejam ou não levar adiante a gestação, e o Estado deve garantir todos os recursos necessários para dar suporte às suas escolhas.
________________________________________
NILCÉA FREIRE, 57, médica, é ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
Postado por conteudo livre às 09:25
Não as obriguem a sofrer
NILCÉA FREIRE
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É uma violência obrigar uma mulher a manter por nove meses a gravidez de um feto que nascerá morto ou morrerá instantes depois do parto
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Sofrimento. Essa é a palavra que resume o sentimento de mulheres gestantes de fetos anencéfalos (com má-formação cerebral).
Além da dor imposta pelo diagnóstico, elas enfrentam uma verdadeira saga nos tribunais ao terem de negociar sua angústia com promotores e juízes em busca de conquistar o direito legal para interromper a gravidez. Infelizmente, no Brasil, a autorização para a antecipação de partos de fetos anencéfalos é feita caso a caso e envolve crenças e valores dos juízes.
No último dia 17, mais um tribunal autorizou a interrupção da gestação de um feto anencéfalo.
Apesar de negada em primeira instância, a decisão da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais foi unânime. O relator, desembargador Alberto Henrique, enfatizou que a continuação da gravidez "tornou-se um sacrifício para a mãe".
Essa liminar funda-se em três preceitos básicos da Constituição Federal de 1988: o respeito à dignidade humana; o direito à liberdade e à autodeterminação; e o direito a uma vida saudável.
Estima-se que, no país, 2.000 mulheres grávidas de fetos anencéfalos já interromperam a gestação por meio de alvarás judiciais.
Na maioria, são mulheres pobres e usuárias dos serviços públicos de saúde, em que a exigência da autorização judicial é condição para o procedimento.
Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia apontam que mais de 97% dessas mulheres estão expostas a riscos de saúde.
É uma violência obrigar uma mulher a manter por nove meses a gravidez de um feto que nascerá morto ou morrerá instantes após o parto. Também é desumano submetê-la a uma gestação de risco.
Nessa situação, é inegável a atitude autoritária do Estado, que força mulheres a se manterem grávidas contra sua vontade.
Portanto, é fundamental deixar claro que as mulheres não necessitam de tutela para tomar decisão; elas necessitam de informação e apoio para fazer suas escolhas.
Nesse processo, é importante que elas sejam vistas como sujeitos de direito e respeitadas como tal.
Diante desse contexto, urge que o Supremo Tribunal Federal coloque na pauta de seu pleno a questão. As quatro audiências públicas realizadas ao longo de 2009, que contaram com a participação de representantes governamentais, entidades da sociedade civil e especialistas da área forneceram elementos fundamentais à decisão dos ministros, incluindo toda sorte de contraditórios.
É preciso que haja uma decisão definitiva sobre o caso para que gestantes não sejam submetidas a uma verdadeira via-crúcis.
Estudos mostram que a maioria das mulheres grávidas de fetos anencéfalos prefere antecipar o parto. Pesquisa feita em 2008 pelo Ibope mostra que 72% das mulheres católicas entrevistadas são a favor de que grávidas de fetos anencéfalos tenham o direito de optar entre interromper a gestação ou mantê-la.
Uma alteração na legislação vigente não significará a obrigatoriedade da interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, mas a facultará e reconhecerá que o direito à não violência é inalienável.
É fundamental, nesses casos, que as mulheres possam decidir se desejam ou não levar adiante a gestação, e o Estado deve garantir todos os recursos necessários para dar suporte às suas escolhas.
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NILCÉA FREIRE, 57, médica, é ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
Postado por conteudo livre às 09:25
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pessoa apaixonada pelas cidades do mundo
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22:12
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